Petróleo e Gás

Conflito no Irã eleva preço do petróleo e acentua defasagem do diesel e da gasolina no Brasil

mar, 04, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202610

A intensificação dos conflitos entre Estados Unidos, Israel e Irã ampliou as diferenças entre os preços de combustíveis praticados no Brasil e no mercado internacional. Cálculos de analistas ouvidos pela reportagem apontam para diferenças de mais de 20% no diesel nesta terça-feira (3). Desde os primeiros ataques, no sábado (28), a defasagem da gasolina também se aproxima da casa de 20%.

Especialistas afirmam que a guerra está apenas no estágio inicial e, por isso, não é possível afirmar se as cotações devem se firmar em patamares mais altos. Há dúvidas, porém, se os aumentos serão repassados pela Petrobras no curto prazo.

Antes dos ataques, na sexta-feira (27), o diesel da Petrobras estava R$ 0,12 abaixo do produto importado, segundo a StoneX. Já no fechamento de ontem (3), a StoneX calcula que a defasagem do produto da Petrobras subiu para R$ 0,94 abaixo da média do PPI mínimo, ou 29,2%, e R$ 1,10 abaixo da média do Golfo do México, ou 35,9%. No caso da gasolina, a defasagem foi de R$ 0,50, ou 19,5%.

Os produtos estão sendo reprecificados com base nas novas cotações, segundo Thiago Vetter, analista da StoneX. “As transportadoras apontam na terça-feira um aumento de R$ 0,20 no preço do diesel B, já pronto para consumo, em relação a segunda-feira”, diz.

Para o analista, ainda não é esperado que a Petrobras aumente o preço do diesel para acompanhar a cotação internacional. A companhia costuma esperar as cotações se estabilizarem antes de realizar alguma mudança, evitando repassar a volatilidade internacional ao mercado doméstico. Procurada, a Petrobras não respondeu.

Vetter, da StoneX, acredita que a petroleira possa esperar até abril para mudar o preço do diesel. “A Petrobras não deve fazer movimentação em momento de volatilidade”, diz. “Pode ser que a empresa enfrente alguma pressão por parte dos acionistas para se aproximar do preço importado. Mas, em se tratando de ano de eleição, a companhia deve esperar mais para aumentar o preço.”

Para a Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis (Abicom), o diesel da Petrobras saiu de um patamar de 12% abaixo do importado na sexta, ou R$ 0,39, para uma defasagem de R$ 1,31 na terça-feira, ou 40%.

Ontem, o petróleo tipo Brent fechou a US$ 81,40 por barril, alta de 4,7%. Desde sexta-feira (27), a commodity acumula avanço de 12,31%. No ano, o aumento chega a 33,77%. As cotações aceleraram depois que o Irã ameaçou a passagem de petroleiros pelo Estreito de Ormuz, por onde circula 20% do petróleo transacionado no mundo.

“Se a crise se prolongar, o barril vai a US$ 100. A Petrobras vai ser forçada a reajustar os preços”, afirma Marcus D’Elia.

Relatório de ontem do Itaú BBA aponta que o conflito no Oriente Médio ampliou o abismo entre os preços praticados no Brasil e no exterior. “Em comparação com a terça-feira passada (24), os preços de paridade de importação e exportação da gasolina e do diesel aumentaram acentuadamente, deixando o PPI [Preço de Paridade de Importação] 18% acima dos preços domésticos da gasolina e 23% acima dos preços domésticos do diesel.”

Segundo o presidente da Abicom, Sergio Araujo, o consumidor ainda deve sofrer por um tempo com preços de combustíveis mais altos. “O preço do petróleo deve ficar flutuando acima dos US$ 80 por barril. Com isso, a pressão de preço dos derivados aqui no Brasil deve acompanhar.”

A Abicom acredita que as refinarias privadas vão repassar os aumentos dos preços aos clientes, em cerca de 30% no caso do diesel e de 10% na gasolina, com variações a depender da região. “Nas regiões que são supridas majoritariamente por refinarias da Petrobras, esse aumento de preço ainda não vai ser sentido. Mas naquelas onde o consumidor depende de derivados de refinarias privadas ou importados, vai haver impacto do aumento do preço”, disse Araujo.

Marcus D’Elia, sócio da Leggio, ressalta que, nas contas da consultoria, a gasolina não era vendida com defasagem antes da eclosão da guerra. O diesel, por outro lado, tinha defasagem de cerca de R$ 0,30 por litro. Agora, ambos estão defasados, principalmente o diesel, vendido R$ 0,80 por litro mais barato no Brasil.

A expectativa do especialista é que o preço do barril de petróleo se estabilize ao redor de US$ 80 se a guerra levar a uma interrupção de apenas dez dias no Estreito de Ormuz. “Se a crise se prolongar, o barril vai a US$ 100. A Petrobras vai ser forçada a reajustar os preços.”

Amance Boutin, gerente de desenvolvimento de negócios da Argus, destaca que, no mercado internacional, um navio carregado com diesel russo e com previsão de entrega nos próximos 30 dias tem a carga avaliada em R$ 4,23 por litro no porto de Itaqui, no Maranhão. “Isso se compara com um valor cobrado pela Petrobras de R$ 3,17 por litro”, afirma Boutin.

No caso da gasolina importada, o preço está em R$ 2,89 por litro, comparado aos R$ 2,75 por litro cobrados pela Petrobras. “Olhando para o padrão dos últimos anos, é provável que ela [Petrobras] espere a tensão geopolítica cair ou se concretizar como uma nova realidade de mercado antes de tomar uma decisão de reajuste.”

Para Pedro Rodrigues, do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), é difícil prever os próximos capítulos em um cenário de alta volatilidade. “Como a Petrobras não segue mais o PPI, é impossível dizer se ela vai reajustar o preço daqui a uma semana ou dez dias. Sempre que o preço tem que ser reajustado para baixo, a velocidade do reajuste é alta. Quando tem que reajustar para cima, a velocidade é baixa”, critica.

Antes do ataque, na sexta-feira (27), a defasagem do diesel e da gasolina estava em 12,08% e 4,96%, respectivamente, segundo o CBIE. Agora, a gasolina vendida pela Petrobras tem defasagem de 22,94%, ou R$ 0,7761 por litro, segundo o CBIE. O diesel tem defasagem de 27,08%, ou R$ 1,2240 por litro.

Fonte: Valor Econômico

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