Petróleo e Gás

Esqueça o petróleo bruto. A guerra está levando as refinarias ao limite

jul, 22, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202630

A indústria global de refino de petróleo está emitindo sinais de alerta. A cadeia de suprimentos dos combustíveis que movimentam a economia mundial enfrenta uma pressão crescente à medida que os conflitos no Oriente Médio e na Rússia continuam repercutindo nos mercados de energia.

Os preços de referência do petróleo bruto recuaram fortemente após atingirem o pico de US$ 118 por barril durante o auge da guerra com o Irã e agora giram em torno de US$ 85, sugerindo que muitos investidores acreditam que o risco de uma crise energética diminuiu.

Embora a oferta de petróleo bruto tenha se recuperado parcialmente, o sistema responsável por transformar esse petróleo em combustíveis ainda enfrenta dificuldades após meses de interrupções causadas pelos conflitos na Rússia e no Oriente Médio.

Os estoques de gasolina e diesel estão próximos das mínimas de vários anos, as margens de refino atingiram níveis recordes e a produção das refinarias permanece severamente reduzida nas principais regiões produtoras.

Famílias e indústrias consomem derivados de petróleo, não petróleo bruto. É esse segmento da cadeia que merece maior atenção.

BAIXAS DA GUERRA

As refinarias têm se mostrado alvos tentadores.

No Oriente Médio, importantes refinarias da Arábia Saudita, Bahrein, Kuwait e Emirados Árabes Unidos permanecem parcial ou totalmente paralisadas desde que o conflito com o Irã, iniciado em 28 de fevereiro, provocou o fechamento do Estreito de Ormuz.

A China, por sua vez, reduziu drasticamente o ritmo de processamento das refinarias para compensar a forte queda nas importações durante o conflito. Em toda a Ásia, refinarias também foram obrigadas a reduzir suas operações devido à limitação no fornecimento de petróleo bruto.

Na Rússia, o setor de refino foi duramente atingido pelos sucessivos ataques de drones ucranianos, provocando escassez de combustíveis no mercado interno e obrigando Moscou a restringir as exportações de diesel para conter a disparada dos preços domésticos.

Em conjunto, essas interrupções retiraram cerca de 5 milhões de barris por dia da capacidade global de refino no segundo trimestre em relação ao mesmo período do ano anterior. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), o processamento médio das refinarias ficou em torno de 78 milhões de barris por dia.

A reabertura temporária do Estreito de Ormuz após o cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, em 17 de junho, aliviou parte da pressão por um curto período. No entanto, embora os produtores do Golfo tenham acelerado as exportações de petróleo bruto pela passagem marítima, o fluxo de derivados permaneceu muito mais fraco. Dados da Kpler mostram que a região exportou cerca de 4 milhões de barris por dia de petróleo bruto em junho, mas apenas 1 milhão de barris por dia de derivados, o equivalente a apenas um quarto dos níveis anteriores à guerra.

Agora, a nova interrupção no tráfego pelo Estreito de Ormuz, provocada pela escalada das hostilidades entre Estados Unidos e Irã, voltou a bloquear as exportações da região, ameaçando qualquer perspectiva de recuperação da atividade das refinarias na Ásia e no Oriente Médio.

O tempo e as reservas de segurança estão se esgotando.

OS EUA PERDEM FÔLEGO

Os Estados Unidos assumiram o papel de “refinaria de última instância” do mundo durante o primeiro semestre deste ano, ampliando as exportações de petróleo bruto, gasolina, diesel e combustível de aviação para compensar as interrupções em outras regiões.

Mas esse papel está chegando ao limite.

Os estoques de petróleo bruto dos Estados Unidos, incluindo os estoques comerciais e a reserva estratégica do governo, caíram desde o início da guerra com o Irã para o menor nível desde 1984. Os estoques de gasolina atingiram o menor nível sazonal desde 2012, enquanto os estoques de diesel apenas recentemente se recuperaram dos menores níveis registrados em mais de duas décadas.

Ao mesmo tempo, as exportações totais de petróleo bruto e derivados começaram a recuar à medida que as refinarias passaram a atender ao aumento da demanda doméstica. Na última semana, as exportações caíram para 10,7 milhões de barris por dia, o menor nível desde março, após atingirem o recorde de 14,2 milhões de barris por dia em abril.

Com os estoques domésticos pressionados e a demanda por combustíveis no pico da temporada de verão, a capacidade de Washington de continuar abastecendo o restante do mundo parece cada vez mais limitada.

AS RACHADURAS DO REFINO

Talvez o sinal mais evidente da crise esteja na lucratividade das refinarias.

A margem de refino de referência dos Estados Unidos, conhecida como “crack spread” 3-2-1, disparou recentemente para quase US$ 70 por barril, um recorde histórico. No noroeste da Europa, as margens de refino também atingiram recordes sazonais, próximas de US$ 30 por barril.

O mercado de diesel parece especialmente apertado. As margens do diesel na Europa saltaram para cerca de US$ 65 por barril, um novo recorde, enquanto as margens da gasolina nos Estados Unidos permanecem próximas dos níveis recordes registrados durante a crise energética de 2022, após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia.

Os mercados não remuneram as refinarias com prêmios tão elevados, a menos que os consumidores estejam competindo por uma oferta escassa de combustíveis.

O TRUNFO DE TRUMP PODE NÃO FUNCIONAR

À medida que a crise envolvendo o Irã entra em seu quinto mês, os mercados passaram a acreditar que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fará praticamente tudo o que estiver ao seu alcance para evitar uma alta politicamente prejudicial nos preços dos combustíveis no país.

Mas os sinais cada vez mais preocupantes vindos do sistema global de refino sugerem que o presidente americano poderá ter dificuldades para impedir esse cenário.

Uma recuperação rápida da capacidade global de refino parece improvável. Diversos polos importantes de refino continuam comprometidos por conflitos, interrupções no fornecimento ou restrições às exportações, justamente quando a demanda de verão por combustíveis rodoviários e combustível de aviação atinge seu pico. Tradicionalmente, os estoques de diesel são reforçados durante o verão para atender ao consumo do inverno.

A recuperação da capacidade de refino da Rússia provavelmente levará meses, ou até anos, desde que não ocorram novos ataques ucranianos — hipótese em que poucos acreditam. As refinarias do Oriente Médio também precisarão de meses para retomar plenamente suas operações depois que o fluxo pelo Estreito de Ormuz for normalizado, quando isso acontecer.

À medida que os estoques se esgotam, o único mecanismo restante para equilibrar o mercado poderá ser a destruição da demanda, com potencial para reduzir a atividade econômica em todo o mundo.

Os mercados de energia suportaram de forma surpreendentemente resiliente o caótico primeiro semestre de 2026. Mas, com os estoques globais de combustíveis em níveis preocupantemente baixos, a economia mundial encontra-se perigosamente exposta.

(As opiniões expressas neste artigo são de Ron Bousso, colunista da Reuters.)

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