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China avança em bens de consumo e já detém 26% da importação brasileira

jul, 15, 2025 Postado porDenise Vilera

Semana202530

A dependência brasileira de produtos americanos fechou o primeiro semestre perto do menor patamar em uma década, em um mercado cada vez mais dominado pela China, até mesmo em bens de consumo, como carros, motocicletas, freezers e fogões.

O Brasil importou US$ 21,7 bilhões dos EUA de janeiro a junho, 11,5% a mais que em igual período de 2024, mas o valor corresponde a 16% do total comprado pelo país, resultado que só é melhor nos últimos dez anos que os 15,5% do primeiro semestre do ano passado. Em 2022, essa fatia era de 19,3%. Com a busca por novos mercados sob a ameaça das tarifas de Donald Trump, a China vendeu US$ 35,7 bilhões nos primeiros seis meses deste ano, ou 26,3% do total comprado pelo Brasil, recorde histórico, em alta de 22,2%.

A China se tornou no ano passado a maior exportadora de carros para o Brasil, mesmo com a tarifação dos veículos elétricos, mas a entrada massiva de produtos passa também pelos segmentos de eletroportáteis e eletroeletrônicos e tem ganhado importância para o gigante asiático.

Desde o início do ano passado a importação de carros elétricos e híbridos passou a ser tarifada. Para os elétricos puros, sem motor a combustão, a tarifa saiu de zero em 2023 para 10% no início de 2024 e hoje já é de 18%. Mesmo assim, os carros chineses, principais alvos do aumento de tarifas, continuam sendo os mais importados pelo Brasil.

No primeiro semestre deste ano, a importação brasileira de veículos chineses somou US$ 2,05 bilhões, abaixo dos US$ 2,58 bilhões de iguais meses de 2024, mas 713% mais que no mesmo período de 2023. A Argentina, tradicional fornecedora brasileira, ficou bem atrás no ranking deste ano, com US$ 844 milhões vendidos.

Entre 2022 e 2025, o Brasil passou de 17º maior mercado dos veículos chineses para o sexto lugar, representando 5,6% do total.

Essa história se repete em vários eletroportáteis e eletroeletrônicos presentes nas casas dos brasileiros. No ano com o segundo verão mais quente da história no país, atrás apenas de 2024, a importação de aparelhos de ar condicionado da China somou US$ 498,5 milhões de janeiro a junho, com alta de 67% ante igual período de 2024, quando já houve alta de 64% sobre o ano anterior. O Brasil passou de 15º maior cliente dos itens chineses para o sétimo lugar no período de 2022 a 2025.

Os aspiradores de pó importados da China somaram US$ 51 milhões no primeiro semestre, 26% a mais que em igual período de 2024.

Mesmo nos itens em que o valor importado não cresceu, a China se mantém como fornecedora preferida no primeiro semestre deste ano. Fogões, grelhas e assadeiras elétricas somaram US$ 98,2 milhões, menos que os US$ 113,7 milhões do ano passado, mas sem comparação com o segundo fornecedor externo, a Alemanha, com US$ 2,3 milhões. Em televisores já montados, sem incluir partes e peças, a importação origem China foi de US$ 65,6 milhões. Hong Kong vem em segundo, com US$ 7,1 milhões. Telefones celulares, desta vez incluindo partes e peças, somaram US$ 650,6 milhões na origem China. Vietnã fica em segundo lugar, com US$ 291,5 milhões.

As estatísticas de comércio exterior do governo chinês mostram que o Brasil tem se tornado um cliente cada vez mais importante também nesses bens. O Brasil passou de 17º em 2022 para sexto maior cliente chinês este ano nas TVs. Nos fogões, grelhas e assadeiras elétricas, de 16º a 12º. Em ferros de passar roupa, saiu do 19º em 2022 para sexto em 2025, sempre de janeiro a maio.

Confira a seguir um histórico das importações brasileiras via contêineres da China a partir de janeiro de 2022. O gráfico foi elaborado com dados do DataLiner:

Importações de contêineres da China | Jan 2022 – Maio 2025 | TEUs

Fonte: DataLiner (clique aqui para ler o texto original)

Lia Valls, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), explica que a compra de produtos chineses tem aumentado de forma consistente a taxas bem acima do total das importações brasileiras. Em valor, explica, as importações também sobem acima da média, mas a desagregação em volume e preço mostra que a quantidade comprada da China sobe muito mais.

