Petróleo e Gás

Guerra no Oriente Médio traz exportações recordes e aumento da conta fiscal para a Argentina

maio, 27, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202622

A guerra no Oriente Médio deixou a Argentina diante de uma equação de dois lados. O petróleo Brent vem sendo negociado acima de US$ 100 por barril há mais de um mês, impulsionando as exportações a níveis recordes. Mas o mesmo choque de preços tornou os combustíveis importados mais caros e obrigou o governo a absorver subsídios maiores para conter as tarifas residenciais de energia, em um momento em que o consumo das famílias dá sinais de fraqueza e a inflação no início do ano superou as previsões oficiais.

Os dados de abril, divulgados na semana passada pelo Ministério da Economia e pelo Indec, mostram claramente essa tensão.

No setor externo, as exportações se aproximaram de US$ 9 bilhões em abril, um recorde histórico, com alta de 33,6% na comparação anual, equivalente a um adicional de US$ 2,24 bilhões. O segmento de combustíveis e energia foi o segundo maior responsável por esse aumento: cresceu 86% em relação a abril de 2025, adicionou US$ 718 milhões e também atingiu recorde, graças à combinação de aumento dos volumes, que subiram 53%, e dos preços, que avançaram 21%. No total, o segmento respondeu por 30% do crescimento das exportações.

As importações, por outro lado, caíram 4% em valor e 8% em volume na comparação anual. A maior queda ocorreu justamente em combustíveis e energia, com retração de 45%, refletindo maior autossuficiência doméstica. O resultado foi um superávit comercial de US$ 2,8 bilhões em abril e de US$ 8,3 bilhões nos quatro primeiros meses do ano. A consultoria LCG projeta que o superávit ultrapassará US$ 20 bilhões em todo o ano de 2026.

O custo fiscal do choque energético

No cenário interno, a dinâmica foi mais complexa. Pela primeira vez neste ano, os gastos primários subiram 2% em termos reais em abril e deixaram de acompanhar a queda das receitas, marcando uma mudança em relação aos meses anteriores, quando ambas as variáveis seguiam a mesma direção. O superávit primário acumulado em quatro meses equivale a 0,5% do PIB, abaixo dos 0,6% registrados no mesmo período de 2025 e dos 0,7% observados em 2024.

O principal fator de pressão sobre os gastos foram os subsídios econômicos, que dispararam 87,8% em termos reais em abril, com destaque para os subsídios de energia, que subiram 150% após vários meses de fortes quedas na mesma base de comparação.

Nos quatro primeiros meses do ano, os gastos com subsídios acumulam 0,27% do PIB, segundo diferentes medições, acima do nível registrado no mesmo período de 2025. “Esse é um dos pontos que foi subestimado no impacto local do choque energético e que também está pressionando o resultado fiscal”, afirmou a consultoria Outlier.

A consultoria Econviews, liderada pelo ex-secretário de Finanças Miguel Kiguel, afirmou que parte do salto registrado em abril é explicada pelo pagamento de contas atrasadas de março, o que significa que não seria apropriado descrever o movimento como uma mudança de tendência.

O aumento dos subsídios foi compensado por um corte mais profundo no restante das despesas: os gastos primários excluindo subsídios equivaleram a 3,7% do PIB nos quatro primeiros meses do ano, 0,4 ponto percentual abaixo de 2025 e 1,5 ponto abaixo da média de 2016 a 2023.

“Nos quatro primeiros meses, os gastos com subsídios somam 0,26% do PIB, acima do acumulado no mesmo período de 2025. Os preços mais altos da energia e o atraso na implementação do cronograma de reajuste tarifário explicam esse crescimento. Isso foi compensado por um ajuste mais intenso no restante dos gastos”, afirmou a LCG.

A meta fiscal para 2026, estabelecida no orçamento, é de um superávit primário de 1,5% do PIB, ligeiramente acima dos 1,4% mencionados no mais recente relatório técnico do International Monetary Fund.

Analistas consideram a meta alcançável, mas alertam para os caminhos necessários para chegar até ela. “Para sustentar a meta, o desempenho das receitas precisará melhorar, novos ajustes explícitos de gastos terão de ser feitos e/ou novas fontes extraordinárias precisarão ser adicionadas”, afirmou a Outlier. A consultoria observou que a área com maior espaço para novos cortes é a de programas sociais, já que os subsídios econômicos estão limitados pela crise global de energia.

Nesse contexto, o governo também avançou com uma nova redução nos impostos de exportação. Durante discurso na Buenos Aires Grain Exchange, o presidente Javier Milei anunciou um corte de dois pontos percentuais nas tarifas de exportação sobre trigo e cevada, reduzindo-as para 5,5% — ante 12% no início de sua administração — e afirmou que os impostos sobre exportações petroquímicas e do setor automotivo serão gradualmente reduzidos a zero.

O gráfico a seguir detalha as exportações mensais de trigo de Argentina ao longo dos últimos três anos, segundos os dados de movimentação de contêineres da Datamar:

Exportação de Trigo | Argentina | Jan 2023 – Mar 2026 | TEUs

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)

O custo fiscal da medida é limitado, segundo a Econviews: os produtos afetados pagaram cerca de 600 bilhões de pesos em impostos em 2025, equivalente a 0,07% do PIB.

Por Sofía Diamante, para La Nación

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