Chile propõe rota pelo Pacífico para exportações de Vaca Muerta rumo à Ásia
jul, 13, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202629
A ministra da Energia do Chile, Ximena Rincón, visitou o campo de Vaca Muerta, na província argentina de Neuquén, há algumas semanas e convidou a Argentina a utilizar os portos chilenos na costa do Oceano Pacífico para exportar petróleo e gás aos mercados asiáticos.
Um comunicado do Ministério das Relações Exteriores do Chile detalhou a proposta.
“O Chile pode atuar como um mercado regional próximo, estável e complementar para a produção energética de Vaca Muerta, oferecendo infraestrutura portuária, terminais de GNL (gás natural liquefeito), expertise regulatória, capacidades logísticas e uma localização geográfica estratégica para explorar, no longo prazo, rotas potenciais para os mercados do Pacífico”, afirmou o texto.
Os motivos da oferta são claros: o Chile importa praticamente todos os seus hidrocarbonetos, o que o torna vulnerável à volatilidade dos preços provocada pela guerra no Oriente Médio.
Santiago já depende das reservas argentinas. Em 2025, 20% das importações chilenas de energia vieram da Argentina, o equivalente a US$ 2,8 bilhões. Com isso, a Argentina tornou-se o segundo maior fornecedor de energia do Chile, atrás apenas dos Estados Unidos.
O plano ambicioso, no entanto, esbarra em um problema recorrente da Argentina: a burocracia governamental e o histórico pouco consistente do país como exportador de energia.
Integração energética e o histórico argentino
Daniel Dreizzen, diretor da consultoria Aleph Energy, afirmou ao Buenos Aires Herald que exportar pelo Pacífico representaria um enorme avanço para a Argentina, já que a América Latina é “completamente fragmentada do ponto de vista energético”.
No entanto, ele apontou dois motivos específicos que dificultam essa alternativa.
“O primeiro é que a Argentina sempre vai querer realizar esses projetos em seu próprio território, tanto por razões políticas quanto pelo impacto que isso representa para o desenvolvimento local”, afirmou.
Atualmente, há dois projetos de exportação de GNL em desenvolvimento na costa atlântica, na província de Río Negro.
O primeiro é o Argentina LNG, liderado pela petroleira estatal YPF em parceria com a italiana Eni e a Adnoc, de Abu Dhabi. O segundo é conduzido pela Southern Energy (SESA), consórcio formado por PAE, YPF, Pampa Energía e Harbour Energy.
O segundo fator apontado por Dreizzen é que o projeto também representaria um risco para o Chile, que dependeria de uma iniciativa localizada em outro país. Como precedente, ele citou o episódio de 19 anos atrás, quando a Argentina interrompeu abruptamente o fornecimento de gás ao país vizinho.
Na ocasião, uma onda de frio elevou fortemente a demanda doméstica argentina, e o país não conseguiu cumprir seus compromissos de exportação devido à queda da produção local. Como consequência, priorizou o abastecimento interno e suspendeu o envio de gás ao Chile.
“O Chile teve de importar gás natural liquefeito para gerar eletricidade, a um custo extremamente elevado, além de instalar unidades de regaseificação que ainda utiliza atualmente”, explicou Dreizzen.
Apesar desse histórico, ele destacou que as relações entre Argentina e Chile vêm melhorando e que hoje existem “muitos pontos em comum”.
Há três semanas, a província de Neuquén e a Região do Biobío, no Chile, deram um novo passo na integração energética e comercial ao assinarem uma série de acordos voltados ao aumento das exportações de petróleo e gás.
Na ocasião, foi criada a Mesa Neuquén–Biobío para Cooperação e Integração Energética, destinada a promover projetos relacionados ao transporte de hidrocarbonetos e ao fornecimento complementar de gás natural e eletricidade.
A infraestrutura necessária
Dreizzen afirmou que os principais desafios estão nas condições climáticas dos portos chilenos, como a elevação do nível do mar e a ocorrência frequente de fortes ondulações.
“É preciso melhorar a drenagem para permitir a entrada de navios maiores e reduzir o impacto das condições climáticas”, disse, acrescentando que também seria necessário modernizar o Oleoduto Transandino, que liga Neuquén à região chilena do Biobío.
Daniel Gerold, fundador da G&G Energy Consultants, afirmou ao Buenos Aires Herald que o gasoduto que liga Neuquén ao centro e ao norte da Argentina — de onde seguiria até os arredores de Santiago, no Chile — também precisaria ser ampliado.
Além disso, seriam necessárias obras de infraestrutura no lado chileno. Gerold citou o terminal de importação de GNL de Quintero, próximo a Valparaíso, onde está localizada a principal instalação de recebimento de GNL do país.
Segundo ele, seriam necessários investimentos para liquefazer o gás que chegaria da Argentina por gasoduto, transformando-o em GNL destinado à exportação.
Gerold também ressaltou que, apesar do histórico de tensões entre os dois países em razão das interrupções no fornecimento de gás, atualmente existe “um ambiente favorável para que todas essas iniciativas prosperem”.
O desafio burocrático
Mesmo que esses obstáculos sejam superados, ainda haveria questões regulatórias importantes a resolver, segundo o Centro de Economia Política Argentina (CEPA).
“O risco é que a ambição de alcançar os mercados asiáticos naufrague na burocracia governamental”, alertou o centro de estudos.
Em um de seus relatórios mais recentes, o CEPA afirmou que o sucesso dessas iniciativas “depende inteiramente da solução de uma complexa rede de entraves burocráticos, culturais, tributários e aduaneiros, que atualmente funcionam como barreiras invisíveis, porém eficazes”.
Os economistas do instituto afirmaram que exportar por meio de outro país exige um regime de “trânsito internacional” que atualmente “não dispõe da flexibilidade necessária”.
“Definir quem arrecada o quê, como calcular os royalties em um esquema de exportação indireta e quais isenções tributárias se aplicam para evitar a bitributação são questões que, se não forem resolvidas por meio de tratados bilaterais claros, transformarão a eficiência logística em um custo inviável”, afirmaram.
Segundo o CEPA, as autoridades aduaneiras dos dois países também precisam coordenar protocolos que garantam total rastreabilidade dos produtos sem provocar atrasos que comprometam as margens de lucro.
“Em última análise, o desenvolvimento desse corredor de exportação será um teste da maturidade da integração regional.”
Reprodução do Buenos Aires Herald.
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