Em valor, a importação de origem China em 12 meses até maio aumentou 25,7% em valor, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic). Pelos dados do Indicador de Comércio Exterior (Icomex) levantado pelo FGV Ibre, a quantidade importada da China subiu 37,2%.

No mesmo critério, a importação total subiu 12,2% em valor enquanto a quantidade aumentou 16,7%. O volume importado da China também tem mantido ritmo acelerado este ano, com alta de 35% de janeiro a maio contra iguais meses de 2024, ante 12,4% de aumento na quantidade de importação total.

Os preços médios das importações da China, porém, têm caído, observa Valls. O Icomex mostra que eles 8,1% de janeiro a maio. Também houve queda nos preços da importação total brasileira, mas de apenas 2,6%.

“Essa questão de aumento de volume com queda de preços é peculiar da China”, diz Lia Valls. Isso não ocorreu em relação aos Estados Unidos. A importação de produtos americanos aumentou 13% em volume, de janeiro a maio, e os preços ficaram praticamente estáveis, com alta de 0,2%, segundo o Icomex. Os EUA são o segundo maior fornecedor do Brasil.

Na importação origem China em 2025, Valls lembra que houve em fevereiro a compra de uma plataforma de petróleo, item considerado não recorrente. A série histórica do Icomex, porém, mostra que o aumento muito maior da quantidade comprada da China é tendência antiga.

De 2015 a 2024 o volume desembarcado em produtos chineses no Brasil aumentou 146,2%. Em bens dos EUA o crescimento foi de 1,12%. Da Argentina, importante parceiro comercial do Brasil, a alta foi de 21,9%. Na mesma década, os preços de importações de origem China caíram 14,4% enquanto a americana subiu 50,9%. A argentina aumentou 7,3%. Dados da série do Icomex mostram ainda que a quantidade importada da China é sete vezes do que em 2006. Nesse período os preços médios dos produtos chineses subiram 14%.

José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), diz que as importações brasileiras têm se mostrado mais resilientes do que o esperado este ano, com base na expectativa de desaceleração da economia. Parte importante disso, observa, é explicada pela China.

O alto volume de importação resultou em contribuição negativa do setor externo no PIB do primeiro trimestre, o que é “inusitado”, destaca Livio Ribeiro, sócio da BRCG e pesquisador associado do FGV Ibre. “Mesmo com a supersafra de grãos, veio essa contribuição negativa, o que ficou bem fora da casinha. Foi inesperado”, avalia. Os dados do IBGE mostram que no primeiro trimestre a exportação de bens e serviços como componente do PIB cresceu 2,9%, mas as importações cresceram mais, 5,9%, na comparação com os três meses anteriores, com ajuste sazonal.

Dados da Secex mostram que a participação da China nas importações aumentou de 23,3% de janeiro a junho de 2024 para 26,3% em iguais meses deste ano. Independentemente do que resultar da política tarifária do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, avalia Castro, da AEB, a China irá continuar procurando expandir mercados. “E o mundo está se adaptando a essa nova China, que é um país que produz praticamente tudo, concorre com tudo e tem preço competitivo em tudo.”

Para Ribeiro, a evolução das importações brasileiras de produtos chineses não depende tanto dos rumos das políticas de Trump nem de seus efeitos no mercado internacional. “O fiel da balança, na minha opinião, são os lobbies se organizarem e conseguirem levantar barreiras. Porque os nossos lobbies são mais organizados do que a média. A potencial sobra de bens chineses pode vazar para outros lugares. De forma relativa, pode entrar muito mais produto chinês no Chile ou na Colômbia do que no Brasil. Porque nesses destinos os lobbies são menos organizados.”, Por isso, diz Ribeiro, o Brasil não deve ser alvo de uma “inundação” de produtos chineses.

