Regras de Comércio

Desafio maior para o agro brasileiro na Ásia

nov, 06, 2025 Postado porSylvia Schandert

Semana202546

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva retornou de recente viagem à Indonésia e à Malásia, onde participou da cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean), apontando o potencial de mais negócios do agronegócio brasileiro nessa que é a região mais dinâmica da economia mundial.

Isso pode acontecer, mas em menor escala do que o esperado. O presidente americano, Donald Trump, esteve ao mesmo tempo na região e, usando o arsenal das tarifas, arrancou concessões imediatas de países asiáticos para comprarem mais produtos americanos.

Atualmente, o comércio internacional não se decide apenas por fatores como custo e frete, mas cada vez mais por motivações políticas. Esse cenário é ilustrado pela trégua acertada entre Trump e o presidente chinês, Xi Jinping.

Após meses de compras paralisadas, a China aceitou compromissos de importação de 12 milhões de toneladas de soja dos Estados Unidos até o fim deste ano, e de pelo menos 25 milhões de toneladas anuais até 2028. Historicamente, o país asiático importou entre 25 milhões e 30 milhões de toneladas de soja americana por ano. Os EUA veem agora uma “base sólida” para retomar esses volumes.

Isso significa que, no curto prazo, a China reduzirá as compras de soja brasileira nos próximos meses e priorizará a americana — ao menos até a entrada da nova safra do Brasil no mercado, em fevereiro do próximo ano. O avanço da soja brasileira, inclusive do farelo, em outros mercados asiáticos também pode sofrer algum freio.

Os Estados Unidos miram outros produtos. A U.S. Meat, representante do setor de carnes, afirmou em comentários enviados ao USTR (agência de representação comercial americana), no âmbito da investigação sobre práticas comerciais brasileiras, que o Brasil, além de maior exportador mundial de carne bovina, deve ultrapassar os EUA também como maior produtor global neste ano.

As exportações de carne bovina do Brasil já representam 32% da produção nacional, e as de carne suína, 35%. O país exporta fortemente para a China e vem ampliando rapidamente suas vendas a outros destinos — inclusive aos próprios Estados Unidos (antes do tarifaço), ao México e, mais recentemente, ao Canadá. No caso da carne suína, o Brasil é o quarto maior exportador mundial, com as Filipinas superando a China como principal mercado.

Produtores americanos de algodão também acusam a expansão brasileira na Ásia de corroer a fatia dos EUA no maior mercado mundial de produção têxtil. Desde 2010, a produção de algodão no Brasil mais que triplicou, tornando o país o maior exportador global. Para os produtores dos EUA, o avanço brasileiro se apoia numa política agressiva de preços baixos — e eles pedem apoio de Washington para conter a perda de espaço.

Quase ao mesmo tempo em que Trump e Xi Jinping selavam a trégua na guerra comercial, em reunião na Coreia do Sul, acontecia a milhares de quilômetros dali o Brazil Commodities Forum, em Genebra — cidade que é um dos principais centros globais do comércio de commodities.

Entre traders e representantes do setor financeiro e energético, a avaliação foi de que a fase das tarifas e do “America First” em Washington criou uma oportunidade para o Brasil, já que países dependentes de soja e milho recorreram ao fornecedor brasileiro. Agora, porém, o movimento começa a se inverter: nas últimas semanas, operadores do Japão, Reino Unido e Sudeste Asiático anunciaram compras adicionais dos EUA — não por razões puramente comerciais, mas para aliviar pressões políticas vindas de Washington.

Para os participantes do fórum, as perspectivas do Brasil deixam de ser apenas positivas. A demanda chinesa se estabilizou, os preços das terras agrícolas dispararam em 2021 e 2022 e permanecem altos, e os Estados Unidos continuarão sua política de “reequilíbrio” do comércio.

O momento serve como lembrete de como a demanda politicamente direcionada pode corroer a participação de mercado, mesmo quando os produtores brasileiros são mais eficientes. Brasília não tem como influenciar a agenda de Washington — mas o país pode se tornar mais difícil de ser substituído, mantendo-se mais barato e mais ecológico.

A desvantagem interna, porém, é o custo do capital: com taxas básicas de juros em torno de 15%, as decisões de financiamento se tornam mais onerosas.

A advogada brasileira Heloisa Slav, especialista em commodities e organizadora do evento em Genebra, observa que a competitividade do Brasil já não se resume a “ter terra e sol”. A próxima etapa de crescimento, segundo ela, dependerá de três pilares convergentes:

1. Manter o status de origem de menor custo e maior escala;
2. Comprovar sustentabilidade em mercados que elevam constantemente seus padrões;
3. Preservar o acesso simultâneo à demanda dos EUA e da China, mesmo em meio às turbulências globais.

Além disso, é preciso levar em conta novos requisitos da Europa e dos Estados Unidos — como produção livre de desmatamento, rastreabilidade e baixo carbono — que tornam a sustentabilidade um fator decisivo de acesso aos mercados.

O Brasil é um exportador altamente exposto a essas novas regras, mas não entra nesse debate de mãos vazias: uma origem comprovadamente sustentável tende a ser preferida a uma origem apenas barata.

O país é uma espécie de “China do agronegócio”, mas há riscos à frente — com o comércio cada vez mais politizado e o custo financeiro interno elevado. Como nota Heloisa Slav, gerir esse cenário será decisivo para o Brasil saltar de “grande exportador” a “fornecedor preferencial” no novo tabuleiro global.

Fonte: Valor Econômico

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