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Importações baratas pressionam a indústria brasileira de alho

jun, 02, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202623

Diante da concorrência de importações mais baratas, os produtores brasileiros de alho estão reduzindo a área plantada e buscando medidas governamentais para conter os embarques vindos da China e da Argentina. Os agricultores pretendem reduzir a área cultivada em 21% neste ano, para cerca de 11 mil hectares, já que o alho importado dos dois países continua entrando no Brasil a preços inferiores aos custos de produção nacionais, segundo a Associação Nacional dos Produtores de Alho (Anapa).

Nesta semana, a Anapa solicitará ao Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex-Camex) a revogação do compromisso de preço atualmente em vigor para o alho exportado por quatro grandes fornecedores chineses. Pelo acordo, as empresas Shandong Trans-High Imp & Exp Co., Jining Foreign Trading Co., Jining Freen Agri-Produces Co. e Shandong Goodfarmer International Trading Co. estão sujeitas a um preço mínimo de exportação de US$ 15,80 por caixa de 10 quilos. Os demais exportadores chineses estão sujeitos a uma tarifa antidumping de US$ 7,80 por caixa.

“Nosso custo de produção é de cerca de US$ 25 por caixa. Esse compromisso de preço tem desestimulado o plantio no Brasil”, afirmou Rafael Corsino, presidente da Anapa. A associação quer que o acordo seja abolido e que a sobretaxa antidumping seja aplicada a todas as importações de alho da China. Ainda neste mês, a entidade também pretende solicitar medidas antidumping contra o alho argentino.

“A Argentina exporta alho abaixo do custo de produção. Os custos de produção lá giram em torno de US$ 18 por caixa, mas o alho está entrando no Brasil por US$ 12,50”, afirmou Corsino. Segundo a associação, a Argentina teria subfaturado as exportações de alho para o Brasil nos últimos seis anos.

O Brasil consome aproximadamente 320 mil toneladas de alho por ano, mas produz apenas cerca de 170 mil toneladas, segundo a Anapa. A maior parte da produção nacional está concentrada nos estados de Minas Gerais, Goiás, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Até o ano passado, cerca de 60% do alho importado vinha da Argentina e 36% da China.

Confira abaixo a evolução dos volumes mensais de importação de alho registrados nos portos brasileiros, segundo os dados de movimentação de contêineres da Datamar:

Importação de Alho | Jan 2023 – Abr | TEUs

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram que as importações de alho caíram 5,4% entre janeiro e abril, na comparação com o mesmo período de 2025, totalizando 62,4 mil toneladas. Em valor, as importações recuaram 15,9%, para US$ 77 milhões, o equivalente a um preço médio de US$ 12,34 por caixa. A composição das importações, porém, mudou significativamente.

A Argentina respondeu por 92,7% do volume importado nos quatro primeiros meses do ano, enquanto a China forneceu apenas 5,6%. As importações de alho chinês despencaram 82,3%, para 19,9 mil toneladas, enquanto as compras da Argentina cresceram 26,7%, para 45,7 mil toneladas.

“O aumento das importações resultou em perdas de R$ 5,50 por quilo vendido. Medidas antidumping são urgentes”, afirmou Franchielli Motter, presidente da Associação dos Produtores de Alho do Rio Grande do Sul. Ela informou que os produtores do estado devem reduzir a área plantada de 850 hectares para 750 hectares no próximo ano. “Plantei 16 hectares no ano passado e vou plantar apenas 12 neste ano”, disse.

Os produtores do Sul colhem o alho plantado em junho e julho no final do ano. Essa produção é comercializada no primeiro semestre do ano seguinte e concorre diretamente com o alho argentino. Já os agricultores do Sudeste e Centro-Oeste abastecem o mercado no segundo semestre, competindo principalmente com as importações chinesas.

Jaime Menegon, produtor de alho em São Marcos (RS), cultivou 14 hectares em 2025, mas pretende reduzir a área para apenas quatro hectares neste ano. “Perdi R$ 5 por quilo. Já vi várias crises, mas nunca uma como esta”, afirmou. Menegon pretende concentrar a produção em suas próprias terras e devolver áreas arrendadas.

O excesso de oferta importada também levou Everson Tagliari, produtor de Curitibanos (SC), a vender sua última safra com prejuízo. “Custa entre R$ 120 mil e R$ 130 mil produzir um hectare de alho. Obtivemos apenas R$ 80 mil de receita por hectare”, afirmou.

Tagliari pretende reduzir a área plantada de 10 para 4 hectares e converter o restante da terra em pastagem. A Associação dos Produtores de Alho de Santa Catarina espera que a área cultivada no estado caia de 850 hectares em 2025 para 700 hectares neste ano.

“As tarifas antidumping sobre o alho argentino são vitais para nós. Também é importante eliminar o compromisso de preço aplicado ao alho chinês. Há excesso de produto no mercado. A situação é alarmante para os produtores”, disse Tagliari.

José Barreto, diretor-presidente da Akio Produtos Alimentícios, uma das maiores distribuidoras de alho roxo de São Paulo, afirmou que a mesma situação ocorre em São Gotardo (MG), uma das principais regiões produtoras do país.

“A área plantada foi reduzida porque os custos são muito altos e a concorrência é desleal”, afirmou. A empresa comercializa pasta de alho, alho frito e temperos à base de alho para o varejo. Em 2025, processou 1.300 toneladas de alho descascado e vendeu 100 toneladas de alho in natura. Neste ano, espera manter o volume total de vendas, aumentando a participação de produtos de maior valor agregado. Em março, lançou um produto de alho roxo em pó feito com matéria-prima nacional.

Fonte: Valor International

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