Comércio Brasil-México tem potencial, mas acordo é difícil
jul, 16, 2025 Postado porSylvia SchandertSemana202530
O fortalecimento da cooperação comercial entre Brasil e México pode ser uma alternativa para os dois países reduzirem parte das perdas caso o “tarifaço” anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, venha mesmo a se confirmar. Especialistas em comércio exterior ouvidos pelo Valor avaliam que um acordo bilateral entre Brasil e México poderia beneficiar o agronegócio brasileiro e atividades industriais que vão desde a cadeia de eletroeletrônicos até o setor químico. Eles ressaltam, porém, que a solução não é de curto prazo e tampouco capaz de substituir os EUA.
No fim de semana, Trump anunciou a cobrança de tarifas de 30% sobre produtos do México a partir de 1º de agosto. O Brasil já havia sido alvo de tarifas de 50%, anunciadas pelo presidente americano na semana passada e que entrariam em vigor também a partir do próximo mês.
O México tem dois principais acordos de cooperação econômica em vigor com o Brasil, chamados de ACEs. São eles o ACE 53 e o ACE 55, ambos assinados em 2002. O ACE 53 estabelece a eliminação ou a redução de tarifas de importação para 800 itens, cerca de 12% do comércio bilateral, por meio da concessão de margens de preferências recíprocas (reduções de tarifas de importação). O ACE 55, por sua vez, prevê livre-comércio para automóveis, veículos comerciais leves, caminhões, ônibus, máquinas agrícolas e autopeças.
“O que precisaria agora, e o Brasil tem tentando há algum tempo, é expandir esses acordos que existem com o México para incluir mais setores e mais produtos. Isso aumentaria muito o comércio bilateral”, afirma o ex-secretário de comércio exterior do Brasil e sócio da consultoria BMJ, Welber Barral.
Os sócios do Mercosul têm limitações para negociar separadamente acordo comerciais com terceiros. Existe, porém, o instrumento do ACE, no âmbito da Associação Latino-Americana de Integração (Aladi), por meio do qual o Brasil fechou dois acordos específicos com os mexicanos. O Mercosul também permitiu ao Brasil abrir negociações com o México para estabelecer uma área de livre-comércio.
As exportações do Brasil para o México somaram US$ 7,8 bilhões em 2024 enquanto as importações brasileiras daquele país chegaram a US$ 5,8 bilhões. O superávit foi de US$ 2 bilhões favorável ao Brasil no ano passado. O resultado, porém, encolheu US$ 1 bilhão entre 2024 e 2023, quando havia sido de US$ 3 bilhões. Os números demonstram que há espaço para crescer, dizem especialistas em temas comerciais.
Confira a seguir um histórico das exportações brasileiras de contêineres para o México a partir de janeiro de 2022. O gráfico foi elaborado com dados do DataLiner:
Exportações Brasileiras de Contêineres para o México – Jan 2022 a Maio 2025 – TEU
Fonte: DataLiner (Clique aqui para solicitar um demo)
Brasil e México negociam, há mais de duas décadas, um tratado de livre-comércio que enfrenta resistências de ambos os lados. Para os estudiosos, as tarifas de Trump podem criar um estímulo adicional para um acordo, assim como o alinhamento político entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidente do México, Claudia Sheinbaum, eleita no ano passado.
Sandra Rios, diretora do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes), avalia que, seja qual for o contexto político, esse tipo de negociação leva tempo: “Não é uma solução para o curto prazo. É mais uma sinalização de que o país está buscando opções”, diz ela. Procurados, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) e o Ministério de Relações Exteriores (MRE) não se manifestaram.
Rios concorda que há possibilidade de explorar diversas cadeias de valor com um acordo de livre-comércio entre Brasil e México, mas observa que, para isso, o Brasil precisa estar disposto a abrir o mercado para produtos mexicanos.
Ela avalia que as tratativas nunca foram adiante por uma série de fatores. Entre eles, o receio de diferentes governos sobre os efeitos negativos para a indústria brasileira uma vez que o México integra, com os Estados Unidos e o Canadá, o Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA), que substituiu o Nafta em julho de 2020, no primeiro mandato de Trump.
“Havia um temor de que o mercado brasileiro poderia receber produtos provenientes do México que não cumprissem as regras de origem [conjunto de normas que determina se um produto pode ser considerado originário de um país ou não], o que poderia ser uma forma de o Brasil importar produtos americanos indiretamente”, diz.
O México enxerga o Brasil como uma economia fechada e com uma série de barreiras não-tarifárias, segundo Rios. “Há uma certa falta de confiança entre os dois países que nunca se permitiu que se avançasse nessas tentativas.” Barral chama atenção ainda para o protecionismo do setor agrícola mexicano, que teme a concorrência da produção brasileira: “O Brasil não quer ampliar o acordo sem incluir o agronegócio. E o setor agrícola mexicano é muito protecionista.”
Frederico Lamego, superintendente de Relações Internacionais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), diz que o comércio bilateral entre Brasil e México é complementar e que as assimetrias podem ser resolvidas na negociação. “A lógica de um acordo comercial prevê instrumentos como exclusão de produtos sensíveis e períodos de desgravação prolongados, que podem chegar a dez anos ou mais, dando previsibilidade e tempo de adaptação aos setores envolvidos”, argumenta.
Lamego diz que Brasil e México representam 55% do PIB regional, 52% da população e 66% do comércio exterior na América Latina, mas reconhece que a integração econômica entre os dois países ainda está aquém do potencial. “Na prática, as barreiras comerciais ainda restringem o comércio bilateral.” Ele diz que há 434 oportunidades identificadas para produtos brasileiros no mercado mexicano, 95,6% relacionadas à indústria de transformação; cerca de 70% dos produtos comercializados entre os dois países ainda não contam com acesso preferencial.
O professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), Jorge Amâncio Oliveira, entende que a busca por novos parceiros comerciais não será eficaz a curto prazo. Há ainda diferenças no perfil de produtos exportados pelo Brasil para o México e para os EUA, o que limita a substituição imediata dos mercados. “Os produtos que são exportados para os EUA não são os mesmos que para o México. Um exemplo disso são as aeronaves da Embraer”, diz. E completa: “A escala de exportação de carne, soja e demais produtos agrícolas para os EUA também não é a mesma.”
Para Barral, um ponto favorável ao acordo é que os dois maiores países da América Latina têm mercados consumidores em nível semelhante de desenvolvimento. O México, porém, depende muito dos EUA. “Hoje 80% das exportações do México vão para os EUA. Sob a pressão das tarifas, eles [mexicanos] vão procurar expandir e diversificar relações comerciais e o Brasil é um grande candidato”, diz.
Fonte: Valor Econômico
Imagem gerada por inteligência artificial
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