Economia

FMI reduz projeção de crescimento global e alerta para piora do cenário com guerra no Oriente Médio

abr, 15, 2026 Postado porGabriel Malheiros

Semana202616

O Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu nesta terça-feira (14) sua projeção para o crescimento da economia global, refletindo o impacto da alta dos preços de energia provocada pela guerra no Oriente Médio. Ao mesmo tempo, alertou que o mundo já começa a se aproximar de um cenário mais negativo, com atividade mais fraca, caso persistam as interrupções no transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz.

Em meio à incerteza que domina as reuniões de primavera do FMI e do Banco Mundial, em Washington, o Fundo apresentou três cenários possíveis para a economia mundial, de acordo com o desenrolar do conflito: um cenário-base, um adverso e um severo.

No cenário mais grave, a economia global ficaria muito próxima de uma recessão, com o petróleo a uma média de US$ 110 por barril em 2026 e de US$ 125 em 2027.

No relatório Perspectiva da Economia Mundial, o FMI adotou como referência o cenário mais brando, que considera um conflito de curta duração e uma normalização dos preços do petróleo no segundo semestre de 2026. Nesse caso, a média do barril ficaria em US$ 82 no ano, bem abaixo dos cerca de US$ 96 registrados pelo Brent na terça-feira.

Pouco depois da divulgação do relatório, porém, o economista-chefe do FMI, Pierre-Olivier Gourinchas, afirmou que as projeções podem já não refletir plenamente o quadro atual. Segundo ele, com a continuidade das disrupções no setor de energia e sem perspectiva clara de encerramento do conflito, o cenário adverso passou a parecer cada vez mais plausível.

Esse cenário intermediário considera uma guerra mais prolongada, com o petróleo em torno de US$ 100 por barril neste ano e em US$ 75 em 2027. Nessa hipótese, o crescimento global cairia para 2,5% neste ano, ante 3,4% em 2025.

“Eu diria que estamos em algum ponto entre o cenário-base e o cenário adverso”, afirmou Gourinchas. “E, naturalmente, a cada dia que passa, e a cada novo choque no setor de energia, ficamos mais próximos do cenário adverso.”

Segundo o FMI, se não houvesse a guerra no Oriente Médio, a projeção de crescimento global teria sido revisada para cima em 0,1 ponto percentual, para 3,4%, sustentada pela continuidade do ciclo de investimentos em tecnologia, pela queda dos juros, por tarifas menos pesadas nos Estados Unidos e por estímulos fiscais em alguns países. Em janeiro, o Fundo projetava que o petróleo recuaria para cerca de US$ 62 em 2026.

No cenário severo, o mais pessimista dos três, o FMI trabalha com a hipótese de um conflito mais longo e mais intenso, acompanhado de uma disparada ainda maior do petróleo, além de turbulências relevantes nos mercados financeiros e aperto nas condições de crédito. Nesse caso, o crescimento global cairia para 2,0%.

Para o Fundo, isso significaria uma situação muito próxima de uma recessão global. Desde 1980, a economia mundial cresceu abaixo desse patamar em apenas quatro ocasiões, incluindo 2009, após a crise financeira internacional, e 2020, no auge da pandemia de Covid-19.

Pressão sobre a inflação

Gourinchas afirmou que, nesse cenário mais duro, vários países entrariam efetivamente em recessão. Com o barril em US$ 110 em 2026 e US$ 125 em 2027, a manutenção desses preços por um período prolongado reforçaria a percepção de que a inflação se tornou mais persistente, alimentando reajustes mais amplos de preços e pressões salariais.

Segundo ele, essa mudança nas expectativas inflacionárias exigiria uma reação mais dura dos bancos centrais para conter a inflação, possivelmente com custo econômico superior ao observado em 2022.

O FMI ponderou, no entanto, que, se a alta da energia for temporária e as expectativas de inflação permanecerem sob controle, os bancos centrais podem optar por não reagir de imediato, mesmo em um ambiente de atividade mais fraca.

Nesse cenário severo, a inflação global em 2026 ultrapassaria 6%. No cenário-base, que embasa as projeções por país e por região, ela ficaria em 4,4%.

Impacto nas principais economias

O FMI reduziu ligeiramente sua projeção de crescimento dos Estados Unidos para este ano, de 2,4% para 2,3%. Segundo a instituição, o efeito positivo dos cortes de impostos, da queda anterior dos juros e da continuidade dos investimentos em data centers ligados à inteligência artificial ajuda a compensar, ao menos em parte, o aumento dos custos de energia. Para 2027, a projeção subiu 0,1 ponto, para 2,1%.

A zona do euro, que ainda convive com os efeitos da crise energética agravada pela invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, tende a sentir mais fortemente os reflexos da guerra no Oriente Médio. A projeção de crescimento foi reduzida em 0,2 ponto percentual tanto para 2026 quanto para 2027, para 1,1% e 1,2%, respectivamente.

No caso do Japão, a estimativa praticamente não mudou no cenário-base: alta de 0,7% em 2026 e de 0,6% em 2027. Ainda assim, o FMI disse esperar que o Banco do Japão eleve os juros em ritmo um pouco mais rápido do que previa seis meses atrás.

Para a China, a previsão de crescimento em 2026 foi reduzida em 0,1 ponto percentual, para 4,4%, já que a alta dos custos de energia e commodities é parcialmente compensada por tarifas menores nos Estados Unidos e por estímulos do governo chinês. Para 2027, o Fundo manteve a projeção em 4,0%, destacando como entraves a fraqueza do setor imobiliário, a redução da força de trabalho, o menor retorno sobre os investimentos e o avanço mais lento da produtividade.

Emergentes e Oriente Médio entre os mais afetados

De forma geral, o FMI avalia que as economias emergentes e em desenvolvimento devem sofrer mais do que as avançadas com o agravamento do conflito, já que tendem a ser mais dependentes de energia em sua estrutura produtiva. A projeção de crescimento desse grupo para 2026 caiu 0,3 ponto percentual, para 3,9%.

O impacto mais forte aparece justamente na região mais diretamente atingida pela guerra. No Oriente Médio e na Ásia Central, o crescimento previsto para 2026 foi reduzido em dois pontos percentuais, para 1,9%, em meio a danos de infraestrutura e forte redução das exportações de energia e commodities.

As projeções apontam retração do PIB em 2026 de 6,1% no Irã, 8,6% no Catar, 6,8% no Iraque, 0,6% no Kuwait e 0,5% no Bahrein.

Sob a hipótese de um conflito curto, porém, a região teria recuperação rápida em 2027, com crescimento de 4,6%, acima do previsto anteriormente.

Entre os emergentes, a Índia aparece como principal destaque positivo. O FMI elevou em cerca de 0,1 ponto percentual sua projeção para o país, para 6,5% tanto em 2026 quanto em 2027, apoiado pelo bom ritmo da economia no fim do ano passado e por um acordo que reduziu a tarifa dos Estados Unidos sobre produtos indianos.

Alívio fiscal deve ser pontual, diz FMI

O Fundo afirmou ainda que muitos governos podem ser pressionados a adotar medidas para aliviar o impacto da alta dos combustíveis, como controle de preços, subsídios ou redução de impostos. Ainda assim, fez um alerta para o risco de ampliar déficits fiscais em um momento em que a dívida pública segue elevada em vários países.

Gourinchas disse ser legítimo proteger os grupos mais vulneráveis, mas defendeu que qualquer medida desse tipo seja focalizada e temporária, para não comprometer o reequilíbrio fiscal de médio prazo.

Reportagem de David Lawder para a Reuters

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