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Petróleo e Gás

Exportações de energia impulsionam maior superávit comercial da Argentina no primeiro semestre desde 2009

jul, 22, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202630

A Argentina registrou um superávit comercial de quase US$ 14 bilhões no primeiro semestre de 2026, o melhor resultado para o período em valores constantes desde 2009, com o setor de energia consolidando-se como um dos principais motores da entrada de divisas no país.

O resultado foi cinco vezes superior ao superávit de US$ 2,76 bilhões registrado no mesmo período de 2025. Mais uma vez, a energia foi um fator decisivo para essa melhora.

O saldo positivo da balança comercial de combustíveis e energia atingiu quase US$ 6 bilhões no primeiro semestre, o maior nível deste século, representando um acréscimo de US$ 2,3 bilhões em relação aos primeiros seis meses do ano passado.

A mudança evidencia o peso crescente das exportações argentinas de energia, especialmente de petróleo e gás provenientes da formação de Vaca Muerta, nas contas externas do país. Durante anos, o setor energético foi uma das principais fontes de pressão sobre a balança comercial devido à elevada necessidade de importações. Essa dinâmica vem mudando à medida que a produção não convencional cresce e as exportações ganham escala.

Segundo a consultoria Equilibra, os setores fora da agricultura e da energia também apresentaram melhora significativa. Excluindo essas duas áreas, o restante da economia passou de um déficit de quase US$ 1 bilhão no primeiro semestre de 2025 para um superávit de quase US$ 8 bilhões neste ano.

As exportações totais somaram US$ 49,41 bilhões no primeiro semestre, alta de 24% em relação ao mesmo período do ano anterior. O crescimento refletiu tanto o aumento do volume embarcado, de 14%, quanto a melhora dos preços, de 9%.

As importações totalizaram US$ 35,44 bilhões, queda de 4%, concentrada principalmente em peças e acessórios, bens de capital e insumos intermediários, em linha com a atividade industrial mais fraca.

A consultoria LCG também destacou que o complexo energético explicou grande parte da melhora do primeiro semestre, embora não toda ela. Segundo a empresa, cerca de 20% do aumento do superávit comercial em relação a 2025 decorreu do fortalecimento da balança de combustíveis e energia. Quase metade da melhora, por sua vez, refletiu a redução do déficit em setores menos dinâmicos da economia, cujo saldo negativo caiu de US$ 22 bilhões para US$ 17 bilhões.

Para o restante do ano, a LCG prevê uma desaceleração desse ritmo à medida que as exportações percam parte do impulso. Ainda assim, a consultoria projeta um superávit comercial em torno de US$ 20 bilhões para todo o ano de 2026, com a energia permanecendo como um dos principais pilares desse resultado.

Empresas de energia também impulsionam entrada de dólares via mercado de dívida

A contribuição do setor energético para a oferta de dólares na Argentina não se limita às exportações de petróleo e gás. As empresas também estão captando recursos por meio da emissão de títulos corporativos para financiar investimentos, com expectativa de investir quase US$ 14 bilhões neste ano.

No primeiro semestre, o mercado argentino de títulos corporativos movimentou US$ 9,63 bilhões, segundo relatório da gestora Ricsa ALyC. As empresas de energia responderam por 55% desse total, ou US$ 5,31 bilhões, tendo YPF, Pampa Energía e Edenor entre os principais emissores.

As taxas médias de captação subiram para 8,1% ao ano em dólares, frente a 7,3% um ano antes. Entretanto, os custos variaram significativamente entre as empresas. A Pampa Energía obteve financiamento a 5%, enquanto a CGC pagou até 12%, uma diferença de 640 pontos-base, indicando maior diferenciação de risco de crédito dentro do setor.

O prazo dos títulos não explica sozinho essa diferença. Vista Energy e Pampa Energía conseguiram captar recursos por mais de dez anos pagando menos de 8% ao ano, enquanto Crown Point e CGC pagaram entre 11% e 12% por dívidas com vencimentos de apenas dois a três anos.

Vaca Muerta transforma o balanço energético argentino

A mudança não é apenas conjuntural. O setor energético argentino, que durante mais de uma década representou uma das principais fontes de saída de divisas do país, passou a gerar moeda estrangeira.

As importações de energia chegaram a superar US$ 12 bilhões por ano. Segundo dados da Câmara de Exploração e Produção de Hidrocarbonetos (CEPH), o setor passou de um déficit comercial de US$ 6,9 bilhões em 2013 — o pior resultado da série histórica — para um superávit de US$ 7,83 bilhões em 2025. Trata-se de uma reversão superior a US$ 14,7 bilhões em pouco mais de uma década.

Essa transformação foi possível graças ao rápido crescimento da produção não convencional em Vaca Muerta, que atualmente responde por mais de dois terços da produção argentina de petróleo.

O consultor de energia Daniel Gerold estima que o saldo comercial do setor energético alcance entre US$ 9,6 bilhões e US$ 11,1 bilhões neste ano, dependendo da volatilidade dos preços internacionais do petróleo. O texto original utilizou como referência um preço de US$ 91 por barril.

O outro lado da entrada de dólares

A nova oferta de moeda estrangeira também deve ser analisada diante da contínua demanda doméstica por dólares.

Com um cenário cambial mais estável neste ano, as famílias argentinas estão comprando cerca de US$ 2 bilhões por mês para poupança, um patamar muito elevado em comparação aos padrões históricos.

No ano passado, marcado por eleições, a dolarização de carteiras ultrapassou US$ 30 bilhões. Neste ano, mesmo sem eleições nacionais, a expectativa é que alcance cerca de US$ 20 bilhões.

Essa demanda vem sendo compensada por novas fontes de entrada de divisas na economia. O setor agrícola contribuiu com aproximadamente US$ 2 bilhões por mês no primeiro semestre, durante o pico da safra. As emissões de títulos corporativos acrescentaram cerca de US$ 1,5 bilhão por mês, enquanto empréstimos financeiros que as empresas precisam internalizar no mercado local trouxeram mais US$ 1 bilhão por mês.

O complexo de petróleo, gás e mineração adicionou quase US$ 2 bilhões mensais. Em 2023, essa contribuição era praticamente nula e, em anos anteriores, o setor gerava demanda líquida por dólares, em vez de oferta.

Esse novo fluxo de divisas pode ajudar a financiar as compras de dólares pelas famílias sem provocar pressão imediata sobre o mercado cambial.

Ainda assim, economistas alertam que esse equilíbrio poderá se tornar mais desafiador caso a economia argentina acelere seu crescimento. Juan Battaglia, economista-chefe da Cucchiara y Cía., observa que as importações normalmente aumentam quando o PIB cresce. Historicamente, cada ponto percentual de expansão do PIB resultou em aproximadamente três pontos percentuais de aumento das importações.

Mesmo adotando uma relação mais conservadora de dois para um, um crescimento econômico de 3% elevaria as importações em 6%, criando uma demanda adicional por moeda estrangeira de cerca de US$ 4,5 bilhões. Esse valor equivale à exportação de mais de 150 mil barris de petróleo por dia, considerando um preço de US$ 75 por barril.

Para a Argentina, isso significa que o setor energético precisará continuar gerando superávits em dólares para preservar o atual equilíbrio cambial. Para exportadores, investidores e operadores logísticos, a expansão das exportações argentinas de energia representa uma das mudanças estruturais mais importantes nas perspectivas do comércio exterior do país.

Fonte: La Nación

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