Pontos de estrangulamento e conflito: como a crise de Ormuz está expondo as vulnerabilidades do transporte marítimo global
abr, 29, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202618
Desde o início do conflito, com os bombardeios dos EUA e de Israel contra o Irã no final de fevereiro, até 20 mil marítimos ficaram presos em cerca de 2.000 embarcações no Golfo Pérsico — limitado ao norte pelo Irã — sem conseguir atravessar com segurança a estreita via marítima.
Arsenio Dominguez, secretário-geral da Organização Marítima Internacional (IMO), falou à UN News antes de uma reunião-chave sobre segurança marítima a ser realizada no Conselho de Segurança na segunda-feira. A entrevista é reproduzida a seguir:
UN News: O que é segurança marítima?
Arsenio Dominguez: A segurança marítima abrange a proteção de navios, portos, marítimos e da infraestrutura marítima contra qualquer tipo de ameaça, como pirataria, terrorismo e ataques cibernéticos.
Para países com litoral, inclui ainda uma ampla gama de atividades ilícitas que podem envolver o mar, navios, portos ou zonas costeiras, como tráfico de armas e drogas, comércio ilegal de vida selvagem, roubo de petróleo bruto, tráfico de pessoas e contrabando, além do descarte ilegal de resíduos tóxicos.
UN News: Por que a segurança marítima é tão importante?
Arsenio Dominguez: A segurança marítima é essencial porque protege o comércio global, garante a segurança dos marítimos e mantém as cadeias de suprimento em funcionamento. Sem segurança marítima, o desenvolvimento do setor estagna — e, sem ele, o desenvolvimento sustentável se torna impossível.
UN News: O que a atual crise no Estreito de Ormuz revelou sobre as ameaças ao transporte marítimo e aos marítimos em situações de conflito?
Arsenio Dominguez: Mostra que navios e tripulações estão altamente expostos em zonas de conflito, muitas vezes tornando-se instrumentos de disputas geopolíticas.
O transporte marítimo comercial tem sido injustificadamente alvo de ataques, detenções ou interferências, evidenciando o quão frágil pode ser a liberdade de navegação.
UN News: Quais mecanismos podem realmente proteger os marítimos em conflitos geopolíticos?
Arsenio Dominguez: O compartilhamento de informações é fundamental. A desinformação pode dificultar significativamente o planejamento de viagens baseado em risco.
Operadores e empresas devem garantir avaliações de risco antes de qualquer travessia em áreas de conflito.
A diplomacia e a desescalada são essenciais, enquanto escoltas navais têm eficácia limitada e não representam uma solução sustentável.
UN News: Como as ameaças à segurança marítima evoluíram nos últimos anos?
Arsenio Dominguez: Historicamente, o sequestro do navio de cruzeiro italiano Achille Lauro, em 1985, foi um marco do terrorismo marítimo.
Os ataques de 11 de setembro de 2001 levantaram preocupações sobre a vulnerabilidade dos navios e o uso do transporte marítimo como vetor de atividades terroristas.
Casos de pirataria e roubo armado ganharam destaque no final dos anos 1980, especialmente na Ásia, e se intensificaram com a pirataria somali no início da década de 2010, afetando o Golfo de Áden, o Oceano Índico Ocidental e o Golfo da Guiné.
A necessidade de cooperação, capacitação e troca de informações nunca foi tão importante.
UN News: Quais são os novos desafios e quão vulnerável é o setor?
Arsenio Dominguez: Entre os novos desafios estão ataques cibernéticos a sistemas de navegação e de carga, sabotagem de cabos submarinos e da infraestrutura portuária, ataques com drones a embarcações e vulnerabilidades relacionadas a navios autônomos.
A crescente sofisticação de criminosos que atuam na cadeia logística também representa desafios relevantes ao comércio marítimo global.
UN News: Está mais difícil proteger navios e marítimos?
Arsenio Dominguez: O transporte marítimo internacional e seus trabalhadores têm sido envolvidos em conflitos geopolíticos pelos quais não são responsáveis.
Navios de diferentes bandeiras e tripulações de diversas nacionalidades acabam sendo afetados.
Muitas embarcações civis foram atingidas por projéteis aéreos e marítimos não tripulados, sem capacidade de defesa.
Marítimos civis não são combatentes e jamais deveriam ser alvos.
UN News: Quais outros gargalos marítimos globais podem ser vulneráveis em tempos de conflito?
Arsenio Dominguez: Entre as principais rotas estão:
Canal de Suez
Estreito de Bab el-Mandeb
Estreito de Ormuz
Estreitos de Malaca e Singapura
Estreito de Istambul, de Çanakkale e o Mar de Mármara
Canal do Panamá
Qualquer interrupção nessas regiões pode gerar impactos significativos no comércio global e na segurança alimentar mundial.
UN News: Qual é o papel da ONU?
Arsenio Dominguez: A IMO trabalha com parceiros internacionais para apoiar os países na preparação, resposta e enfrentamento de ameaças à segurança marítima.
Isso inclui a implementação de normas, o compartilhamento de informações, a cooperação regional e reformas legais.
De forma mais ampla, a organização promove a liberdade de navegação por meio do direito internacional, facilita respostas diplomáticas a crises marítimas, defende a segurança dos marítimos e apoia o desenvolvimento de capacidades em países mais vulneráveis.
Fonte: UN News
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