Guerra entre Rússia e Ucrânia encarece trigo e força compradores a buscar novos fornecedores
set, 23, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202639
Grandes importadores de trigo se preparam para pagar mais caro pelo cereal nas próximas semanas, à medida que a guerra entre Rússia e Ucrânia restringe os embarques pelo Mar Negro e reduz os estoques disponíveis em importantes mercados consumidores.
Compradores da Ásia, Oriente Médio e África que dependem do trigo da região vêm encontrando dificuldades para garantir novas cargas. Desde julho, ataques a navios e à infraestrutura portuária praticamente paralisaram parte da movimentação de grãos pelo Mar Negro.
A redução da oferta já provocou uma forte reação nos preços. Os contratos futuros de referência negociados em Chicago subiram cerca de 40% desde as mínimas de junho e atingiram o maior nível em três anos e meio. Os preços físicos cobrados por fornecedores alternativos também avançaram, aumentando o risco de uma nova pressão inflacionária sobre alimentos em países altamente dependentes das importações.
Nos últimos meses, muitos compradores evitaram fechar negócios com outras origens na expectativa de que Rússia e Ucrânia chegassem a algum entendimento que permitisse a retomada dos embarques. Com os estoques locais diminuindo, especialmente na Ásia, essa estratégia começa a ficar mais difícil de sustentar.
A disputa pelas cargas disponíveis tende a se intensificar até o fim do ano, quando começa a entrar no mercado a safra do Hemisfério Sul. Até lá, a expectativa é de que o preço do trigo no mercado internacional continue sob pressão.
“O Mar Negro é uma região importante para o transporte de grãos e, se os compradores não conseguem retirar o produto dali, precisam procurar oferta em outros lugares, o que tende a elevar ainda mais os preços”, afirmou Ole Hansen, chefe de estratégia de commodities do Saxo Bank.
Alguns compradores do Oriente Médio e da África já procuram alternativas. Outros ainda dispõem de estoques suficientes para chegar a novembro ou ao fim do ano antes de precisar voltar ao mercado em busca de volumes maiores.
Embarques russos e ucranianos despencam
As exportações russas de trigo devem cair para cerca de 1 milhão de toneladas em setembro, ante 5 milhões de toneladas no mesmo mês do ano passado, segundo estimativas da Kpler.
A Ucrânia também deverá exportar aproximadamente 1 milhão de toneladas neste mês, metade do volume registrado em setembro de 2025.
No curto prazo, a Ásia tende a sentir com maior intensidade a redução da oferta.
“Há pouquíssimos navios entrando para carregar, e o pouco que está saindo da Rússia e da Ucrânia está seguindo para alguns compradores no Oriente Médio e na África. Nada está indo para a Ásia”, afirmou Ishan Bhanu, analista agrícola da Kpler.
A Indonésia, segundo maior importador mundial de trigo, recebeu apenas cerca de 60 mil toneladas do Mar Negro neste mês, muito abaixo das 500 mil toneladas registradas em setembro do ano passado.
Com menos produto disponível na região, os moinhos indonésios passaram a buscar outras origens, incluindo a Argentina. Compradores também estão pagando entre 20% e 25% mais pelo trigo australiano do que pagavam anteriormente pelas cargas do Mar Negro.
Parte dos moinhos já começou a contratar carregamentos a granel da Austrália e da Argentina. Outros, diante dos preços elevados, optaram por lotes menores para atravessar o período de escassez.
Um executivo de uma companhia de moagem do Sudeste Asiático afirmou que sua empresa contratou alguns contêineres de trigo australiano para substituir o produto russo e ucraniano, mas evitou fechar compras a granel devido ao custo elevado.
“Os preços subiram bastante e não estamos em condições de repassar todo esse aumento aos compradores de farinha”, disse o executivo, que não quis ser identificado.
O trigo romeno do Mar Negro estava cotado em torno de US$ 340 por tonelada C&F no Sudeste Asiático, enquanto o Australian Premium White chegava a aproximadamente US$ 345 por tonelada para embarque em outubro. Os valores são cerca de 25% superiores aos preços do trigo do Mar Negro antes da crise nos embarques.
Estoques menores aumentam pressão sobre importadores
O Egito, maior comprador mundial do cereal, deverá receber entre setembro e outubro menos de um décimo do volume de trigo russo e ucraniano importado no mesmo período do ano passado.
O país, porém, ainda dispõe de alguma margem para adiar compras maiores.
“Os importadores não podem esperar para sempre, mas podem aguardar por um bom tempo, já que as safras do Oriente Médio e do Norte da África acabaram de chegar. Isso dá algum fôlego, embora não seja suficiente para toda a temporada”, afirmou um trader europeu.
Na primeira quinzena de setembro, as importações egípcias de trigo somaram 143.870 toneladas, contra 876.139 toneladas no mesmo período do ano passado, quando Rússia e Ucrânia respondiam pela maior parte dos embarques.
O Egito passou a buscar mais trigo da França e de outros fornecedores europeus, reduzindo sua dependência das origens russa e ucraniana.
Mesmo assim, parte dos compradores egípcios ainda evita substituir completamente o trigo do Mar Negro. Além de contar com estoques domésticos, os moinhos preferem variedades com as quais já estão acostumados a trabalhar.
Segundo Hesham Soliman, trader baseado em Alexandria, muitos moinhos do país estão operando com apenas 30% da capacidade enquanto aguardam uma possível retomada dos embarques pelo Mar Negro, que poderia derrubar os preços em até 20%.
“Todos estão esperando para ver Rússia e Ucrânia sentarem à mesa. O mercado teme que, se isso acontecer, os preços caiam de repente US$ 50 ou US$ 60 por tonelada”, afirmou.
Enquanto não há normalização dos fluxos pelo Mar Negro, compradores tradicionais terão de disputar volumes provenientes de outros mercados. Nesse cenário, fornecedores como Argentina e Austrália ganham espaço, ao mesmo tempo em que a menor disponibilidade de navios e cargas amplia a pressão sobre custos de frete, preços do cereal e planejamento de abastecimento.
Fonte: Reuters
-
Grãos
abr, 24, 2019
0
Argentina procura mercado para soja na China
-
Carnes
set, 21, 2021
0
Haiti registra primeiro caso de peste suína africana desde 1984
-
Grãos
set, 11, 2026
0
Exportações argentinas de milho ao Norte da África crescem 42% com gargalos no Mar Negro
-
Portos e Terminais
jun, 22, 2023
0
TCP registra terceiro mês de recordes em 2023