Falta de acordo para plano de transporte de fertilizantes por Ormuz pode provocar crise alimentar, diz representante da ONU
out, 15, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202642
A falta de um acordo entre Estados Unidos e Irã nas próximas semanas sobre um plano apoiado pela ONU para transportar fertilizantes pelo Estreito de Ormuz pode provocar uma crise de segurança alimentar em partes da Ásia e da África, afirmou na quarta-feira (14) um representante da organização que supervisiona a iniciativa proposta.
A Organização das Nações Unidas criou uma força-tarefa em março para facilitar a passagem de fertilizantes pelo estreito. O mecanismo elaborado ainda não foi implementado, mas o subsecretário-geral da ONU, Jorge Moreira da Silva, afirmou que ele poderia ser ativado entre sete e dez dias após um acordo entre Washington e Teerã.
“É absolutamente crucial chegar a um acordo nas próximas semanas. Caso contrário, perderemos a temporada de plantio”, disse em entrevista em Bangcoc, à margem das reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial.
Em resposta a perguntas da Reuters, um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA afirmou que as Forças Armadas americanas ajudaram milhares de embarcações comerciais a transitar pelo estreito.
“Os Estados Unidos continuarão a tomar medidas decisivas contra as tentativas do Irã de prejudicar a liberdade de navegação pelo Estreito de Ormuz e manter a economia global refém”, afirmou.
A Casa Branca e a Embaixada do Irã em Bangcoc não responderam imediatamente a um pedido de comentário.
O Irã tem buscado ampliar seu controle sobre o Estreito de Ormuz desde os ataques dos Estados Unidos e de Israel em 28 de fevereiro, usando a passagem estratégica para pressionar Washington, que, por sua vez, vem impondo um bloqueio naval aos portos iranianos.
Antes da guerra, a via marítima respondia por aproximadamente um terço da ureia comercializada globalmente — o fertilizante mais utilizado no mundo — e por quase metade do enxofre transportado por mar, um insumo essencial. O estreito também é uma importante rota para o abastecimento mundial de petróleo.
Os embarques de fertilizantes provenientes da região do Golfo permaneciam, em grande parte, paralisados mais de seis meses após o início do conflito, afirmou o Instituto Internacional de Pesquisa em Políticas Alimentares, sediado em Washington, em uma nota divulgada no mês passado. Segundo o instituto, os fertilizantes representaram uma parcela “ínfima” da retomada parcial do transporte marítimo durante um cessar-fogo entre meados de junho e meados de julho.
CINCO NAVIOS POR DIA
Se a interrupção em Ormuz continuar, os preços das commodities poderão subir até 81% no caso dos cereais, 66% no das oleaginosas e 30% no dos produtos de origem animal, segundo um relatório de agosto da Câmara de Comércio Internacional.
“Se perdermos essa temporada de plantio, a produtividade agrícola cairá significativamente e o impacto sobre os preços aumentará de forma expressiva”, afirmou Moreira da Silva, que também é diretor-executivo do Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos.
A operação proposta utilizaria um centro de coordenação em Omã para cadastrar embarcações e coordenar sua passagem segura, com observadores da ONU trabalhando ao lado das autoridades locais nos portos do Golfo para verificar o carregamento das cargas.
A passagem de apenas cinco navios por dia por Ormuz poderia manter o fluxo de fertilizantes para países com necessidades críticas de abastecimento, afirmou Moreira da Silva.
Os navios seriam monitorados durante a travessia, e inspeções adicionais poderiam ser realizadas caso algum país levantasse preocupações sobre uma embarcação ou sua carga, acrescentou.
MÚLTIPLOS GARGALOS NO TRANSPORTE MARÍTIMO
Irã e Estados Unidos têm trocado propostas por meio de intermediários desde o colapso de um cessar-fogo provisório firmado em junho, mas os esforços para reabrir o Estreito de Ormuz estão paralisados devido às condições impostas por Teerã e à insistência de Washington em tratar do programa nuclear iraniano desde o início das negociações.
O mecanismo proposto pela ONU poderia funcionar paralelamente às negociações de um acordo abrangente destinado a assegurar uma paz duradoura e a liberdade de navegação, afirmou Moreira da Silva.
“O que estamos dizendo a eles é: enquanto vocês continuam suas discussões em busca de um acordo abrangente, deixem-nos trabalhar, deixem-nos fazer nosso trabalho”, disse. Ele não quis especificar os entraves exatos a um acordo, uma vez que as discussões com os dois lados continuam.
Além da crise em Ormuz, a deterioração da situação na região do Mar Negro, onde navios de carga têm sido atacados, e uma ofensiva de militantes houthis apoiados pelo Irã ao longo de uma importante rota de navegação no Mar Vermelho estão agravando a ameaça à segurança alimentar global.
“O que estamos testemunhando agora é uma concentração de fatores”, afirmou Moreira da Silva. “Crise climática, interrupção simultânea de passagens marítimas estratégicas no Mar Negro, no Mar Vermelho e em Ormuz.”
Fonte: Reuters
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