Automotivo

Déficit da balança comercial de veículos dispara com compras recordes de carros chineses

jul, 07, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202628

Impulsionada pela rápida entrada de veículos elétricos chineses, a balança comercial do setor automotivo brasileiro registrou um déficit de US$ 5,32 bilhões no primeiro semestre deste ano, o maior já registrado para o período desde o início da série histórica, em 1997. As importações foram as principais responsáveis pelo resultado, somando US$ 7,79 bilhões, também um recorde para o primeiro semestre e já superior ao total importado durante todo o ano passado (US$ 7,39 bilhões).

Especialistas apontam que a estrutura tarifária do país, o aumento do protecionismo global e as mudanças na produção e no mercado automotivo brasileiro explicam essa tendência.

Dos veículos importados no primeiro semestre, um recorde de 72% teve origem na China. A Argentina apareceu em um distante segundo lugar, com 9%, seguida pelo México, com 7%. Há apenas um ano, os veículos chineses representavam 50% das importações, enquanto a Argentina ainda detinha uma participação de 20%.

A mudança ocorreu rapidamente. Há cinco anos, considerando o mesmo período entre janeiro e junho, a China respondia por apenas 5% das importações, enquanto a Argentina liderava com 44%. Os dados foram compilados pelo Valor com base em informações da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/MDIC).

Enquanto as importações cresceram, as exportações brasileiras de veículos seguiram caminho oposto. No primeiro semestre, recuaram 15,2% em relação ao mesmo período do ano anterior, totalizando US$ 2,47 bilhões, bem abaixo do pico de US$ 3,3 bilhões registrado em igual período de 2017.

Os números das importações incluem veículos elétricos importados nos formatos SKD (semi-knocked down) e CKD (completely knocked down), cuja isenção tarifária foi prorrogada por mais seis meses em junho, dentro de cotas de US$ 463 milhões, conforme decisão do Comitê-Executivo de Gestão (Gecex/MDIC). A montadora chinesa BYD havia solicitado a isenção no ano passado, enquanto preparava a inauguração de sua fábrica em Camaçari (BA). Agora, o Gecex renovou o benefício por mais seis meses, após o vencimento da extensão anterior, em janeiro.

Antes da renovação, o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Igor Calvet, afirmou que a entidade poderia recorrer à Justiça caso o benefício fosse novamente prorrogado. Segundo estimativas da Anfavea, caso todas as montadoras optassem por importar veículos semiacabados ou totalmente montados em vez de produzi-los no Brasil, o impacto sobre a economia brasileira poderia alcançar R$ 240 bilhões.

A nota técnica que embasou a decisão do Gecex reconhece que a eletrificação representa um avanço tecnológico para o setor automotivo nacional, mas alerta que “é necessária uma calibragem das políticas públicas para evitar que o Brasil se torne apenas um mercado consumidor de veículos, sistemas, baterias e plataformas importados”.

André Valério, economista do Banco Inter, relaciona o forte volume de importações no primeiro semestre ao cronograma tarifário aplicado aos veículos elétricos totalmente montados. Esses veículos tiveram tarifa zero até 2023, quando as alíquotas começaram a subir gradualmente a partir de janeiro de 2024. Essa transição foi concluída em junho, fazendo com que as importações passassem a pagar a tarifa cheia de 35%.

“O que vimos em 2026 foi algo um pouco diferente dos anos anteriores. Parece ter havido uma corrida das montadoras para antecipar importações e formar estoques, já que a demanda por veículos elétricos continua crescendo no Brasil, com a China ganhando espaço nesse segmento”, afirma Valério.

Agora que as novas tarifas entraram em vigor, ele espera uma normalização das importações. Ainda assim, não acredita que a balança comercial do setor volte ao superávit neste ano, diante da fraqueza das exportações.

“Uma recuperação das exportações parece pouco provável, porque nosso mercado depende fortemente do Mercosul e perdemos espaço, especialmente na Argentina, que era um dos principais destinos das nossas vendas externas. Ao mesmo tempo, a demanda por veículos elétricos deve continuar crescendo, impulsionada pela transição energética.”

O setor automotivo já foi um importante responsável pelos superávits comerciais brasileiros. Entre 2016 e 2022, registrou saldo positivo durante sete anos consecutivos. Esse cenário mudou em 2023, com a chegada em massa dos veículos eletrificados chineses, levando o setor ao déficit. Em 2024, o saldo negativo alcançou US$ 4 bilhões. O aumento das exportações para a Argentina ajudou a reduzir parcialmente esse déficit em 2025, mas não foi suficiente para restabelecer o superávit. O ano terminou com saldo negativo de US$ 1,5 bilhão.

