De vítima do embargo árabe ao maior exportador de petróleo do mundo
jun, 11, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202624
Os Estados Unidos se tornaram o maior exportador de petróleo do mundo, alterando uma ordem global que por décadas foi dominada pela Arábia Saudita e pela Rússia. A mudança amplia a influência das empresas americanas nos mercados de energia em um momento em que a guerra entre Washington e Irã está remodelando o comércio global de energia.
A ascensão dos EUA ao topo representa uma reviravolta impressionante para um país que, durante décadas, dependeu do petróleo do Oriente Médio e sofreu com o embargo petrolífero imposto por alguns membros da Opep em 1973, como retaliação ao apoio americano a Israel.
A situação começou a mudar após 2010, quando a produção de petróleo e gás das formações de xisto (shale) disparou, tornando os Estados Unidos primeiro o maior produtor mundial de gás e, posteriormente, o maior produtor de petróleo.
Com a guerra entre Estados Unidos e Irã interrompendo as exportações sauditas de petróleo desde fevereiro de 2026, e as exportações russas afetadas por ataques de drones ucranianos e por sanções americanas impostas a Moscou pela invasão da Ucrânia, os EUA passaram a ocupar a liderança mundial nas exportações de petróleo.
As exportações americanas de petróleo bruto e combustíveis alcançaram cerca de 10,5 milhões de barris por dia em maio, impulsionadas pela elevada produção e pela liberação de reservas estratégicas, segundo dados da empresa de monitoramento marítimo Vortexa. Com isso, os EUA lideraram o ranking global pelo terceiro mês consecutivo. As exportações russas ficaram em 7 milhões de barris por dia em maio, segundo cálculos da Reuters, enquanto as exportações sauditas somaram 5,9 milhões de barris por dia, de acordo com a Vortexa.
Em comparação, a Arábia Saudita exportou cerca de 8,1 milhões de barris por dia em 2025, enquanto os Estados Unidos embarcaram 6,6 milhões de barris por dia e a Rússia exportou aproximadamente 5,8 milhões de barris diários, segundo dados da Vortexa.
“Washington ganhou uma ferramenta que não percebia ter antes da guerra com o Irã: as exportações de energia”, afirmou Michelle Brouhard, diretora de políticas da empresa de monitoramento marítimo Kpler.
A nova predominância americana pode enfraquecer o poder de influência sobre os preços que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e seus aliados historicamente exerceram sobre o mercado. O presidente dos EUA, Donald Trump, critica há anos a Opep por manipular os mercados. O grupo também sofreu um revés em maio, quando um de seus maiores membros, os Emirados Árabes Unidos, deixou a organização após quase 60 anos.
A posição de maior exportador de petróleo do mundo também dá a Washington uma nova e poderosa ferramenta de negociação com aliados e rivais, somando-se à sua supremacia militar global e ao domínio dos mercados financeiros sustentado pelo papel do dólar como moeda de reserva internacional.
“Agora é possível ver a influência que os Estados Unidos exercem sobre alguns desses países porque eles dependem dos EUA para obter petróleo ou gás”, disse Brouhard, acrescentando que os Estados Unidos são o principal fornecedor de petróleo bruto da Europa e o segundo maior fornecedor de destilados.
Autoridades da União Europeia, que inicialmente receberam com entusiasmo o boom do petróleo e do gás americanos como alternativa ao fornecimento russo e do Oriente Médio, passaram a demonstrar maior cautela e alertaram para os riscos de uma dependência excessiva das empresas americanas.
Esse alerta surgiu em meio aos atritos entre a União Europeia e o governo dos EUA relacionados a tarifas comerciais e regulamentações ambientais.
Moscou também tem demonstrado dificuldade em esconder sua frustração.
As empresas de energia dos Estados Unidos foram as principais beneficiárias do fechamento do Estreito de Ormuz, afirmou neste mês Igor Sechin, presidente da petrolífera russa Rosneft e um dos aliados mais próximos do presidente Vladimir Putin.
Mas, muito antes da guerra entre EUA e Irã, tanto a Arábia Saudita quanto a Rússia já estavam ficando para trás em relação ao crescimento da produção americana.
A produção de petróleo bruto e líquidos nos Estados Unidos quase triplicou desde 2000, alcançando cerca de 22 milhões de barris por dia. Já a produção saudita oscilou entre 10 milhões e 12 milhões de barris por dia entre 2000 e 2026, dependendo das cotas definidas pela Opep.
Na Rússia, a produção de petróleo e líquidos saltou de 6 milhões para 10 milhões de barris por dia entre 2000 e 2010, cresceu mais 2 milhões durante a década de 2010, mas desde 2020 praticamente estagnou e recuou para menos de 10 milhões de barris diários.
A demanda global de petróleo aumentou de 87 milhões de barris por dia em 2010 para 104 milhões em 2025, o que significa que a maior parte do crescimento mundial dos últimos 15 anos foi atendida pelo boom da produção americana.
Em 2015, os Estados Unidos revogaram uma proibição de exportação que vigorava havia 40 anos, implementada após o embargo árabe. A medida abriu caminho para que o boom do petróleo americano alcançasse os mercados globais. Dez anos depois, o país tornou-se o maior exportador mundial, contrariando os céticos que acreditavam que o crescimento seria temporário devido ao esgotamento dos campos.
Diferentemente da Arábia Saudita e da Rússia, onde os governos definem total ou parcialmente metas de produção e exportação, o crescimento americano depende das decisões de empresas privadas e é guiado principalmente pela busca por lucro.
Quando os preços do petróleo sobem, as empresas americanas tendem a aumentar a produção, ajudando a reduzir os preços. Quando os preços caem, reduzem a produção, contribuindo para elevar as cotações, explicou Kenneth Medlock III, pesquisador de Economia de Energia e Recursos do Baker Institute for Public Policy.
“De certa forma, trata-se de um papel semelhante ao que a Opep e a Arábia Saudita desempenham com sua capacidade ociosa de produção, mas baseado mais em um mecanismo de mercado do que em uma estratégia deliberada”, afirmou.
Os países europeus passaram a depender fortemente dos Estados Unidos desde o início da guerra na Ucrânia, em 2022. Neste ano, o continente respondeu por cerca de 47% das exportações americanas de petróleo, ante 37% em 2021.
Os países asiáticos, que tradicionalmente compravam a maior parte de seu petróleo do Oriente Médio, também vêm aumentando sua dependência dos EUA. A Ásia representou cerca de 46% das exportações americanas de petróleo em maio, contra aproximadamente 37% no ano passado.
Fonte: Reuters
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