China dobra venda de carro para Brasil e engole rivais
abr, 28, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202618
De janeiro a março de 2026, a China exportou ao Brasil US$ 2,16 bilhões em veículos, quase o triplo dos US$ 763,8 milhões registrados no mesmo período de 2025. O total inclui carros a combustão que, embora ainda menos representativos, dobraram de valor, indicando que o interesse chinês pelo mercado brasileiro não se restringe aos eletrificados. O valor total exportado no primeiro trimestre deste ano também superou o recorde anterior para o período, de US$ 1,17 bilhão em 2024.
Com esse desempenho, o Brasil saltou da sétima para a terceira posição entre os principais destinos de veículos chineses entre janeiro e março de 2026, atrás apenas de Rússia e Reino Unido. No segmento de eletrificados — que inclui veículos elétricos e híbridos — o Brasil subiu do quinto para o terceiro lugar, atrás de Bélgica e Reino Unido. Já no ranking de veículos a combustão, o país avançou da 16ª para a sétima posição.
Os dados são da Alfândega chinesa e consideram os embarques realizados no primeiro trimestre. Parte dos veículos ainda está em trânsito e deve chegar ao Brasil nas próximas semanas. O transporte desses automóveis leva, em média, de 40 a 60 dias entre a saída da China e o desembaraço no Brasil.
Segundo especialistas, a agenda de aumento de tarifas de importação, o câmbio favorável e o período de lançamento de novos modelos explicam o ritmo mais intenso das exportações chinesas para o Brasil. Eles destacam que o avanço dos veículos chineses no país reflete a consolidação dessas marcas em um contexto de maior protecionismo global, incertezas econômicas e dificuldades da China em estimular sua demanda interna, fatores que impulsionam a aproximação comercial com o Brasil.
Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/MDIC), que consideram o que já foi desembaraçado no país, mostram parte desse impacto. No primeiro trimestre, as importações brasileiras de veículos da China somaram US$ 1,5 bilhão, alta de 552,5% em relação ao mesmo período de 2025. Os chineses responderam por 65,6% dos carros importados pelo Brasil. A Argentina ficou em segundo lugar, com 11,3% e US$ 253,2 milhões, registrando queda de 25,5%.
Para Tulio Cariello, do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), esse movimento antecipa o último aumento previsto no cronograma de elevação das tarifas de importação para veículos elétricos e híbridos. As alíquotas devem chegar a 35% em julho deste ano, ante os atuais 28% para híbridos plug-in e 25% para elétricos.
Relatórios da indústria automotiva, segundo o economista André Valério, indicam que as importações cresceram em 2021, mas ganharam força a partir de meados de 2023, quando se intensificou o debate sobre o aumento das tarifas. O cronograma foi definido em 2023 e passou a vigorar em janeiro de 2024, com elevação gradual das alíquotas, que começaram em 10% e chegarão a 35%. Antes disso, a importação de eletrificados era isenta.
Além desse fator, o aumento das exportações chinesas também reflete uma estratégia mais agressiva de vendas, impulsionada pelo ciclo da indústria automotiva e pelo lançamento de modelos 2026/2027.
O crescimento das importações também acompanha a maior demanda por veículos com o perfil oferecido pelos fabricantes chineses. “Há um interesse crescente por carros elétricos, que hoje são fortemente associados à China. O consumidor percebe esses veículos como produtos tecnológicos”, afirma Cariello. Segundo ele, a China respondeu por 97% das importações brasileiras de carros elétricos no primeiro trimestre e por 89% dos híbridos plug-in.
Dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) mostram que 74,1% das vendas de eletrificados no Brasil em 2025 foram de fabricantes chineses. A liderança foi da BYD, com 50,4% do mercado. No total, foram vendidos 223,9 mil veículos eletrificados no ano, alta de 26% em relação a 2024.
Há também uma melhora na percepção sobre os veículos chineses, inclusive os a combustão. “Os chineses focam nos elétricos, mas isso fortalece sua presença em outros segmentos”, diz Cariello.
Segundo a Anfavea, de janeiro a março deste ano foram licenciados 625,2 mil autoveículos no Brasil, alta de 13,3% em relação ao mesmo período de 2025. Os importados somaram 119,1 mil unidades, crescimento de 5,6%. Os veículos chineses, no entanto, avançaram mais rapidamente: 54,3 mil unidades, alta de 68,9%.
O presidente da Anfavea, Igor Calvet, lembrou que, em agosto do ano passado, a China ultrapassou a Argentina como principal fornecedora de veículos ao Brasil, posição que mantém há oito meses consecutivos.
A redução das importações de veículos argentinos também reflete mudanças na preferência dos consumidores, que têm optado por modelos elétricos. “A China oferece veículos tecnológicos a preços competitivos, com menor custo de combustível, o que tem atraído consumidores”, afirma Valério. Segundo ele, a imagem negativa dos carros chineses no passado foi superada.
Dados do Indicador de Comércio Exterior (Icomex), da FGV, mostram que o volume de importações brasileiras de bens de consumo duráveis chineses cresceu 204,8% no primeiro trimestre, na comparação anual. Em março, a alta foi de 330,7%. Já os preços médios caíram 9,6% no período.
Os automóveis representaram 71% das importações brasileiras de bens de consumo duráveis provenientes da China no primeiro trimestre e 8,2% do total de importações do país asiático.
Em contraste, as importações de bens duráveis da Argentina caíram 25,8% no mesmo período, com preços praticamente estáveis. Para a pesquisadora Lia Valls, da FGV, as tarifas brasileiras não foram suficientes para conter o avanço dos veículos chineses, devido à escala de produção e aos preços competitivos.
O câmbio também contribuiu para esse cenário. No primeiro trimestre de 2025, o dólar variava entre R$ 5,80 e R$ 5,90. Em 2026, ficou entre R$ 5,20 e R$ 5,30, favorecendo as importações.
Segundo Welber Barral, da BMJ, houve também desvio de comércio. O México, que era o terceiro maior destino de veículos chineses, caiu para a 12ª posição, com redução nas importações. Já países como Bélgica e Reino Unido ampliaram significativamente suas compras.
O contexto geopolítico também influencia o movimento, com a rivalidade comercial entre Estados Unidos e China e a adoção de políticas protecionistas em diversos países. Ao mesmo tempo, a China enfrenta dificuldades para expandir seu consumo interno, o que a leva a buscar novos mercados.
Os automóveis têm papel relevante na manutenção da China como principal origem das importações brasileiras, representando 26,3% do total no primeiro trimestre. Paralelamente, as relações comerciais entre os dois países seguem se intensificando, com aumento das exportações brasileiras para o mercado chinês.
A expectativa é que o fluxo de veículos chineses continue elevado nos próximos meses, aproveitando o atual nível de tarifas. No longo prazo, porém, a tendência é de redução das importações, com o avanço da produção local. Pelo menos cinco montadoras chinesas já anunciaram planos de fabricação no Brasil, incluindo BYD, GWM, Geely, Leapmotor e GAC.
Fonte: Valor Econômico
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