Argentina soybean harvest
Economia

Guerra eleva custos e aperta margens do agro argentino, apesar de safra recorde

abr, 24, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202617

O setor agrícola da Argentina iniciou 2026 com perspectivas favoráveis, mas o cenário global mudou com a guerra no Oriente Médio elevando os custos de frete, combustíveis e fertilizantes. Isso ameaça reduzir as margens dos produtores, mesmo com preços mais altos das commodities sustentando um fluxo maior de dólares de exportação para o Banco Central.

A safra 2025/26 deve gerar mais de US$ 35,375 bilhões em ingresso de divisas, segundo projeções da Bolsa de Comércio de Rosário (BCR), que aponta para uma colheita recorde de grãos e preços internacionais relativamente firmes, apoiados pelo conflito. A estimativa é cerca de US$ 850 milhões superior às previsões anteriores.

Esse fluxo de dólares oriundo das exportações é uma variável-chave para o cenário macroeconômico argentino. As entradas ajudam a reforçar as reservas do Banco Central, financiar importações e sustentar a política cambial em um momento de forte demanda por moeda forte. No campo fiscal, o governo também se beneficia com o aumento da arrecadação de impostos sobre exportações e outros tributos ligados ao comércio, calculados sobre maiores volumes e valores.

No entanto, o mesmo conflito está elevando os custos ao longo de toda a cadeia de suprimentos do agro, reduzindo a rentabilidade e limitando a capacidade de reinvestimento dos produtores para o próximo ciclo de plantio, alerta a BCR.

Os custos de exportação subiram significativamente. As tarifas de frete marítimo, que já vinham em alta devido à reconfiguração das rotas globais, aumentaram até 50%. Os custos de combustíveis — essenciais para máquinas agrícolas e transporte interno — também foram impactados pela volatilidade do mercado de energia. Já os fertilizantes, muitos deles importados, registraram forte alta, levando produtores a reavaliar decisões de investimento e manejo do solo.

No caso do trigo, o custo de plantio aumentou US$ 58 por hectare, uma alta de quase 11% em relação aos meses anteriores ao conflito com o Irã, segundo o relatório.

“A escalada das tensões militares no Oriente Médio deixou de ser um conflito distante e passou a ser um fator determinante para a economia rural argentina”, afirmou a BCR.

O resultado é um cenário misto: a Argentina se beneficia de preços globais mais altos, mas enfrenta compressão de custos que reduz sua competitividade em relação a outros exportadores. Segundo a entidade, a situação exigirá medidas de mitigação, como acordos logísticos e maior eficiência no transporte interno.

Na região da Grande Rosário — principal polo exportador de grãos do país —, a logística também se tornou um desafio adicional. O sistema Stop 5.0, que organiza a chegada de caminhões aos portos, busca reduzir congestionamentos e tempos de espera, mas não compensa o impacto dos custos internacionais mais elevados. Produtores afirmam que a tecnologia ajuda, mas o problema central está na estrutura global de preços e na incerteza gerada pelo conflito.

O ambiente internacional também influencia as decisões de investimento. Muitos produtores, que viam a atual safra como oportunidade de recuperação após anos de seca e dificuldades financeiras, agora reavaliam planos de expansão ou adoção de novas tecnologias, diante da volatilidade dos insumos e da incerteza de custos. A produção agrícola exige altos investimentos iniciais em sementes, fertilizantes, defensivos e operações de campo, enquanto a receita só é obtida após a colheita, destaca o relatório.

Confira a seguir quais foram as principais mercadorias exportadas por via marítima pela Argentina nos dois primeiros meses do ano. Os dados, obtidos e processados pela Datamar, mostram a predominância dos produtos do agro no trade argentino.

Principais Mercadorias Exportadas | Argentina | Jan-Fev 2026 | TEUs

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)

Autoridades econômicas acompanham a tendência de perto. O ingresso de divisas esperado com a safra é fundamental para manter a estabilidade cambial e financiar importações essenciais. No entanto, se as margens dos produtores forem muito pressionadas, a capacidade de reinvestimento pode ser comprometida, levantando dúvidas sobre como transformar uma safra recorde em sustentabilidade econômica duradoura.

Fonte: Forbes Argentina

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