El Niño traz riscos para empresas de grãos e logística
ago, 17, 2026Os eventuais impactos do fenômeno climático El Niño na safra 2026/27 de grãos no Brasil podem atingir direta ou indiretamente as companhias relacionadas ao setor. Analistas ouvidos pelo Valor afirmam que os riscos são maiores para empresas produtoras de commodities, como a SLC Agrícola, mas há sinais de alerta também para grupos que operam na logística de escoamento, como Hidrovias do Brasil e Rumo.
“Do nosso universo de cobertura, a SLC seria a mais prejudicada”, afirma Guilherme Palhares, analista do Santander. “O portfólio de terras deles (SLC) é bastante localizado entre Mato Grosso e Matopiba (confluência entre os Estados do Maranhão Tocantins, Piauí e Bahia), regiões que, historicamente, foram expostas a El Niños”, acrescenta.
Procurada pela reportagem, a SLC informou que acompanha com atenção a possibilidade de um El Niño mais forte na safra, mas entende que ainda é cedo para estimar impactos sobre produtividade ou resultados, já que seus efeitos dependem da intensidade, da distribuição das chuvas e do momento de ocorrência.
“A companhia atua preventivamente, com análise fazenda a fazenda e cultura a cultura, ajustando manejo, uso de insumos e alocação de recursos conforme a evolução do cenário”, afirma em nota.
No caso da soja, principal produto da pauta agrícola brasileira, os dados de embarque ajudam a dimensionar a exposição da cadeia logística a eventuais mudanças no ritmo da safra. A série de soja em grãos disponível no DataLiner, que cobre o período de janeiro de 2023 a junho de 2026, mostra essa dinâmica com clareza. O pico do intervalo ocorreu em março de 2025, com 14,8 milhões de toneladas embarcadas. Em 2026, o maior volume mensal até junho também foi registrado em março, com 14,4 milhões de toneladas. No acumulado de janeiro a junho, entretanto, os embarques de soja ficaram 1,5% abaixo do mesmo período de 2025.
Exportações brasileiras de soja | Jan 2023 a Jun 2026 | WTMT
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
No segmento de logística, Filipe Nielsen, analista do Citi, observa que o risco para as ações da Hidrovias do Brasil é alto “devido à sua falta de diversificação de receitas, que estão concentradas em poucos clientes, juntamente com a exposição a eventos climáticos difíceis de prever”. Para o banco, secas podem afetar as colheitas e/ou reduzir os níveis dos rios, prejudicando as condições para a navegação de barcaças.
Uma fonte com conhecimento do assunto diz que a Hidrovias do Brasil monitora os níveis dos rios, fazendo a adequação das configurações de comboio e a coordenação antecipada de logística com clientes no Arco Norte. Procurada, a empresa não comentou.
Uma das preocupações das empresas que transportam cargas agrícolas pelos rios do Norte do país é que a redução dos níveis, por causa da falta de chuvas, afete a navegabilidade. Por isso, defendem a dragagem de manutenção no rio Tapajós, o que depende de autorização do governo federal.
Segundo Ronei Glanzmann, CEO do MoveInfra — que representa as companhias Rumo, Santos Brasil, Ultracargo, Hidrovias do Brasil, Motiva e Ecorodovias — até 5 milhões de toneladas de grãos podem deixar de ser transportadas pela hidrovia do Rio Tapajós se a dragagem de manutenção não for realizada.
“Estamos pedindo uma agenda com a Presidência para explicar isso. A partir de setembro, a gente já não conseguiria mais usar as dragas para fazer o processo”, diz Jesualdo Silva, diretor-presidente da Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP).
Ao Valor, a Casa Civil disse em nota que, após avaliação das informações técnicas disponíveis, diálogo entre os órgãos envolvidos e escuta de povos indígenas e comunidades tradicionais da região, o governo federal decidiu não realizar, neste momento, a dragagem do Tapajós, no trecho localizado entre Itaituba e Santarém, no Pará.
“As avaliações realizadas até o momento indicam que a navegação local poderá ser mantida mesmo em cenário de redução do nível das águas, assegurando o abastecimento das comunidades ribeirinhas”, afirma a Casa Civil. Na necessidade de escoamento de cargas maiores, “há fluxo rodoviário regular e os planos de contingência preveem a realização de intervenções nas rodovias para o eventual aumento do número de caminhões”.
Caso os volumes transportados pelo rio Tapajós tenham que ser escoados por rodovia, a MoveInfra calcula que o custo adicional com frete pode chegar a R$ 850 milhões para o setor.
Filipe Nielsen, do Citi, observa ainda que o clima pode influenciar os volumes produzidos nas safras e, consequentemente, a demanda para transporte ferroviário pela Rumo. Procurada, a companhia não comentou.
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