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Por que a Arábia Saudita quer formar uma coalizão para proteger o Mar Vermelho?

jul, 31, 2026 Postado porGabriel Malheiros

Semana202631

A Arábia Saudita anunciou a intenção de formar uma aliança internacional para proteger a navegação no Mar Vermelho dos ataques dos houthis, grupo iemenita apoiado pelo Irã.

Dezenas de países foram convidados a integrar a coalizão, mas a lista de participantes ainda não está fechada, segundo reportagem da Reuters publicada nesta quarta-feira (29).

Em 20 de julho, os houthis anunciaram um bloqueio marítimo contra a Arábia Saudita, afetando os embarques de petróleo que haviam sido redirecionados para o Mar Vermelho após o fechamento do Estreito de Ormuz. Também há relatos de que o grupo pretende cobrar pela passagem de navios pelo Estreito de Bab al-Mandeb, diante da costa do Iêmen.

O agravamento das tensões nessa rota vem pressionando ainda mais os preços internacionais da energia e as cadeias de abastecimento, já afetadas pelas fortes restrições às exportações do Golfo pelo Estreito de Ormuz.

A aliança liderada pela Arábia Saudita deverá ter sede em Riad e pode ser anunciada já nesta quinta-feira, segundo as informações divulgadas até agora.

Veja o que se sabe sobre a iniciativa.

Quais países podem integrar a coalizão?

A Arábia Saudita ainda não divulgou oficialmente a relação de países convidados.

Segundo informações da imprensa, no entanto, receberam convites Estados Unidos, Paquistão, Egito, Turquia, Djibuti, Somália e Sudão, além de vários países europeus, entre eles Alemanha, França e Itália.

Ao menos três países banhados pelo Mar Vermelho — Egito, Djibuti e Sudão — já teriam aceitado participar da aliança, informou o site Al-Monitor, citando autoridades americanas.

De acordo com a publicação, o governo saudita estabeleceu um prazo para que cerca de 50 países confirmem se pretendem aderir à coalizão.

Os Estados Unidos, um dos principais aliados de Riad, ainda não confirmaram sua participação, embora a expectativa seja de que o façam.

O ministro da Defesa saudita, príncipe Khalid bin Salman, reuniu-se em caráter de urgência nesta quarta-feira com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o vice-presidente JD Vance, segundo a imprensa americana.

Khalid bin Salman teria informado a Washington que o reino se opõe a uma nova escalada da guerra travada por Estados Unidos e Israel contra o Irã, mas está preparado para “se defender”, informou o site Axios, citando uma fonte a par da reunião.

O Irã vem atacando instalações militares e outras estruturas americanas nos países do Golfo em resposta aos bombardeios dos Estados Unidos, iniciados em 28 de fevereiro.

O príncipe também teria dito a Vance que a Arábia Saudita tem condições de lidar com os houthis no Iêmen e que, neste momento, não precisa do envolvimento americano.

Na terça-feira, Estados Unidos e Arábia Saudita realizaram ataques conjuntos contra grupos armados apoiados pelo Irã no leste do Iraque. Os dois países afirmaram que a operação foi uma resposta a uma série de ataques com drones contra o território saudita, supostamente coordenados por Teerã.

A acusação levou uma autoridade não identificada do Ministério da Defesa iraniano a afirmar, por meio da emissora estatal Islamic Republic of Iran Broadcasting (IRIB), que responsabilizar o Irã pelos ataques seria um “grave erro de cálculo”.

Por que o Mar Vermelho é tão importante?

O Mar Vermelho fica entre a Arábia Saudita e o Iêmen, de um lado, e Egito, Sudão, Eritreia, Djibuti e Somália, do outro. É uma das rotas marítimas mais importantes do mundo e concentra até 30% do tráfego global de navios.

Grande parte de sua importância se deve ao Estreito de Bab al-Mandeb, passagem que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e ao Oceano Índico. O estreito é uma via fundamental para as exportações de petróleo dos países do Golfo e uma das duas únicas portas de entrada e saída do Mar Vermelho, ao lado do Canal de Suez.

Em seu trecho mais estreito, Bab al-Mandeb tem apenas 29 quilômetros de largura. Por isso, o tráfego fica concentrado em dois canais, um para cada sentido de navegação.

Em 2024, 4,1 bilhões de barris de petróleo bruto e derivados atravessaram o estreito, o equivalente a cerca de 5% do volume mundial.

