Como os sapatos chineses de US$ 4,50 estão pressionando a indústria brasileira de calçados
jun, 02, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202623
Um par de calçados importado da China chegou ao Brasil em 2025 por um preço médio de apenas US$ 4,50.
Embora pareça apenas mais uma estatística do comércio exterior, o dado ajuda a explicar por que a indústria brasileira de calçados terminou o ano produzindo menos, empregando menos pessoas e perdendo espaço no mercado interno e externo.
Enquanto fabricantes nacionais enfrentavam juros elevados, desaceleração do consumo e aumento da concorrência internacional, as importações avançaram 20,6% e alcançaram 43,2 milhões de pares, o maior volume da última década.
O resultado foi um cenário desafiador para um setor tradicionalmente forte na indústria brasileira. Mesmo com o preço dos calçados subindo cerca de 4% em 2025, a produção nacional recuou 1,9%, para 847,5 milhões de pares.
Os dados fazem parte da 11ª edição do Relatório Indústria de Calçados – Brasil 2026, divulgado pela Abicalçados.
Segundo Haroldo Ferreira, presidente-executivo da entidade, 2025 foi um ano de muitos desafios para a indústria calçadista. O primeiro semestre foi impulsionado pela atividade econômica e pelas exportações, enquanto o segundo trouxe desaceleração do consumo, aumento do endividamento das famílias e um cenário internacional mais adverso.
A pressão veio principalmente da Ásia. China, Vietnã e Indonésia responderam por 78,5% dos pares importados pelo Brasil em 2025. Em valor, Vietnã, Indonésia e Itália concentraram 82,5% das compras externas.
O movimento não é novo, mas ganhou força nos últimos anos. Desde 2021, as importações crescem de forma contínua.
Dados obtidos pela Datamar mostram que o Brasil importou 2.479 TEUs de calçados ao longo dos primeiros quatro meses do ano. Confira a seguir os volumes mensais:
Importação de Calçados | Jan 2023 – Abr 2026 | TEUs
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
A diferença de preço ajuda a explicar esse avanço. Os calçados chineses chegaram ao país com valor médio de US$ 4,50 por par, um patamar difícil de ser acompanhado pela indústria brasileira, especialmente nos segmentos mais sensíveis ao preço.
Além dos tradicionais exportadores asiáticos, novos concorrentes começam a ganhar espaço. As importações vindas do Paraguai cresceram 76,1% em 2025. As Filipinas avançaram 122,6% em valor, enquanto o Equador registrou alta de 52,5% em volume.
O avanço dos importados ocorreu em um momento de enfraquecimento da demanda. O consumo aparente de calçados no Brasil caiu 1,9% em 2025, para 786,7 milhões de pares.
Em um mercado menor, a disputa por espaço ficou mais intensa. A produção nacional recuou para 847,5 milhões de pares e a utilização da capacidade instalada caiu para 73%, o menor nível dos últimos três anos. Na prática, uma em cada quatro máquinas das fábricas brasileiras ficou parada.
O varejo de tecidos, vestuário e calçados avançou apenas 1,3% em volume no ano, abaixo do desempenho do comércio como um todo. Com famílias mais endividadas e renda crescendo em ritmo menor, parte dos consumidores priorizou a compra de bens duráveis e reduziu gastos com roupas e calçados.
A desaceleração também atingiu o emprego. A indústria calçadista encerrou 2025 com 271,4 mil empregos formais, queda de 1,1% em relação ao ano anterior, o equivalente a cerca de 3 mil vagas.
O Rio Grande do Sul, principal polo exportador do setor, registrou a maior retração, de 5,7%. Já estados mais voltados ao mercado interno tiveram desempenho melhor. Bahia e Paraná cresceram 7,1% em empregos, enquanto a Paraíba avançou 3,3%.
Hoje, o Nordeste responde por 50,5% da produção nacional de calçados em pares.
No mercado externo, o cenário também se deteriorou. Em 2025, os Estados Unidos ampliaram as tarifas sobre produtos brasileiros, afetando o setor calçadista.
Segundo a Abicalçados, a medida provocou queda de aproximadamente um terço nas exportações mensais para o mercado americano em apenas quatro meses.
Os Estados Unidos permaneceram como principal destino em receita para o calçado brasileiro, com US$ 211,7 milhões em compras, mas o resultado ficou 2,1% abaixo do registrado em 2024.
No total, as exportações encerraram o ano em US$ 958 milhões, queda de 1,8%.
Segundo Ferreira, as exportações só não tiveram desempenho pior devido ao crescimento registrado no primeiro semestre de 2025.
Para 2026, a perspectiva segue cercada de incertezas. No cenário mais pessimista da Abicalçados, a produção nacional pode cair 1,2%. No mais otimista, avançará apenas 1,4%.
As exportações devem continuar pressionadas pelas tarifas americanas, pela desaceleração da Argentina e pelo aumento dos custos logísticos globais.
Para uma indústria que movimenta cerca de R$ 40 bilhões por ano e emprega mais de 271 mil pessoas, o desafio vai além de voltar a crescer. A questão agora é quanto espaço os fabricantes brasileiros conseguirão preservar em um mercado cada vez mais disputado por concorrentes estrangeiros.
Fonte: Exame
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