Carnes

Preços do gado atingem recorde histórico enquanto exportadores correm para cumprir cota da China

abr, 09, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202617

O rápido preenchimento da cota de exportação de carne bovina brasileira para a China, em um cenário de oferta limitada de animais para abate, levou o preço do boi gordo a atingir um recorde nominal histórico no Brasil. Na quarta-feira (9), o indicador do boi gordo do Cepea/Esalq, referência do mercado, chegou a R$ 365 por arroba (medida equivalente a 15 quilos), alta de 2,53% no mês. Em 12 meses, a valorização é de 12,5%.

A demanda por gado está elevada no país porque os frigoríficos estão acelerando as exportações para a China, principal cliente do Brasil, enquanto ainda há espaço dentro da cota tarifária reduzida. Como resultado, a indústria espera que a cota seja totalmente preenchida até maio.

Dados da Datamar apontam que o Brasil exportou à China 7.780 TEUs de carne bovina em janeiro de 2026. Esse volume representa uma alta de 4,8% ano-a-ano. O gráfico a seguir, construído com as informação obtidas na plataforma DataLiner, detalha as exportações mensais do produto brasileiro:

Exportação de Carne Bovina à China | Jan 2023 – Jan 2026 | TEUs

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)

Desde o início do ano, a China impôs salvaguardas às importações de carne bovina de diversos fornecedores e estabeleceu uma cota de 1,1 milhão de toneladas importadas do Brasil com tarifa de 12%. Para volumes acima da cota, a alíquota é de 55%.

Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), afirmou na quarta-feira que o Brasil deve preencher totalmente sua cota de exportação de carne bovina para a China até a primeira semana de maio. Durante um encontro do setor realizado pela Scot Consultoria em Ribeirão Preto, Perosa disse que houve aceleração dos embarques em março após o governo Lula decidir não criar um sistema de controle para regular as exportações. Com isso, o volume exportado no primeiro trimestre já ultrapassou 40% da cota de 1,1 milhão de toneladas.

Ele observou, contudo, que as autoridades chinesas ainda não consolidaram os dados do último mês.

Especialistas ouvidos pelo Valor acreditam que os preços tendem a permanecer elevados até que a cota chinesa seja preenchida. “Pode haver volatilidade de preços [com o preenchimento da cota]”, disse Thiago Bernardino, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).

Ele destacou, porém, que a oferta de carne bovina é baixa em países relevantes para o mercado global, como os Estados Unidos, onde o rebanho está no menor nível em décadas. Isso deve impedir uma queda significativa do preço da arroba no mercado internacional.

No Brasil, a oferta de gado também segue restrita por enquanto, pressionando os preços para cima.

Para Alcides Torres, diretor da Scot Consultoria, a cota chinesa foi o principal fator de mudança na dinâmica do mercado, ao acelerar a compra de animais para abate e posterior exportação da carne. Como resultado, os embarques totais atingiram um recorde histórico para o mês de março neste ano.

Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), divulgados na terça-feira (7), mostram que os embarques de carne bovina in natura do Brasil somaram 233.950 toneladas em março, alta de 8,6% na comparação anual. O preço médio também subiu 18,7%, para US$ 5.814,80 por tonelada.

Segundo Perosa, da ABIEC, a cota chinesa é hoje a principal preocupação da indústria de carne bovina, já que as negociações para revisão do volume não avançaram e não há perspectiva de abertura rápida de novos mercados para absorver a carne que seria destinada à China.

Na prática, a cota reduziu o mercado da carne brasileira na China, que havia importado 1,68 milhão de toneladas em 2025.

Perosa afirmou não acreditar na viabilidade de triangulação da carne brasileira para a China via Vietnã — que abriu seu mercado à carne brasileira no ano passado, mas consome mais carne de búfalo — ou via Hong Kong, que importa miúdos do Brasil e os reexporta para a China.

Ele também destacou que o sistema de cotas criado por Pequim provavelmente permanecerá em vigor em 2027 e 2028, o que torna necessário continuar buscando mercados alternativos.

Para Perosa, a justificativa chinesa para impor cotas é política e carece de base técnica, já que a pecuária chinesa não consegue oferecer o produto a preços competitivos.

“As medidas de salvaguarda chinesas afetam todos os países, mas o Brasil sofreu a maior redução [nas exportações]. Eles devem ter pensado que poderiam tirar mais do Brasil porque o impacto não seria tão grande, já que exportamos muitas outras commodities para a China, como soja. Mas o impacto é enorme para o nosso setor, porque a China foi destino de 46% das nossas exportações de carne no ano passado”, afirmou.

Segundo ele, a solução é continuar negociando, focar na abertura de novos mercados com alto consumo de carne e aumentar a produtividade.

Apesar das mudanças na dinâmica das exportações, não há sinais de alteração nos confinamentos de gado em 2026, segundo Alcides Torres, da Scot. “Pela nossa estimativa, devemos ter entre 9 e 10 milhões de cabeças em confinamento este ano, mas isso não está relacionado a essa dinâmica causada pelas tarifas chinesas”, disse.

Ele acrescentou que eventos como a Copa do Mundo da FIFA e as eleições de outubro no Brasil tendem a sustentar o consumo interno, contribuindo para a continuidade dos planos de investimento do setor em terminação intensiva de gado.

Fonte: Valor International

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