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Café pode repetir trajetória do cacau? Analistas veem risco de queda nos preços após recordes recentes

mar, 18, 2026 Postado porGabriel Malheiros

Semana202612

Especialistas do setor de café têm comparado o comportamento recente do mercado de café com o do cacau, projetando que os preços do grão também podem cair nos próximos meses — a exemplo do que ocorreu com o cacau após atingir máximas históricas em 2024.

A possibilidade de o café replicar a trajetória de queda do cacau foi um dos temas centrais das discussões na convenção anual da National Coffee Association (NCA), realizada na semana passada em Tampa, na Flórida.

“Eu ficaria surpresa se isso não acontecesse”, disse Carley Garner, estrategista sênior de commodities da DeCarley Trading, divisão da Zaner. “Acredito que o café é o novo cacau”, afirmou.

Os preços do cacau em Nova York atingiram um recorde em dezembro de 2024, superando US$ 12 mil por tonelada, impulsionados por condições climáticas adversas nos países produtores, que reduziram a oferta. Pouco mais de um ano depois, no entanto, as cotações despencaram mais de 70%, à medida que consumidores reduziram o consumo de chocolates premium e fabricantes passaram a diminuir o tamanho das embalagens ou reformular produtos com alternativas mais baratas ao cacau.

Assim como o cacau, o café arábica também registrou forte alta devido a problemas climáticos nas regiões tropicais, que afetaram a produção.

Em matéria de volume, somente no mês de janeiro, o Brasil registrou o embarque de 7.794 contêineres de café por via marítima, segundos dados recentes da Datamar. Essa cifra representa uma queda de 40,3% comparado ao mesmo ano do mês anterior.

Confira a seguir um levantamento dos embarques mensais de café brasileiro, registrados desde janeiro de 2023:

Exportação de café | Jan 2023 – Jan 2026 | TEUs

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração) 

O grão atingiu níveis recordes em fevereiro de 2025 e permaneceu valorizado em meio às distorções no comércio provocadas pelas tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A expectativa de uma recuperação significativa da produção no Brasil, maior produtor global, no entanto, tem pressionado os preços neste ano.

Corte de gastos e mudança no consumo

Uma pesquisa da NCA com 1.500 consumidores nos Estados Unidos, realizada em janeiro, mostrou que 61% dos entrevistados adotaram medidas para reduzir gastos com café. Parte deles diminuiu a frequência a cafeterias e passou a consumir mais em casa, enquanto outros migraram para marcas mais baratas. Ainda assim, o número total de consumidores de café não caiu, segundo a entidade.

O setor também tem reagido a esse cenário, afirmou David Behrends, sócio-diretor e responsável pela área de trading da Sucafina, uma das maiores comercializadoras de café do mundo.

Segundo ele, cafés arábica suaves mais caros — como os da Colômbia e da América Central — vêm perdendo participação de mercado, enquanto grãos robusta, mais baratos, ganham espaço.

A demanda por café ficou estagnada em 2025, de acordo com Carlos Mera, principal analista de café do banco holandês Rabobank, que não registrou crescimento no consumo no ano passado — em contraste com a média histórica de expansão anual de 2,3% antes da pandemia.

Mera avalia que a recente queda nos preços do café deve, com o tempo, chegar ao consumidor final e estimular novamente a demanda. Para 2026, a expectativa é de crescimento de 2%.

As diferenças na dinâmica de consumo entre café e cacau ajudam a explicar por que parte dos analistas duvida que os preços do café tenham uma queda tão acentuada quanto a observada no mercado de cacau.

Mesmo com a expectativa de uma safra recorde de café no Brasil, analistas afirmam que o impacto sobre os preços pode ser limitado.

Produtores estão mais capitalizados e tendem a vender de forma gradual, mantendo parte da produção estocada para recompor reservas, afirmou Cleber Castro, representante comercial de dezenas de fazendas no Brasil.

Reportagem de Marcelo Teixeira para Reuters

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