O atual cenário de discussão de tarifas, diz, colocou “certa areia na engrenagem do comércio global”. “E a China passa por um momento de dificuldade de acelerar o dinamismo de seu consumo interno. Há um excesso de oferta de produtos chineses e esse excesso busca novos lugares para entrar.”

Tulio Cariello, diretor de pesquisa do Conselho Empresarial Brasil-China, diz que a liderança chinesa na importação brasileira de veículos não surpreende. Ele lembra que o cronograma gradativo de elevação de tarifas na importação de carros elétricos e híbridos vai até o ano que vem. Este ano repete em parte o que houve no ano passado, com forte importação de automóveis no primeiro semestre, para se antecipar à elevação de alíquota do imposto de importação em julho, avalia.

Pelo cronograma oficial, carros puramente elétricos, sem motor a combustão, por exemplo, tiveram alíquota de importação de 18% até junho. A elevação neste mês de julho levou a tarifa para 25%. Em 2026, novamente em julho, o imposto aumentará para 35%.

Além disso, diz Cariello, outras montadoras chinenesas estão desembarcando carros no Brasil, como GAC, Zeekr, Omoda & Jaecoo e Leapmotor, após caminho aberto por BYD e GWM. “Elas entenderam que existe mercado para carro elétrico no Brasil. E a BYD criou uma imagem positiva para o automóvel chinês. Hoje o carro chinês virou quase sinônimo de carro elétrico ou eletrificado”, diz.

Para Ribeiro, a importação de carros elétricos da China não é tão afetada por tarifas mais altas. Como os carros elétricos têm valor agregado mais alto e custam mais caro, seu consumo não é tão elástico a preço, diz. “O fato de a tarifa ter aumentado, evidentemente, diminuiu a margem, mas claramente não houve repasse integral ao preço. E mesmo que tivesse ocorrido, os chineses ainda continuam competindo com automóveis alemães e suecos, que são muito mais caros.”

Nos eletroportáteis e na linha branca, diz Cariello, a predominância do fornecimento chinês precisa considerar que houve muitos anos de investimento da China nos diversos setores industriais. Quando a China se abriu para investimentos externos, lembra, várias empresas americanas, europeias e japonesas se instalaram e passaram a produzir no país. “Os chineses aprenderam, passaram a fazer seu próprio produto e a concorrer com outras empresas tradicionais. Em alguns casos, como de ar condicionado, já estão bem à frente.” Ele diz ainda que há concorrência entre os próprios fabricantes chineses em vários ramos industriais, o que é fator adicional para a oferta de preços menores.

Os chineses, destaca Castro, da AEB, são velozes no desenvolvimento de produtos para conquistar novos mercados e competir com outros fornecedores. Dados de algumas importações refletem isso. Pelos dados da Secex, a Itália é atualmente a principal fornecedora externa de lavadoras de louças. Em 2022, a importação dessas lavadoras italianas somou US$ 42 milhões de janeiro a junho, valor que cresceu para US$ 83 milhões em iguais meses deste ano. A China vem em terceiro, mas cada vez mais perto da Itália. No mesmo período, a importação de lavadoras chinesas mais que dobrou, de US$ 16,6 milhões em 2022 para US$ 51,6 milhões neste ano, nos mesmos critérios.

Carilello destaca que em alguns itens a China lidera, mas vem seguida, ainda que de longe, por países do sudeste asiático, para os quais parte da indústria chinesa tem deslocado produção, na busca de custos mais baixos. Isso acontece, por exemplo, em celulares e suas peças, na qual a liderança chinesa vem seguida de Vietnã e Malásia. Em ar condicionado, a China vem acompanhada da Tailândia e de Singapura.

“Claro que devemos considerar o caso a caso, mas não há dúvida de que a China continuará na liderança de fornecimento em vários dos itens e setores”, diz Cariello. “Porque os chineses não só fornecem diretamente produtos finais. Eles também são grandes produtores de insumos. Smartphones e computadores de forma geral são bons exemplos disso. São produtos em que a China está presente hoje em todos os elos da cadeia produtiva, desde minerais estratégicos, até produção de componentes e definição do design. Então, de uma forma ou de outra, a China está sempre presente.”

Fonte: Valor Econômico

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