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Guerra comercial leva empresas brasileiras a buscar novos mercados

jun, 23, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202626

A guerra comercial iniciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aumentou a urgência para que as empresas brasileiras encontrem novos mercados para seus produtos. Os resultados já são visíveis. Em 2025, o Brasil registrou volumes recordes de exportação para 42 países, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Entre os destinos que receberam embarques recordes — excluindo Estados Unidos e China — estão Canadá, Índia, Turquia, Paraguai, Uruguai, Bangladesh, Filipinas, Panamá, Paquistão e Noruega. A tendência pode ganhar ainda mais força nos próximos anos, à medida que o Brasil amplia sua rede de acordos comerciais.

“Muitas empresas já têm a diversificação em seu DNA. Mas revisar as estratégias de exportação tornou-se necessário diante das mudanças no cenário global”, afirmou Tatiana Prazeres, secretária de Comércio Exterior do MDIC, ao Valor. “O ambiente internacional, marcado por desafios, mudanças nas políticas comerciais e tensões geopolíticas, estimulou maior pragmatismo tanto dos governos quanto do setor privado”, disse Constanza Negri, gerente de comércio e integração internacional da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Integrantes do governo afirmam que a crescente busca das empresas por mercados alternativos ajudou a acelerar negociações comerciais, incluindo o acordo Mercosul-União Europeia. Na semana passada, o Congresso aprovou dois acordos do Mercosul considerados parte dessa estratégia de diversificação: os tratados com Singapura e com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), formada por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein. Juntos, esses acordos elevam de 12% para 31% a parcela do comércio exterior brasileiro coberta por acordos comerciais.

Esse percentual pode aumentar ainda mais.

O Mercosul negocia um acordo com o Canadá, que passou da décima principal destino das exportações brasileiras em 2023 para a oitava posição em 2025. Segundo o MDIC, também estão em andamento negociações com Emirados Árabes Unidos, Indonésia, Líbano e Vietnã.

Dados de exportação de cargas em contêineres obtidos pela Datamar mostram que, entre janeiro e abril de 2026, o Brasil exportou 8.302 TEUs ao Canadá (+13,3% a/a). Confira quais foram as principais mercadorias embarcadas ao país norte-americano:

Principais Exportações ao Canadá | Jan-Abr 2026 | TEUs

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)

Na semana passada, à margem da cúpula do G7, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva discutiu com a primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi a possibilidade de iniciar negociações entre Mercosul e Japão. O lançamento das tratativas pode ser anunciado durante a cúpula do bloco sul-americano, ainda neste mês.

O Brasil também busca ampliar os acordos já existentes com Índia e México. Para Constanza Negri, a rapidez com que o Congresso aprovou os acordos com União Europeia, Singapura e EFTA representa uma mudança em relação à tradicional lentidão brasileira na abertura comercial. Em sua avaliação, a discussão deixou de ser se os acordos são necessários, passando a ser quais acordos fazem mais sentido para o país.

Tatiana Prazeres argumentou que os acordos com Singapura e EFTA são mais relevantes para os exportadores brasileiros do que muitos imaginam. Embora as exportações para esses mercados sejam fortemente concentradas em petróleo bruto e combustíveis, a pauta exportadora é muito mais diversificada do que os números agregados sugerem. Das cerca de 8 mil categorias de produtos exportadas pelo Brasil em 2025, aproximadamente 2,5 mil foram vendidas para Singapura e 2.280 para os países da EFTA.

Segundo ela, isso indica grande espaço para empresas brasileiras — especialmente da indústria e de produtos de maior valor agregado — ampliarem sua presença nesses mercados.

“Há muitas oportunidades em produtos que representam uma parcela pequena das exportações brasileiras para determinado país, mas que podem fazer uma diferença enorme para uma empresa específica”, afirmou.

Além da diversificação comercial, estudos do governo projetam ganhos econômicos relevantes com os acordos.

Singapura é vista como uma porta de entrada para o Sudeste Asiático, uma das regiões mais abertas e dinâmicas do mundo. O MDIC estima que o acordo poderá elevar o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em R$ 28 bilhões, aumentar os investimentos em R$ 11 bilhões e ampliar o fluxo total de comércio em US$ 40 bilhões até 2040, impulsionado pelo crescimento das exportações e importações.

No caso da EFTA, as projeções indicam aumento de R$ 2,69 bilhões no PIB, acréscimo de R$ 660 milhões nos investimentos e expansão de R$ 3,34 bilhões nas exportações brasileiras. Ambos os acordos receberam forte apoio da indústria devido ao potencial de ampliar oportunidades de comércio e investimento.

Constanza Negri destacou que o acordo com a EFTA é especialmente importante por fortalecer os laços do Brasil com um mercado fortemente integrado à União Europeia. Ela também ressaltou avanços em áreas como regulamentação de investimentos e compras governamentais. Já o acordo com Singapura é visto como uma forma de ampliar o acesso do Mercosul aos mercados asiáticos.

Entidades industriais, porém, defenderam regras de origem rigorosas para evitar triangulação comercial, ou seja, que produtos de terceiros países entrem no Mercosul via Singapura.

“As relações comerciais não se desenvolvem em uma folha em branco”, afirmou Leandro Consentino, cientista político e professor do Insper. “Não se trata apenas de uma questão econômica. Há também um componente político importante, especialmente neste ano, quando tanto o Brasil quanto os Estados Unidos se aproximam de eleições.”

Fonte: Valor International

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