Exportações brasileiras de ferro-gusa caem em meio à incerteza sobre tarifas dos EUA
jul, 07, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202627
As exportações brasileiras de ferro-gusa registraram queda em volume em junho na comparação com o mesmo mês do ano passado, um movimento acompanhado de perto pelo mercado em meio à possibilidade de aumento das tarifas de importação pelos Estados Unidos. O ferro-gusa foi o quinto principal produto exportado pelo Brasil para os EUA em 2024 e está ameaçado por uma tarifa adicional de 25% desde o início de junho, quando o presidente Donald Trump anunciou novas tarifas sobre diversos produtos brasileiros.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), com base no Comex Stat, mostram que as exportações de ferro-gusa caíram 7,8% em volume em relação a junho de 2025. Por outro lado, os preços de exportação aumentaram 42% na comparação anual.
Dados obtidos pela Datamar apontam uma queda de 14,2% no volume exportado de ferro-gusa no acumulado dos cinco primeiros meses do ano. Apesar da queda de 22,5% no volume embarcado, os Estados Unidos ainda se destacaram como o principal destino da carga brasileira. Confira os volumes registrados mês-a-mês abaixo:
Exportação de Ferro-Gusa | Jan-Mai | 2022 – 2026 | WTMT
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
Welber Barral, sócio do Barral Parente Pinheiro Advogados e ex-secretário de Comércio Exterior, afirmou que ainda é cedo para concluir que a nova ameaça tarifária seja a principal responsável pela queda dos volumes exportados ou pela alta dos preços. Segundo ele, importadores americanos ainda podem acelerar as compras para formar estoques antes da entrada em vigor da tarifa adicional, atualmente prevista para 15 de julho.
“A indústria siderúrgica americana depende do ferro-gusa brasileiro. Os importadores dos Estados Unidos podem antecipar compras para formar estoques, apostando que a medida talvez nem seja implementada”, afirmou Barral.
Caso a nova tarifa seja aplicada, o ferro-gusa brasileiro poderá enfrentar uma alíquota efetiva de até 37,5%, considerando também a tarifa de 12,5% já aplicada pelos Estados Unidos.
Na segunda-feira ocorreu a primeira audiência pública da investigação comercial conduzida pelos Estados Unidos com base na Seção 301 da Lei de Comércio. O principal pleito do setor é que o ferro-gusa seja incluído na lista de produtos isentos.
José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), afirmou que qualquer anúncio de novas tarifas “afeta automaticamente o ferro-gusa”, já que os Estados Unidos são o principal destino das exportações brasileiras do produto.
“Existe preocupação de que isso desacelere o crescimento das exportações. O mercado vive hoje uma enorme incerteza. Ninguém sabe o que vai acontecer amanhã. Às vezes os embarques são antecipados e, em outras, adiados, conforme as empresas tentam se manter ativas no mercado”, afirmou.
Castro acrescentou que o aumento de 42% nos preços de exportação reflete, em grande parte, a recente alta dos preços do petróleo.
Segundo ele, caso um acordo entre Estados Unidos e Irã provoque queda no preço do petróleo, os exportadores de ferro-gusa poderão ser beneficiados pela redução dos custos — “a menos que outro fator volte a elevar os preços do petróleo”.
Fausto Varela Cançado, presidente do Sindifer-MG, entidade que representa a indústria do ferro-gusa em Minas Gerais e vinculada à Federação das Indústrias do Estado, compartilha da mesma avaliação. Segundo ele, produtores e compradores continuam enfrentando grande incerteza quanto às condições do mercado.
“Gostaríamos de ver sinais de antecipação dos embarques, porque foi exatamente isso que aconteceu no ano passado. Os estoques aumentaram significativamente e as exportações cresceram mais de 40%”, afirmou.
Ele se referia ao período em que já vigorava uma tarifa de 10% nos Estados Unidos e Washington havia anunciado a intenção de elevá-la para 50% a partir de agosto, medida que acabou não sendo implementada. Em julho de 2025, as exportações brasileiras de ferro-gusa saltaram 62,8% em relação ao mesmo mês de 2024, segundo o Comex Stat.
Cançado afirmou que, mesmo que a nova tarifa entre em vigor em 15 de julho, os primeiros impactos relevantes sobre os números do comércio exterior brasileiro só deverão aparecer em agosto. Ele destacou ainda que, ao contrário do ocorrido em 2025, até o momento nenhum embarque foi suspenso.
O setor mantém expectativa positiva de que as negociações com o governo americano e as audiências em andamento possam novamente resultar em uma solução favorável.
“Estamos otimistas porque obtivemos uma isenção no ano passado por necessidade. Somos importantes para a economia americana. Nossos principais concorrentes são Rússia e Ucrânia. A Rússia continua sob sanções, enquanto a Ucrânia foi fortemente afetada pela guerra e talvez não consiga atender à demanda”, afirmou.
Cançado também criticou a lentidão das negociações conduzidas pelo governo federal, argumentando que um diálogo direto entre Brasília e Washington é fundamental para “reverter esse processo politicamente”.
“Também pedimos que, caso essas negociações não avancem, o governo busque adiar as tarifas por pelo menos três meses, dando tempo para reequilibrarmos nossas operações e relações comerciais”, disse.
Se as tarifas forem efetivamente implementadas, os produtores brasileiros terão de redirecionar suas exportações para outros mercados. Antes do retorno de Trump à presidência e das novas medidas tarifárias, o Brasil exportou US$ 1,4 bilhão em ferro-gusa para os Estados Unidos em 2024, tornando o produto o quinto principal item da pauta exportadora brasileira para aquele mercado, atrás apenas de petróleo bruto, produtos semimanufaturados de ferro e aço, celulose e café.
Os dados de produção também demonstram a importância do setor. Em 2025, o Brasil produziu cerca de 5,4 milhões de toneladas de ferro-gusa, das quais aproximadamente três quartos foram exportadas. Mais de 80% dessas exportações tiveram como destino os Estados Unidos.
Barral afirmou que, embora o mercado americano seja importante para o setor brasileiro, a demanda global pelo produto permanece elevada.
“Se os Estados Unidos impuserem tarifas ao ferro-gusa brasileiro, o Brasil passará a exportar mais para outros mercados, enquanto os americanos aumentarão as importações de países como Ucrânia e Canadá, que concorrem conosco naquele mercado. O ferro-gusa é uma matéria-prima industrial essencial. O que ocorre, na prática, é um redirecionamento dos fluxos comerciais. A demanda não vai desaparecer”, afirmou.
Segundo o Sindifer-MG, cerca de 55% das usinas brasileiras de ferro-gusa poderão suspender suas operações caso as tarifas sejam implementadas.
Minas Gerais é o principal estado produtor, com 48 usinas e 63 altos-fornos capazes de produzir cerca de 420 mil toneladas por mês. O estado responde por aproximadamente 70% da capacidade produtiva nacional e sustenta cerca de 60 mil empregos diretos e indiretos.
O Sindifer-MG contratou um escritório de advocacia nos Estados Unidos para contestar as tarifas e negociar isenções para o ferro-gusa, ao mesmo tempo em que mantém negociações com compradores e autoridades americanas. A entidade alerta que as tarifas poderão provocar fechamento de usinas, demissões, desaceleração econômica e perda de competitividade internacional para a indústria brasileira de ferro-gusa.
Fonte: Valor International
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