Carnes

Brasil propõe ao Uruguai ‘troca’ de volume de carne bovina para China

jul, 16, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202629

Com o esgotamento da cota de exportação de carne bovina para a China em 2026 já na metade do ano, o Ministério da Agricultura propôs ao governo do Uruguai uma “troca” de volumes autorizados entre os países que poderia incrementar as vendas brasileiras para os chineses em 100 mil toneladas a partir de 2027, apurou a reportagem. A quantidade equivale a quase um mês de embarques e mais de meio bilhão de dólares em receita nas cotações atuais da proteína.

Na negociação, o Brasil ofereceu repassar aos uruguaios a sua parcela da cota do Mercosul de exportação de carne bovina resfriada para a União Europeia de 2027 com tarifa reduzida. Uma fonte afirmou que o volume giraria em torno de apenas 7 mil toneladas. Em troca, o Uruguai abriria mão de 100 mil das 331 mil toneladas que tem para exportar para os chineses no ano que vem.

Os volume exportados no acumulado dos cinco primeiros meses mostram a diferença na capacidade de produção e penetração no mercado chinês de carne bovina.  O Brasil exportou 45.601 TEUs do produto neste período, enquanto o Uruguai apenas 4.879. Confira a seguir um levantamento das exportações de carne bovina do Brasil a Chinas nos últimos anos:

Exportação de Carne Bovina a China | Jan 2023 – Mai 2026 | TEUs

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)

O Uruguai teria dado aval à permuta dos volumes com validade a partir de 2027, mas o setor frigorífico brasileiro resistiu e a medida não foi concretizada entre os governos sul-americanos, disseram fontes. Consultado, o Ministério da Pecuária, Agricultura e Pesca uruguaio não respondeu. O ministério brasileiro não retornou. A Associação Brasileira da Indústria de Carnes (Abiec) não comentou.

Fontes afirmam que a medida não avançou por pressão de grandes companhias frigoríficas, que não querem perder espaço na União Europeia. O mesmo posicionamento tem sido levado ao governo para tentar uma proibição do uso de antimicrobianos para atender exigências sanitárias dos europeus.

Por outro lado, pequenos e médios frigoríficos defendem a troca. Muitas empresas são dependentes do mercado chinês e chegaram a desligar funcionários e dar férias coletivas com o esgotamento da cota chinesa. A interrupção das vendas deverá afetar o caixa dessas companhias. Um eventual acordo com os uruguaios abriria pelo menos mais um mês de vendas para os asiáticos e ajudaria a mitigar os efeitos financeiros para esses abatedouros.

Os frigoríficos uruguaios não enfrentam barreiras para exportar para a UE, ao contrário do Brasil, que ainda não comprovou controle de não uso de antimicrobianos na carne enviada ao bloco. Por isso, apontam fontes, a troca de cotas seria viável e rentável para ambos os países.

A Europa paga mais pela proteína. O preço médio pago pela carne brasileira neste ano está em US$ 9,1 mil por tonelada em cortes nobres de carne in natura, de acordo com dados da Abiec. A China desembolsa cerca de US$ 6,2 mil por tonelada, mas para peças de menor valor agregado no Brasil.

Outra fonte que acompanha o assunto disse que a troca de cotas não enfrentaria resistência do governo chinês e poderia ser viabilizada em um arranjo entre os países.

O Mercosul tem uma cota de 99 mil toneladas de peso carcaça (55% de carne resfriada e 45% de congelada) para exportar para a UE com tarifa reduzida de 7,5%. Esse volume, no entanto, só será atingido no sexto ano de vigência do acordo comercial, em 2031. Até lá, o volume será crescente a cada ano.

Em 2026, por exemplo, a cota com redução tarifária do Mercosul é estimada em 11 mil toneladas. Para 2027, serão 33 mil toneladas. Dessas, 18,1 mil toneladas serão de carne resfriada. A quantidade total será dividida entre os quatro países-membros. O Brasil, principal produtor e exportador, deverá ficar com a maior fatia, de pouco mais de 40%.

Das 18,1 mil toneladas de carne bovina resfriada, cerca de 7,6 mil toneladas seriam do Brasil e entrariam no acerto com os uruguaios. A divisão oficial, no entanto, ainda não foi feita no âmbito do bloco sul-americano. É esse volume que o governo brasileiro ofereceu ao Uruguai em troca de 100 mil toneladas para a China com tarifa de 12,5%.

O Uruguai tem cota de 324 mil toneladas para a China em 2026, mas exportou menos de 25% até maio, de acordo com dados oficiais do governo chinês. O ritmo é diferente da venda dos frigoríficos brasileiros. Oficialmente, já foram preenchidos 65% da cota de 1,1 milhão de toneladas neste ano, mas como há volumes em trânsito, os abatedouros já suspenderam a produção específica de cortes aos chineses e novos embarques em julho.

Há um estranhamento entre conhecedores do assunto sobre as razões que levaram o setor frigorífico a negar o acordo com os uruguaios.

“O Brasil vai ficar pelo menos dois anos sem cota para a União Europeia e não quis trocar por uma cota maior para a China”, disse uma fonte. No setor pecuário, a aposta é que o movimento tem como finalidade forçar queda no preço da arroba internamente.

O Brasil, na teoria, manteria sua cota Hilton para a UE, de quase 8,9 mil toneladas, que teve a tarifa de 20% zerada após a entrada em vigor do acordo Mercosul-UE. Fora dessa cota, a tarifa é de 12,8% sobre o valor da mercadoria no embarque, acrescida de € 3,04 por quilo. As vendas para a Europa, no entanto, podem ser suspensas a partir de setembro por conta do uso de antimicrobianos.

Uma fonte do governo uruguaio disse à reportagem que o tema não foi levado a frigoríficos e pecuaristas, mas que a negociação é vista como razoável pela amizade dos países e complementaridade dos mercados. Ela afirmou ainda que a medida seria positiva e “aceitável” não só para 2027, mas que fosse definida para o futuro.

Dados do Instituto Nacional da Carne (Inac) do Uruguai mostram que o país exportou 23 mil toneladas de carne bovina para a União Europeia no primeiro semestre deste ano, volume 36% menor que os embarques do mesmo período do ano passado (36,2 mil toneladas) e em linha com a quantidade enviada nos seis primeiros meses de 2024 (23,9 mil toneladas).

As vendas para a China somaram 82,7 mil toneladas de carne bovina de janeiro a junho deste ano, 12% menos que as 94 mil toneladas do mesmo período de 2025 e 19% menos que o primeiro semestre de 2024 (102 mil toneladas).

Fonte: Globo Rural

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