Gado mais pesado e novos mercados: pecuaristas argentinos apostam nas exportações de carne bovina
jul, 17, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202629
Os preços mais altos da carne bovina no mercado internacional e os novos acordos comerciais firmados durante o governo do presidente Javier Milei estão incentivando os pecuaristas argentinos a produzir animais mais pesados, apostando em um ciclo prolongado de crescimento das exportações que pode transformar a indústria da carne no país.
Segundo uma analista do setor, as exportações argentinas — em um país famoso pelos churrascos (asados), pelas tradicionais casas de carne e por ter um dos maiores consumos per capita de carne bovina do mundo — podem crescer até 50% nos próximos quatro anos, ampliando o forte avanço da receita obtida com exportações já registrado em 2026.
A mudança representa uma ruptura com o modelo histórico voltado principalmente para o consumo interno. Agora, os produtores respondem à demanda crescente de mercados como Estados Unidos, Israel, Europa e China, além das novas oportunidades abertas pelos acordos comerciais com os EUA e a União Europeia.
“A forma como trabalhamos mudou bastante”, afirmou o pecuarista Guillermo Del Barrio, proprietário do confinamento El Trébol, localizado a cerca de 130 quilômetros de Buenos Aires, onde mais de 8 mil bovinos são criados e engordados.
“Antes levávamos animais menores para o confinamento e eles eram abatidos com cerca de 300 quilos”, disse Del Barrio. “Hoje eles saem com aproximadamente 550 quilos.”
Na Argentina, o gado normalmente é criado a pasto antes de passar alguns meses em confinamentos (feedlots), onde recebe dietas de alta energia, compostas principalmente por milho e farelo de soja, para acelerar o ganho de peso antes do abate. A valorização do boi gordo também tem incentivado os produtores a prolongarem o período de engorda.
Analistas do setor afirmam que os acordos comerciais com os Estados Unidos e a União Europeia permitirão à Argentina ampliar as vendas externas graças ao aumento das cotas de importação com tarifas reduzidas.
Buenos Aires assinou um acordo comercial com Washington em fevereiro, ampliando o acesso da carne argentina ao mercado americano. Como parte do acordo bilateral, o presidente Donald Trump aumentou a cota de importação da carne bovina argentina, ampliando os mecanismos de exportação já existentes entre os dois países.
“Os Estados Unidos cresceram de forma extraordinária”, afirmou Maria Julia Aiassa, analista do Mercado de Gado de Rosário (Rosgan).
Os embarques para os EUA aumentaram 158% nos cinco primeiros meses do ano, alcançando 41.770 toneladas, com faturamento de US$ 348 milhões, segundo o Instituto de Promoção da Carne Bovina Argentina (IPCVA).
O aguardado acordo comercial entre Mercosul e União Europeia também entrou em vigor provisoriamente em maio. Segundo Aiassa, a Europa já era um mercado consolidado para a carne argentina por meio das cotas existentes, mas o acordo “abre uma janela muito positiva” para uma expansão ainda maior.
De acordo com relatório do Rosgan, a demanda global permanece firme e a previsão de queda de quase 1 milhão de toneladas na produção mundial de carne bovina em 2026 deverá manter os preços internacionais em trajetória de alta.
Impulso às exportações
O otimismo do setor sucede um período difícil para os exportadores argentinos. No início de 2025, os volumes exportados recuaram devido à valorização do peso argentino, que elevou os custos internos, como alimentação e transporte, reduzindo a competitividade nos principais mercados externos, especialmente a China, maior compradora da carne argentina.
Nos cinco primeiros meses deste ano, as exportações de carne bovina da Argentina cresceram 8%, alcançando 271 mil toneladas, segundo a associação de exportadores ABC.
Já a receita com as exportações disparou 44,7%, atingindo US$ 1,83 bilhão na comparação com o mesmo período do ano anterior, refletindo principalmente a alta dos preços internacionais.
O preço médio do boi gordo na Argentina subiu mais de 20% nos últimos 12 meses, chegando a cerca de US$ 2,80 por quilo, segundo o índice do Mercado Agroganadero, estimulando os produtores a aumentar ainda mais o peso dos animais antes do abate.
Para Juan Eiras, presidente da Câmara Argentina de Feedlots, os preços internacionais favoráveis estão impulsionando uma transformação estrutural há muito esperada no setor de carnes. Tradicionalmente, a maior parte da produção argentina era destinada ao consumo interno.
Segundo Eiras, atraídos pelos preços mais elevados, os pecuaristas estão retendo um número maior de fêmeas reprodutoras para ampliar o rebanho nacional.
Atualmente, a Argentina exporta cerca de 30% de sua produção de carne bovina, o equivalente a aproximadamente 1 milhão de toneladas. Segundo Aiassa, essa participação poderá atingir 40% nos próximos anos. Enquanto o consumo doméstico perdeu força, as vendas externas continuam crescendo.
“Hoje praticamente todas as empresas exportadoras possuem seus próprios confinamentos ou trabalham em sistema de ‘hotel’, utilizando confinamentos parceiros”, explicou Aiassa, referindo-se ao modelo em que os produtores pagam para que os animais permaneçam alojados e alimentados em um feedlot durante determinado período.
Ela acrescenta que, a partir de 2029 ou 2030, as exportações argentinas poderão superar 1,5 milhão de toneladas por ano.
Fonte: Reuters
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