Empresas de médio porte se adaptam para exportar sob o acordo Mercosul-União Europeia
jun, 29, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202627
O comércio entre o Brasil e a Europa atingiu US$ 100 bilhões pela primeira vez em 2025. De olho nesse recorde e no acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, em vigor desde 1º de maio, após mais de 25 anos de negociações, empresas brasileiras de médio porte estão se preparando para exportar ou ampliar suas vendas ao mercado europeu. O caminho para as marcas que desejam se consolidar no exigente mercado europeu, no entanto, exige uma visão internacional de longo prazo e um compromisso com a qualidade em toda a cadeia produtiva para atender às exigências regulatórias.
O acordo elimina tarifas sobre 92% das exportações do Mercosul. No entanto, para aproveitar seus benefícios, as empresas precisam cumprir os padrões sanitários e fitossanitários da União Europeia, que permanecem rigorosos. As exigências incluem ainda o cumprimento do Regulamento Europeu Antidesmatamento (EUDR).
A catarinense Peach Up, marca de cosméticos cujo principal produto é um creme para redução da flacidez e da celulite, acaba de obter autorização para comercializar o produto nos 27 países da União Europeia, mas o processo levou nove meses.
“A União Europeia é muito exigente, mais até do que os Estados Unidos”, afirma a fundadora da empresa, Lu Soares.
O processo de internacionalização da Peach Up, que faturou R$ 20 milhões em 2025, começou pela aprovação da Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos.
“As agências europeias observam a aprovação da FDA; se o produto não for aprovado lá, elas também não aprovam. Foi um passo fundamental para garantir credibilidade e a validação técnica necessária para entrar na União Europeia”, explica.
A empresa precisou alterar a fórmula original do produto, retirando um corante alaranjado a pedido da agência norte-americana. Também teve de comprovar que a embalagem do creme, importada da China, não contém substâncias tóxicas. Outra exigência é manter um responsável técnico sediado em território europeu.
Com a certificação europeia recém-obtida, a Peach Up busca representantes comerciais no continente. Os primeiros embarques devem ocorrer dentro de 90 dias. Com o acordo Mercosul-UE, Soares estima uma redução de cerca de 30% nos custos tributários.
A cearense Labotrat, também do setor de cosméticos, já concluiu todas as etapas necessárias para operar na Europa.
Segundo André Rios, diretor comercial da empresa, o impacto mais significativo do acordo está na simplificação dos processos regulatórios, que atualmente levam de três meses a um ano para serem concluídos.
Os consumidores europeus deverão economizar cerca de 10% no preço final dos produtos da Labotrat, estima Rios. Na cadeia produtiva, a redução pode ser ainda maior graças à eliminação das tarifas sobre máquinas, equipamentos e insumos químicos de alta tecnologia importados da Europa, como fragrâncias e moléculas avançadas, atualmente fortemente tributados.
Com faturamento de R$ 230 milhões no ano passado, a Labotrat embarcou seu primeiro contêiner para a Europa há cerca de um mês e iniciou operações em Portugal por meio da rede Wells, especializada em produtos de beleza e com mais de 100 lojas no país.
“O acordo Mercosul-União Europeia vai ampliar, acelerar e reduzir a burocracia e a carga tributária”, afirma Rios. Segundo ele, os efeitos deverão ser sentidos com mais intensidade no próximo ano, devido à implementação gradual do acordo bilateral. A empresa já planeja expandir sua atuação para a Espanha.
Na Bahia, a Amma Chocolate, empresa de médio porte especializada em cacau orgânico, está retomando suas operações no mercado europeu. As exportações, interrompidas durante a pandemia de COVID-19, estão sendo retomadas para França, Espanha e Dinamarca.
A empresa já possui o selo europeu de produto orgânico, que certifica o cumprimento de requisitos como rastreabilidade da cadeia produtiva e cultivo do cacau em sistemas agroflorestais.
“Projetamos uma melhora na tributação entre 5% e 15%”, afirma Fernanda Schwarzstein, diretora-geral da Amma.
Além das exportações, a empresa também espera benefícios na importação de tecnologia. Embora utilize exclusivamente ingredientes nacionais, parte de seus equipamentos industriais ainda é importada.
Para Virginia Vaamonde, CEO da GS1 Brasil, entidade responsável pela padronização global de códigos de barras, o acordo aumentará as exigências sobre toda a cadeia produtiva.
“Há regulamentações que exigem produtos livres de desmatamento, além de preocupações com origem, segurança, economia circular e sustentabilidade”, afirma.
Na avaliação da GS1 Brasil, o acordo reforça o papel da rastreabilidade nas exportações.
“Quando um produto é criado, ele precisa ser identificado para que possa ser compreendido na cadeia global de suprimentos. É isso que fazemos. As empresas de médio porte precisam mais do nosso apoio do que as grandes, que normalmente possuem estruturas jurídicas próprias”, explica.
Dos 61 mil associados da GS1, cerca de 25% são empresas de médio porte. Para apoiar esse público, a entidade pretende lançar materiais técnicos explicando as exigências europeias. A prioridade é garantir que todos os elos da cadeia produtiva estejam alinhados aos padrões internacionais.
Para Camila Nicolau, advogada do escritório Tardioli Lima, que atende empresas médias do agronegócio — setor responsável por 49,5% das exportações brasileiras —, cumprir as exigências ambientais e de rastreabilidade deixou de ser um diferencial competitivo e passou a ser uma condição para permanecer no mercado.
“O cumprimento das regras de ESG [ambiental, social e governança] deixou de ser uma questão de marketing. Agora é uma questão de barreiras comerciais”, afirma.
Ao longo do último ano, Nicolau observou um aumento entre 30% e 40% nos pedidos de recuperação judicial entre clientes de pequeno e médio porte do agronegócio. Segundo ela, a incapacidade de adaptação às novas exigências técnicas e climáticas pode agravar essa tendência.
Para reduzir riscos, as empresas precisam de assessoria especializada em diversas frentes: normas sanitárias, rotulagem, adequação jurídica de contratos internacionais e, sobretudo, registro de marcas nos 27 países da União Europeia para evitar concorrência desleal.
A fabricante brasileira de equipamentos para o setor alimentício Prática inaugurou um escritório em Colônia, na Alemanha, no ano passado e pretende abrir capital na Bolsa de Madri até o fim de 2026.
Segundo o cofundador André Rezende, cumprir as normas locais é um investimento indispensável.
A empresa precisou realizar testes de compatibilidade eletromagnética, exigência inexistente no mercado brasileiro, mas obrigatória na Europa. Apenas a adaptação de uma de suas linhas de fornos rápidos exigiu investimentos de cerca de € 150 mil em certificações e desenvolvimento de fornecedores especializados.
Com faturamento de R$ 460 milhões no ano passado, a empresa está otimista com a eliminação das tarifas de importação para seu segmento.
Rezende destaca que a divisão internacional já responde por 25% a 30% da receita da empresa, enquanto as vendas para o mercado europeu cresceram 73% no último ano.
Fonte: Valor International
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