Economia

Exportação bate recorde em meio ao tarifaço, mas MPEs preocupam

set, 30, 2026 Postado porGabriel Malheiros

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Índia, China e Europa foram responsáveis pelo superávit na balança comercial brasileira nos oito primeiros meses deste ano. Até agosto, o Brasil exportou US$ 23 bilhões a mais do que o mesmo período de 2025, segundo a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil).

O recorde demonstra o quanto o país foi capaz de diversificar o destino dos seus produtos desde o tarifaço imposto pelos Estados Unidos, avalia Laudemir Müller, presidente da agência. “Das 2.400 empresas que exportavam para os EUA em maio de 2025, 78% já estavam exportando para outros mercados em junho deste ano”, diz.

Os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás da China. Em terceiro lugar vem Argentina, seguida de perto pela Índia – que, segundo Müller, foi destaque nas exportações deste ano, com aumento de US$ 3,6 bilhões no acumulado de janeiro a agosto, período em que as vendas para os EUA caíram US$ 2,6 bilhões. “Há 20 anos, a Índia era o 40º destino; em agosto de 2026, se tornou o quarto maior destino, com exportações de US$ 1,5 bilhão no mês, equiparando-se à Argentina”, afirma.

Com a China, o superávit foi de US$ 10 bilhões. Para Müller, no entanto, o maior avanço veio da Europa, cuja balança comercial passou de déficit de US$ 885 milhões no acumulado de janeiro a agosto do ano passado para superávit de US$ 5 bilhões no mesmo período de 2026. “Desse total, US$ 4 bilhões vieram entre maio e agosto, ou seja, logo após a assinatura do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia (UE)”, afirma.

A Índia busca mais cobre e produtos da indústria da transformação, enquanto a UE abre espaço para aeronaves e motores brasileiros. O Brasil também tem se aproximado mais do continente africano, com destaque para África do Sul, Angola, Etiópia e Nigéria.

“Mas algumas empresas continuam sofrendo os efeitos do aumento das tarifas”, diz Müller, que aponta têxtil, calçados e moveleiro como os setores mais críticos. São mercados que produzem sob medida para o consumidor americano, além de enfrentarem forte concorrência global.

Em agosto, a ApexBrasil lançou o Plano de Diversificação de Exportações, com investimentos de R$ 210 milhões para atender 5.300 empresas impactadas pelo tarifaço – 1.600 já são atendidas. A proposta é oferecer ferramentas de inteligência de mercado, promoção comercial, acesso a compradores qualificados e atendimento especializado.

As empresas terão a chance de participar, por exemplo, de feiras no Canadá, México, América Central, Caribe e Bahamas. A agência vai custear um estande básico, com limite de apoio de US$ 8 mil por empresa, entre setembro deste ano até agosto de 2027.

Na opinião da economista Lia Valls, pesquisadora associada do FGV Ibre e professora da UERJ, as restrições impostas pelos EUA afetaram companhias brasileiras de maneira heterogênea. “Grandes empresas possuem maior capacidade de desviar exportações para outros mercados, pois já contam com redes de fornecedores e compradores estabelecidas”, diz. “Mas pequenas e médias empresas, especialmente em setores de manufatura customizada, como calçados e produtos de madeira, são as mais atingidas.

Não existe a possibilidade de reduzir custos para compensar a tarifa”, avalia ela, lembrando que, mesmo no agronegócio, que foi menos atingido pelo tarifaço por conta da dependência americana a determinados produtos, existem segmentos que seguem sendo taxados.

“Empresas de pescados têm dificuldades em encontrar alternativas”, diz Valls, que considera o acordo Mercosul-UE importante para aumentar investimentos e diversificar exportações, especialmente em manufatura e transição energética.

Em calçados, pouco mais de 90% da indústria é formada por micro e pequenas empresas. Neste ano, as exportações caíram 17% em valor, o pior resultado desde a pandemia, segundo a Associação Brasileira da Indústria e Comércio de Calçados (Abicalçados).

Segundo o levantamento da Datamar, o volume das exportações embarcadas em contêineres decaíram 13,7% em relação ao acumulado dos sete primeiros meses do ano anterior. Veja mais detalhes abaixo:

Exportação de Calçados | Jan 2023 – Jul 2026 | TEUs

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)

Valls enfatiza que o maior problema trazido por Donald Trump não se resume ao tarifaço, mas ao cenário incerto, que compromete operações de comércio exterior. “É uma atividade que exige planejamento e visão de longo prazo, enquanto Trump traz incerteza e imprevisibilidade. As empresas precisam estar preparadas para mudanças bruscas nas regras”.

Para o engenheiro Marcos Jank, coordenador do centro Insper Agro Global, o mundo vive uma mudança total de paradigmas. “As regras do comércio internacional do século XX – com blocos econômicos, multilateralismo e regramento pela Organização Mundial do Comércio – foram enterradas. O cenário atual é de negociação direta, pontual e assimétrica com os Estados Unidos”, afirma. “Não há mais para quem recorrer”.

Jank afirma que, no agronegócio, o Brasil adotou uma bem-sucedida estratégia de demonstrar a essencialidade dos seus produtos à economia americana. “Com os setores que seguem atingidos, o país deve negociar caso a caso, demonstrando o quanto os americanos perdem. Caso contrário, o Brasil pode ser forçado a fazer concessões em áreas não comerciais, como política, regras para big techs e exploração de terras raras”.

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, no primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras cresceram em 15 dos principais destinos, em comparação ao mesmo intervalo de 2025: China (22%); Países Baixos (4%); México (19%); Singapura (29%); Canadá (8%); Chile (13%); Alemanha (20%); Índia (88%); Itália (17%); Japão (13%); Turquia (28%); Indonésia (4%); Vietnã (17%); Reino Unido (15%) e Paraguai (11%).

Müller avalia que o tarifaço levou a uma reorganização geopolítica global, com outros países afetados olhando mais de perto para o Brasil, o que vem estreitando laços comerciais. “Os empresários brasileiros não querem substituir o mercado americano, mas sim diversificar. Todos têm esperança de que esse aumento repentino e injustificado de tarifas acabe.”

Fonte: Valor Econômico

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