Os veículos eletrificados — híbridos e totalmente elétricos — vêm transformando rapidamente o perfil das importações brasileiras. No primeiro semestre deste ano, eles representaram 79% das importações de automóveis, contra 66% em 2025 e 70% em 2024. Em 2021, essa participação era de apenas 17%, e dois anos antes, apenas 4%.

Historicamente, a participação dos veículos eletrificados costuma ser menor no segundo semestre, embora a tendência de crescimento permaneça. Entre julho e dezembro de 2025, esses veículos responderam por 51% das importações, contra 31% no mesmo período de 2024 e 47% em 2023. No segundo semestre de 2021, representavam 16%, e dois anos antes, 10%.

Andrea Weiss Balassiano, advogada especializada em comércio internacional e sócia do escritório Monteiro & Weiss Trade, afirma que os dados mostram que o aumento gradual das tarifas sobre veículos eletrificados totalmente montados não foi suficiente para desacelerar a entrada de automóveis chineses.

“O cronograma tarifário foi anunciado com bastante antecedência, permitindo que as empresas chinesas planejassem seus investimentos e sua estratégia de entrada no mercado brasileiro”, afirma Balassiano.

Segundo ela, os veículos chineses continuam chegando em ritmo acelerado graças à competitividade da indústria, à escala de produção, às cadeias integradas de suprimentos e à estratégia comercial agressiva. “Vale lembrar que o que vemos no Brasil representa apenas parte do cenário. A China possui mais de 300 marcas de veículos”, destaca.

Dados do Indicador de Comércio Exterior (Icomex), elaborado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), mostram que os veículos chineses chegam ao Brasil com preços altamente competitivos. Entre janeiro e maio deste ano, o volume das importações brasileiras de bens de consumo duráveis vindos da China aumentou 157,6% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto os preços médios caíram 5,6%.

O movimento é oposto ao observado nas importações provenientes da Argentina. Nesse caso, o volume caiu 20,6%, enquanto os preços médios aumentaram 2,2%.

“As importações de veículos chineses são praticamente inevitáveis diante das economias de escala e do excesso de capacidade produtiva existente na China, que enfrenta dificuldades para expandir seu consumo interno. Além disso, a China enfrenta restrições comerciais em outros mercados, enquanto o mercado automotivo brasileiro é relativamente grande”, afirma Lia Valls, coordenadora do Icomex e pesquisadora associada da FGV Ibre.

Balassiano lembra que a União Europeia investigou os subsídios concedidos aos fabricantes chineses de veículos, resultando, em 2024, na aplicação de tarifas compensatórias de até 35,3%, variando conforme a montadora, embora restritas aos veículos totalmente elétricos.

“Desde 2025, e ainda mais em 2026, o foco passou a ser os híbridos. A União Europeia avalia estender essas medidas aos veículos híbridos ou abrir uma nova investigação específica sobre possíveis subsídios”, afirma.

Ela também destaca outras medidas protecionistas adotadas internacionalmente. Os Estados Unidos passaram a aplicar tarifa de 100% sobre veículos elétricos chineses, com base na Seção 301 da legislação comercial americana, enquanto Canadá e Turquia também elevaram suas tarifas sobre veículos elétricos importados.

O volume importado neste primeiro semestre supera inclusive o registrado em 2011, quando o Brasil enfrentou outro forte aumento das importações de veículos asiáticos. Na ocasião, o governo elevou em 30 pontos percentuais o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos veículos importados. A medida foi posteriormente contestada na Organização Mundial do Comércio (OMC), que determinou a revisão do regime tributário brasileiro.

Desta vez, porém, o contexto é diferente, afirma Livio Ribeiro, sócio da BRCG e pesquisador associado da FGV Ibre.

Segundo ele, os veículos atualmente importados vêm de montadoras que também estão instalando fábricas no Brasil, transformando simultaneamente o mercado automotivo nacional e sua base industrial.

Ribeiro acredita que o déficit comercial do setor poderá diminuir no futuro, já que diversas fabricantes chinesas que estão investindo no Brasil já manifestaram a intenção de utilizar suas unidades locais como plataformas de exportação. À medida que ampliarem a produção nacional e avancem nos planos de nacionalização da cadeia produtiva, essas empresas poderão, inclusive, passar a integrar as entidades que representam as montadoras tradicionais instaladas no país.

Fonte: Valor International

Sharing is caring!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


O período de verificação do reCAPTCHA expirou. Por favor, recarregue a página.