Brasil, Noruega e Holanda querem ter o 1º corredor marítimo verde do Atlântico
maio, 28, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202622
Brasil, Noruega e Holanda apresentaram, na segunda-feira (25), na Embaixada da Noruega em Brasília, o primeiro estudo de viabilidade técnica e econômica de corredores marítimos verdes no Atlântico Sul. O objetivo é desenvolver um plano para o primeiro corredor verde em águas profundas conectando a Europa ao Brasil. Em 2023, o transporte marítimo entre as duas regiões foi responsável pela emissão de cerca de 4,7 milhões de toneladas de CO2e. Apenas nas rotas entre Brasil e Noruega, 88 viagens de grandes navios cargueiros emitiram 116 mil toneladas de CO2e, sendo 77% relacionadas a graneleiros que transportam soja, minério e celulose.
O documento foi elaborado pela consultoria norueguesa DNV, por encomenda do Conselho de Pesquisa da Noruega, e é resultado de mais de um ano de cooperação formalizada por um Memorando de Entendimento (MoU) assinado em fevereiro de 2025 entre os ministérios de Clima e Meio Ambiente da Noruega e de Portos e Aeroportos do Brasil. A Holanda aderiu à parceria em janeiro de 2026.
O estudo identificou três rotas prioritárias. A principal liga o porto de Vila do Conde, no Pará, a Karmøy, na Noruega, responsável por 66% das emissões bilaterais entre os dois países. A segunda conecta Santos a Rotterdam, maior porto da Europa. A terceira une Pecém a Rotterdam, com foco na exportação de hidrogênio verde, amônia e ferro verde no âmbito do programa Global Gateway, da União Europeia.
Para cada rota, foram avaliados três combustíveis com potencial de emissões líquidas nulas: biodiesel (FAME), amônia verde e metanol verde. Operar navios de emissão zero ainda custa entre 43% e 109% mais do que a operação convencional. O biodiesel apresenta vantagem imediata por poder ser utilizado nos motores atuais sem adaptações. Na rota Vila do Conde–Karmøy, entre 2026 e 2040, o custo total projetado é de US$ 252 milhões, 43% acima dos US$ 176 milhões da operação fóssil. A amônia verde totaliza US$ 291 milhões, enquanto o metanol verde apresenta custo até 109% superior à linha de base.
“O estudo oferece uma base de evidências compartilhadas sobre onde as rotas se tornam viáveis, onde os custos seguem desafiadores e onde a infraestrutura ainda precisa avançar”, afirmou William Nygaard, coordenador do projeto.
O novo marco regulatório da Organização Marítima Internacional (IMO) pode acelerar essa transição. O IMO Net-Zero Framework prevê multas de US$ 100 por tonelada de CO2e para quem não cumprir metas básicas e de até US$ 380 para os maiores emissores. Com isso, o sobrecusto do biodiesel verde em relação à operação convencional pode cair de 86% em 2026 para 8% em 2040, enquanto o da amônia cairia de 104% para 27%.
A parceria entre os países se apoia na complementaridade de competências. O Brasil contribui com uma matriz elétrica majoritariamente renovável e polos industriais próximos a portos estratégicos como Santos, Rio Grande, Itaqui, Pecém, Açu e Navegantes. A Noruega oferece tecnologia marítima avançada e já aprovou o primeiro terminal de abastecimento de amônia de baixa emissão do mundo. Já os Países Baixos entram com a infraestrutura logística de Rotterdam e experiência em tecnologias alternativas.
Segundo Astrid Hoem, secretária de Estado do Ministério do Clima e Meio Ambiente da Noruega, a combinação do setor energético brasileiro com a indústria marítima norueguesa cria uma cooperação estratégica para a descarbonização do transporte marítimo. Ela destacou, porém, que o principal desafio ainda é construir modelos de negócios economicamente viáveis.
O estudo aponta como obstáculo estrutural o fato de a maior parte dos graneleiros operar no mercado spot, sem contratos de longo prazo, o que dificulta investimentos em infraestrutura e frotas especializadas. Entre as recomendações estão a criação de consórcios entre armadores, donos de carga, portos, produtores e governos, além de acordos de compra de longo prazo.
Do lado brasileiro, o diretor Tetsu Koike, do Ministério de Portos e Aeroportos, afirmou que o principal gargalo não está na falta de investimento ou regulamentação, mas na coordenação entre os atores envolvidos. Segundo ele, ainda falta aprovar uma legislação específica para combustível sustentável de navegação. Em paralelo ao estudo, os três países pretendem lançar ainda em 2026 um edital conjunto de P&D, em parceria com a Finep, de cerca de R$ 450 milhões para pesquisas em combustíveis e tecnologias voltadas às rotas verdes.
Fonte: Valor Econômico
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