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Possível restrição às exportações de diesel dos EUA expõe dependência do Brasil

out, 02, 2026 Postado porGabriel Malheiros

Semana202640

Uma eventual restrição dos Estados Unidos às exportações de diesel teria impacto direto sobre o Brasil, que voltou a depender fortemente do produto americano neste ano. A medida, porém, também poderia trazer efeitos negativos para as próprias refinarias dos EUA.

Em volume diário, o Brasil foi o maior comprador de diesel e gasolina dos Estados Unidos até meados de setembro, à frente de mercados como México, Chile, Reino Unido e Países Baixos, segundo dados da plataforma de análise de commodities Vortexa.

Os números oficiais do governo americano, medidos em valor e disponíveis até julho apenas para o diesel, colocam o Brasil na terceira posição, atrás de Países Baixos e México. As vendas americanas de diesel ao mercado brasileiro somaram US$ 2,9 bilhões no período, maior valor desde 2022, quando chegaram a US$ 4,6 bilhões após a invasão da Ucrânia pela Rússia.

Dados da Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA) também mostram uma forte retomada dos embarques para o Brasil ao longo de 2026. As exportações americanas de diesel de baixo teor de enxofre chegaram a 6,46 milhões de barris em julho, depois de terem praticamente desaparecido em março.

Brasil volta a substituir diesel russo pelo produto dos EUA

Assim como ocorreu após o início da guerra na Ucrânia, o Brasil voltou a substituir parte do diesel russo pelo americano neste ano.

Os Estados Unidos responderam por 36% das importações brasileiras de diesel em janeiro. Essa participação caiu para apenas 1% em março, mas voltou a crescer nos meses seguintes e chegou a 73% em agosto.

A Rússia percorreu o caminho inverso. O país forneceu 90% de todo o diesel importado pelo Brasil em abril, mas sua participação havia recuado para apenas 4% em agosto.

Desde julho, diante das restrições russas às exportações e das interrupções recorrentes em refinarias do país, compradores brasileiros passaram a redirecionar parte das encomendas para outras origens.

Segundo uma instituição financeira citada pelo Valor International, mais de 60% do diesel importado pelo Brasil no ano passado veio da Rússia. Atualmente, essa participação gira em torno de 40% e, em alguns meses recentes, ficou muito abaixo desse patamar, enquanto os Estados Unidos ganharam espaço.

Restrição às exportações de diesel dos EUA poderia sair pela culatra

Na avaliação da Oxford Economics, países e empresas que dependem do diesel americano precisariam de tempo para encontrar fornecedores alternativos caso Washington restringisse os embarques.

Entre as principais opções estão refinarias da Índia e de outros países asiáticos, que também enfrentam limitações relacionadas ao fornecimento de petróleo bruto.

O Brasil já começou a recorrer mais a essas origens. O diesel indiano, que durante boa parte do ano teve participação praticamente nula nas importações brasileiras, respondeu por 20% das compras em agosto.

A mudança, no entanto, implica custos logísticos maiores.

Uma carga enviada dos Estados Unidos para a América Latina costuma levar de uma a duas semanas para chegar ao destino, segundo a Oxford Economics. Partindo da Ásia, o tempo de viagem se aproxima de um mês.

Essa diferença torna os Estados Unidos particularmente competitivos no abastecimento da América Latina não apenas pelo preço, mas também pela proximidade e pelo menor tempo de trânsito.

Ao mesmo tempo, a Oxford avalia que uma proibição poderia produzir efeitos indesejados dentro dos próprios Estados Unidos.

A restrição às exportações poderia provocar uma queda de cerca de 30% nos preços domésticos do diesel em poucas semanas, segundo estimativas da consultoria. O alívio, porém, não seria distribuído de maneira uniforme pelo país.

Além disso, refinarias poderiam ser obrigadas a reduzir a produção, afetando também a oferta de gasolina e combustível de aviação. Nesse cenário, preços mais baixos para o diesel poderiam ser parcialmente compensados por custos maiores de outros combustíveis.

Indústria do petróleo e agronegócio defendem caminhos diferentes

A discussão sobre as exportações de diesel colocou dois setores importantes da economia americana em lados opostos.

A indústria petrolífera se posicionou contra restrições aos embarques, enquanto representantes do agronegócio defenderam medidas para aumentar a disponibilidade de diesel no mercado doméstico, diante do peso do combustível nos custos agrícolas.

O secretário de Energia dos Estados Unidos, Chris Wright, chegou a pedir às empresas do setor que reduzissem voluntariamente suas exportações.

Em 23 de setembro, a Casa Branca negou que estivesse preparando uma proibição de 90 dias. Wright afirmou na ocasião que uma restrição ampla poderia não produzir o efeito desejado e ainda elevar os preços da gasolina e do combustível de aviação.

Segundo fontes citadas pelo Financial Times e reproduzidas pelo Valor, a possibilidade de uma intervenção mais dura ganhou força posteriormente, mas enfrentou resistência das grandes companhias de petróleo.

G7 libera estoques e reduz risco imediato de bloqueio

O cenário voltou a mudar em 2 de outubro. Os países do G7 concordaram em liberar 100 milhões de barris de diesel e petróleo bruto de seus estoques emergenciais ao longo de quatro meses, com uma parcela significativa do diesel prevista para chegar ao mercado já nos primeiros 20 dias.

O grupo também declarou que seus integrantes evitarão impor restrições às exportações de produtos energéticos entre si. A decisão reduziu a pressão imediata para que Washington recorra a uma proibição das exportações americanas de diesel, embora não elimine as preocupações com a oferta global do combustível.

Para o Brasil, a discussão evidencia a vulnerabilidade criada pelas mudanças rápidas nas origens de abastecimento. Depois de ampliar fortemente as compras russas nos últimos anos, o país voltou em 2026 a depender do diesel dos Estados Unidos. Caso essa oferta seja restringida, fornecedores asiáticos podem ganhar espaço, mas com viagens mais longas e custos logísticos mais elevados.

Fonte: Valor International

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