Com o conflito entre Estados Unidos e Irã e os bloqueios no Estreito de Ormuz, a Arábia Saudita foi obrigada a redirecionar boa parte de suas exportações de petróleo pelo Mar Vermelho, usando o porto de Yanbu. Essa rota, porém, agora também está sob ameaça dos houthis.

Em períodos de normalidade, cerca de 20% do petróleo e do gás natural comercializados no mundo passam pelo Estreito de Ormuz. Com o conflito, até 25% da oferta global desses produtos estaria sendo afetada.

Por que os houthis estão atacando navios no Mar Vermelho?

Apoiados pelo Irã, os houthis tomaram o controle de Sanaa, capital do Iêmen, em 2014.

Desde então, o grupo enfrenta o governo reconhecido internacionalmente e apoiado pela Arábia Saudita, que está instalado na cidade portuária de Áden.

Em 20 de julho, os houthis anunciaram um bloqueio naval contra a Arábia Saudita em resposta a anos de operações militares conduzidas pelo reino. Poucos dias antes, o grupo também havia ameaçado retaliar ataques contra o aeroporto de Sanaa.

Os houthis acusam a liderança saudita de impor há quase 12 anos “um cerco injusto e opressor”, além de “saquear nossos recursos e manter um bloqueio abrangente de nossos portos e aeroportos por terra, mar e ar”.

Desde então, navios de bandeira saudita e instalações petrolíferas do reino foram alvo de ataques. Na terça-feira, o porta-voz dos houthis, Yahya Saree, afirmou no X que o grupo atingiu o petroleiro saudita NCC Ghazal com mísseis balísticos, obrigando a embarcação a mudar de rota.

Em 2023, após o início dos ataques israelenses à Faixa de Gaza, os houthis já haviam provocado fortes interrupções no comércio marítimo global ao atacar navios ligados a Israel que atravessavam Bab al-Mandeb.

Os houthis pretendem cobrar pela passagem de navios?

A Reuters informou nesta quarta-feira que os houthis estudam cobrar taxas das embarcações que utilizam a rota, numa iniciativa semelhante à tentativa do Irã de impor pagamentos no Estreito de Ormuz.

O ministro da Informação do Iêmen, Moammar al-Eryani, confirmou a existência desses relatos e afirmou que a Guarda Revolucionária do Irã, que reivindica o controle da navegação em Ormuz, estaria envolvida no plano.

Segundo ele, a proposta prevê a criação de uma estrutura específica para receber pagamentos de companhias marítimas e embarcações. Ainda não se sabe quando a cobrança poderia começar.

Al-Eryani afirmou que a medida representaria “uma escalada perigosa destinada a transformar um dos corredores marítimos mais estratégicos do mundo em uma fonte permanente de financiamento para as atividades militares e terroristas da milícia”.

A cobrança de tarifas tornou-se um dos pontos de tensão nas negociações de paz entre Estados Unidos e Irã. Teerã já afirmou que o Estreito de Ormuz não voltará a oferecer passagem gratuita a todos os navios internacionais e que algum tipo de cobrança será adotado no futuro.

Pelas normas do direito marítimo internacional, países que margeiam estreitos naturais, como Ormuz e Bab al-Mandeb, não podem cobrar pedágio pela passagem, mesmo quando a rota atravessa integralmente suas águas territoriais. Em algumas situações, porém, é permitida a cobrança por serviços específicos, como atracação e seguros.

Na segunda-feira, o governo do Iêmen sugeriu que os houthis podem estar tentando reproduzir a estratégia iraniana.

“Os houthis querem copiar o modelo iraniano, e isso fecharia dois estreitos fundamentais, as portas de entrada do Golfo e do Mar Vermelho”, afirmou a jornalistas Afrah al-Zouba, indicada para assumir o Ministério das Relações Exteriores do governo iemenita reconhecido internacionalmente.

Como a crise afetou a navegação e os preços do petróleo?

O tráfego no Mar Vermelho caiu para o menor nível em meses, com apenas 11 navios registrados durante o fim de semana, segundo a Reuters.

Antes de 2023, mais de 70 embarcações atravessavam diariamente o Estreito de Bab al-Mandeb.

Os preços do petróleo, que já vinham oscilando fortemente desde o início do conflito de Estados Unidos e Israel com o Irã, em fevereiro, voltaram a subir nesta quarta-feira.

O barril do Brent chegou a US$ 88,09, depois de ter recuado para US$ 72 no início deste mês. Na semana passada, a cotação chegou a superar US$ 100.

Fonte: Al Jazeera

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