Petróleo puxa preço e compensa volume mais baixo na balança
ago, 07, 2026 Postado porGabriel MalheirosSemana202632
Sob impacto da cotação de petróleo e seus reflexos para os demais produtos, a alta de preços médios reverteu a queda de volume total das exportações e importações de julho, o que possibilitou o aumento da receita de exportação e também do desembolso com importações. A balança comercial fechou o mês com superávit de US$ 7,1 bilhões. O saldo no acumulado do ano foi de US$ 49 bilhões.
O superávit de julho resultou de US$ 34,1 bilhões em exportações e US$ 27,1 bilhões em importações. No conjunto dos sete meses as exportações somaram US$ 218,6 bilhões e as importações, US$ 169,5 bilhões, segundo dados divulgados ontem pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic).
Em julho a quantidade embarcada caiu 4,3%, mas com a alta de 10,8% nos preços médios, a receita de exportação subiu 6,2%, sempre contra igual mês de 2025. Nas importações o comportamento foi parecido, com recuo de 3,2% no volume desembarcado, mas com alta de 12,1% nos preços médios, o que resultou em aumento de 7,6% no desembolso com as compras externas.
Segundo a Datamar, o volume de petróleo bruto exportado no 1º semestre de 2026 caiu 24,2% comparado ao mesmo período do ano anterior. Confira os principais portos responsáveis pela exportação de petróleo bruto no Brasil:
Principais Portos | Petróleo Bruto | 1ºS2026 | WTMT
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
No acumulado do ano, os preços de importação e exportação também têm contribuição relevante. A quantidade embarcada de janeiro a julho cresceu 3,3%, mas os preços aumentaram em ritmo maior, de 6,6%, resultando num aumento de 10,5% na receita de exportação. Nas importações, a alta de 6,5% nos preços médios compensou a queda de 0,6% em volume, o que levou a uma alta de 5,5% no valor desembarcado.
O comportamento de preços, diz José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), reflete em boa parte o efeito das cotações de petróleo, que aumentaram após a eclosão do conflito no Oriente Médio e oscilaram desde então, com efeitos disseminados para os demais produtos.
André Valério, economista do Inter, lembra que as cotações do petróleo Brent chegaram a ter um ajuste, mas aumentaram novamente em meados do mês passado. O preço do barril, que iniciou o ano perto de US$ 70, superou os US$ 100 em março, após o início da guerra. Em maio e junho, sob expectativa de que o conflito chegaria ao fim, a cotação caiu para níveis entre US$ 70 e US$ 80. Em julho, porém, com um pessimismo maior sobre uma solução, o preço do barril voltou para acima de US$ 90.
A expectativa para os próximos meses, diz Valério, é de que Omã e Irã cheguem a um pacto sobre o tráfego no estreito de Ormuz, o que deve levar a cotação do petróleo para perto da casa de US$ 70 o barril. “Isso deve se refletir na balança comercial, mas pode ser compensado por maiores quantidades de exportação, embora ainda haja incertezas.”
O que se espera, explica, é que a China volte a demandar maior volume de petróleo, da mesma forma que os Estados Unidos. Os americanos, diz o economista, têm concentrado o abastecimento na Venezuela, mas a expectativa é de que eles precisem buscar outros fornecedores.
Para Castro, a tendência de preços médios mais altos na exportação deve ser mantida para os próximos meses, mas o aumento deve continuar suave, “sem explosões”. Em termos de volume, diz, a expectativa é de crescimento em commodities importantes, como soja e petróleo. No acumulado de janeiro a julho a quantidade embarcada desses produtos cresceu 7,5% e 7,9%, respectivamente. Os dois itens somaram US$ 67,6 bilhões em exportações, com fatia conjunta de 30,9% da receita total de embarques brasileiros do período.
Para Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, os dados de julho mostram que o desempenho da balança comercial deve depender cada vez menos apenas do cenário internacional e cada vez mais do ritmo de acomodação da atividade econômica doméstica.
Para ela, o crescimento das importações brasileiras deixou de estar mais restrito aos veículos e passou a incorporar bens de maior valor agregado, como equipamentos de tecnologia, medicamentos, combustíveis e insumos industriais. “Essa mudança sugere que o crescimento das importações já não pode ser explicado apenas por fatores pontuais ou recomposição de estoques. Os dados passam a refletir uma demanda doméstica que permanece resistente, mesmo em um ambiente de política monetária ainda restritiva.”
Essa dinâmica altera parcialmente a leitura do setor externo, avalia a economista. “Há poucos meses o principal determinante da balança comercial era o comportamento das exportações de commodities. A partir de agora, a velocidade de crescimento das importações passa a assumir papel igualmente relevante para explicar a trajetória do saldo comercial.”
Mesmo assim, diz, o setor externo continua apresentando fundamentos sólidos, sustentado por uma pauta exportadora competitiva e por uma demanda internacional ainda favorável para commodities agrícolas e energéticas. “A expansão das importações deve reduzir gradualmente o superávit mensal, mas sem comprometer o quadro estruturalmente positivo das contas externas”, diz. A projeção do Pic Pay é de superávit comercial de US$ 78 bilhões em 2026. Em 2025 a balança brasileira fechou com saldo de US$ 68,1 bilhões.
As exportações brasileiras estão sob uma nova rodada de sobretaxas impostas pelos Estados Unidos, mas como as medidas passaram a valer no dia 29 de julho, não houve efeito na balança do mês passado. O diretor de estatísticas e estudos de comércio exterior do Mdic, Herlon Brandão, diz que a queda de 5% no valor embarcado aos EUA em julho concentrou-se principalmente em produtos que ficaram de fora das sobretaxas, como aeronaves e equipamentos, ferro-gusa, café não torrado e sucos de frutas, o que indica que o movimento foi determinado por fatores de mercado. No acumulado do ano, as exportações brasileiras aos Estados Unidos registram queda de 12,2%, fruto também do contexto econômico e das condições de oferta e demanda dos mercados. Mesmo com a queda, o país ainda é o segundo maior destino das exportações brasileiras, atrás da China. Os embarques ao país asiático cresceram 8,6% em julho e 19,7% no acumulado do ano, sempre ante igual período de 2025.
Brandão também afirmou que não vê evidências de que a recente escalada das tensões diplomáticas do Brasil com os EUA e a Argentina possa ser mensurada nos dados de comércio exterior. Segundo ele, mudanças nos fluxos comerciais só tendem a ocorrer quando as questões políticas se traduzem em medidas concretas que restrinjam ou incentivem o comércio.
Fonte: Valor Econômico
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