Economia da Argentina cresce 2,3% no primeiro trimestre impulsionada por agricultura, Vaca Muerta e mineração
jun, 24, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202626
A economia da Argentina cresceu 2,3% no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior, impulsionada principalmente pelo agronegócio, pela formação de xisto de Vaca Muerta e pela mineração. Em termos dessazonalizados, o Produto Interno Bruto (PIB) avançou 0,7% em relação ao quarto trimestre de 2025, informou nesta terça-feira o Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC).
Pelo lado da demanda, as exportações foram o componente de melhor desempenho, registrando alta de 9,8% na comparação anual, embora tenham recuado 3,1% em relação ao trimestre anterior. O consumo privado também cresceu, avançando 2,7%, mas em ritmo mais moderado do que ao longo de boa parte de 2025. Já o consumo público caiu 0,9%.
Segundo o INDEC, o aumento do consumo foi impulsionado principalmente pela maior compra de bens importados, especialmente bens finais de consumo e automóveis.
Para Sebastián Menescaldi, diretor da consultoria Eco Go, o resultado foi mais forte do que o esperado e levou a atividade econômica a níveis recordes em termos dessazonalizados. Ele ressalvou, porém, que o aumento do consumo foi influenciado por fatores específicos.
“Todos os demais componentes da demanda registraram queda, incluindo o consumo público e os investimentos. Parte do aumento do consumo privado pode estar ligada às mudanças nos preços relativos e à redução dos subsídios, já que as contas nacionais são calculadas a preços de mercado”, afirmou.
O dado que mais chamou atenção no relatório foi a Formação Bruta de Capital Fixo, um dos principais indicadores de investimento. O indicador caiu 11,6% em relação ao primeiro trimestre de 2025 e recuou 1,7% frente ao trimestre anterior em termos dessazonalizados.
A queda foi puxada principalmente pela retração de 18,1% nos investimentos em máquinas e equipamentos e de 19,6% em equipamentos de transporte. Dentro da categoria de máquinas e equipamentos, os investimentos em bens importados caíram 20,6%, enquanto os destinados a bens produzidos localmente recuaram 11,5%.
O resultado chamou a atenção dos analistas porque ocorre justamente no momento em que o governo aposta em projetos vinculados ao Regime de Incentivo para Grandes Investimentos (RIGI) para impulsionar um novo ciclo de expansão econômica.
“Este é o quarto trimestre consecutivo de queda dos investimentos em termos dessazonalizados. Uma coisa é apresentar projetos, outra é aprová-los e outra, ainda, é que eles efetivamente saiam do papel”, afirmou Lorenzo Sigaut Gravina, diretor de análise macroeconômica da Equilibra.
Segundo ele, os investimentos são o único componente da demanda ainda abaixo dos níveis de 2023, o que pode ajudar a explicar a redução do emprego formal.
Claudio Caprarulo, diretor da Analytica, também apontou os investimentos como um dos principais sinais de alerta do relatório.
“Em termos históricos, é um nível baixo. Desde 2011, ele só supera os anos recessivos de 2019, 2020 e 2024”, afirmou.
Caprarulo acrescentou que a fraqueza não se restringe às obras públicas, mas também afeta os investimentos em máquinas e equipamentos.
“Se essa tendência persistir, a produtividade da economia poderá ser prejudicada mais cedo ou mais tarde”, disse.
Pelo lado da oferta, a atividade econômica voltou a apresentar forte disparidade entre os setores. Agricultura, pecuária, caça e silvicultura cresceram 18,1%, impulsionadas pela safra agrícola. A mineração e extração avançaram 12,3%, acompanhando o crescimento dos setores de energia e mineração, incluindo a formação de xisto de Vaca Muerta. A pesca registrou alta de 27,5%, beneficiada em parte por uma base de comparação mais fraca.
A agricultura foi também o setor que mais contribuiu para o crescimento geral da economia. Segundo estimativas oficiais, respondeu por mais de um ponto percentual da expansão total do PIB no trimestre.
De acordo com os dados de movimentação de contêineres obtidos pela Datamar, das dez principais mercadorias exportadas pela Argentina, apenas uma não esteve ligada à agropecuária e produtos de consumo humano. Confira os volumes dessas mercadorias registradas entre janeiro e abril:
Principais Exportações da Argentina | Jan-Abr 2026 | TEUs
Source: DataLiner (click here to request a demo)
Outros setores com desempenho positivo foram intermediação financeira, com alta de 7,5%; serviços domésticos prestados por famílias, que cresceram 6,3%; e hotéis e restaurantes, com avanço de 2,8%. Neste último caso, o INDEC atribuiu o resultado principalmente ao emprego informal.
Embora o PIB tenha atingido um novo recorde em termos dessazonalizados, o PIB per capita permanece 6% abaixo do recorde registrado em 2011, segundo estimativas da Equilibra.
A construção civil, um dos setores mais afetados em 2024, cresceu 2,5% na comparação anual e encerrou o trimestre em território positivo, embora ainda esteja longe de compensar totalmente as perdas acumuladas nos últimos anos.
Por outro lado, a indústria de transformação continuou em retração, com queda de 1,7% em relação ao mesmo período do ano anterior. A administração pública recuou 1,4%, enquanto os setores de eletricidade, gás e água caíram 1,1%, e o comércio atacadista e varejista registrou retração de 0,3%.
O resultado do primeiro trimestre também confirmou uma desaceleração em relação às taxas de crescimento observadas ao longo de boa parte de 2025. Após avançar 6,1% e 6,5% nos dois primeiros trimestres do ano passado, o crescimento do PIB desacelerou para 3,2% e 2,2% no segundo semestre.
Os números divulgados nesta terça-feira contrastaram com a avaliação feita pelo presidente Javier Milei no início de abril, quando classificou o primeiro trimestre como um período “difícil” para a atividade econômica e pediu paciência diante da volatilidade financeira observada durante o período eleitoral e da alta dos juros. Os dados oficiais mostraram que a economia continuou crescendo, embora em ritmo mais moderado do que em grande parte de 2025.
Após a divulgação do relatório, o ministro da Economia, Luis Caputo, afirmou nas redes sociais que a atividade econômica atingiu um “novo recorde histórico” na série dessazonalizada. Ele destacou ainda que o consumo privado alcançou o maior nível da história e que 12 dos 16 setores monitorados registraram crescimento na comparação anual.
Ainda assim, quando ajustado pelo crescimento populacional, o PIB per capita segue 6% abaixo dos níveis máximos alcançados no início da década passada. Segundo a Analytica, o indicador permanece inferior aos níveis registrados entre 2011 e 2014 e também abaixo do observado em 2018. O consumo privado per capita, por sua vez, superou ligeiramente os recordes anteriores.
Adaptado de reportagem de Agustín Maza para o jornal La Nación.
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