Grãos

Produtores dos EUA pressionam China por mais compras agrícolas em encontro Trump-Xi

set, 25, 2026 Postado porGabriel Malheiros

Semana202639

Soja, sorgo e outros produtos agrícolas dos Estados Unidos devem ocupar um espaço importante nas conversas entre o presidente americano, Donald Trump, e o presidente chinês, Xi Jinping, ao lado de temas como terras raras e inteligência artificial. Produtores dos EUA querem que Pequim amplie as compras de soja, grãos e carnes e reduza as tarifas retaliatórias que ainda pesam sobre esses produtos.

A recuperação das vendas para a China interessa especialmente ao setor agrícola americano, que enfrenta os efeitos das tensões comerciais e da alta de custos provocada por diferentes choques globais. Ainda assim, analistas ouvidos pela Reuters não esperam grandes novos acordos nesta rodada de negociações. A avaliação predominante é de que os dois países podem reafirmar metas de compras já negociadas anteriormente, sem necessariamente anunciar compromissos adicionais.

A China conseguiu reduzir sua dependência da oferta americana nos últimos anos ao ampliar as compras de outros fornecedores, especialmente o Brasil. Ao mesmo tempo, a produção crescente na América do Sul deu a Pequim mais margem para reduzir ou até interromper temporariamente as aquisições de soja dos Estados Unidos quando as relações comerciais se deterioram.

“Eles trabalharam muito para diversificar seu portfólio de soja e reduzir a dependência dos Estados Unidos”, afirmou Jim McCormick, diretor de operações da AgMarket.net, à Reuters.

A indústria americana de soja também buscou novos mercados e ampliou o consumo doméstico voltado à produção de biocombustíveis. Mesmo assim, a China continua sendo um destino central: nos últimos anos, respondeu por cerca de metade das exportações americanas da oleaginosa. Antes da primeira passagem de Trump pela Casa Branca, essa participação chegava perto de dois terços.

Tarifa mantém soja americana menos competitiva

As compras chinesas de produtos agrícolas americanos chegaram a ser interrompidas por vários meses no ano passado, após uma nova escalada tarifária entre os dois países. Pequim mantém uma tarifa retaliatória de 10% sobre a soja e outros produtos agrícolas dos Estados Unidos.

Como o imposto não se aplica à soja brasileira nem à de outros fornecedores concorrentes, o produto americano enfrenta dificuldade para competir em preço.

Os dados de movimentações marítimas obtidos pela Datamar mostram aproximadamente 76 milhões de toneladas de soja exportadas até julho. Desse total, cerca de 71,65% foram direcionadas a China.

Confira a seguir um histórico das exportações brasileiras de soja para a China a partir de janeiro de 2022. Os dados são do DataLiner:

Exportações Brasileiras de Soja para a China | Jan 2022 a Jul 2026 | WTMT

Fonte: DataLiner (Clique aqui para solicitar uma demo)

As estatais chinesas COFCO e Sinograin voltaram ao mercado de soja dos Estados Unidos durante o verão do Hemisfério Norte, mesmo com cargas brasileiras mais baratas disponíveis. O movimento ocorreu enquanto Washington e Pequim negociavam outros temas comerciais.

Empresas privadas chinesas, porém, continuam evitando parte das cargas americanas justamente por causa da tarifa.

“O que impede as esmagadoras privadas de entrarem no mercado é essa tarifa final”, afirmou à Reuters um exportador americano de soja, sob condição de anonimato. Segundo ele, a retirada da cobrança deixaria a soja embarcada pelos portos do Noroeste do Pacífico em condições de preço semelhantes às cargas brasileiras.

Entidades como a American Soybean Association e a National Sorghum Producers enviaram cartas a Trump na semana passada pedindo que o governo pressione a China pela retirada das tarifas retaliatórias e por compromissos mais firmes de compra.

Os grupos também querem evitar a retomada das taxas cobradas de navios construídos ou operados por empresas chinesas nos portos americanos. As cobranças, que poderiam chegar a milhões de dólares por escala, foram suspensas pouco depois de entrarem em vigor no ano passado. A suspensão termina em novembro, em plena temporada de colheita nos Estados Unidos.

Compras chinesas apresentam resultados mistos

Os compromissos assumidos pela China para ampliar as compras de produtos agrícolas americanos vêm apresentando resultados distintos desde o encontro entre Trump e Xi em Busan, na Coreia do Sul, no ano passado, e das negociações realizadas em Pequim em maio.

Analistas e traders avaliam que a China está a caminho de cumprir a meta de comprar 25 milhões de toneladas de soja americana por ano. Já o compromisso de importar US$ 17 bilhões anuais em grãos, carnes e outros produtos agrícolas dos Estados Unidos é considerado mais incerto.

Até 10 de setembro, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos havia confirmado quase 10 milhões de toneladas de soja americana vendidas à China da safra atual. Além disso, traders e analistas acreditam que pelo menos metade das cerca de 6 milhões de toneladas registradas como vendas para destinos não identificados tenha sido comprada por empresas chinesas.

Os registros oficiais do USDA mostram que novas vendas continuaram sendo anunciadas em setembro, incluindo operações de 272 mil toneladas em 10 de setembro e outras 111 mil toneladas em 18 de setembro.

A situação é diferente em outras culturas. A China ainda não comprou milho americano da safra atual, enquanto as aquisições de sorgo avançaram menos do que muitos operadores esperavam.

Ao mesmo tempo, compras recentes de volumes expressivos de milho e sorgo do Brasil mostram que a China continua interessada em importar esses produtos, segundo traders.

As interrupções dos embarques pelo Mar Negro provocadas pela guerra entre Rússia e Ucrânia também reduziram a disponibilidade de milho ucraniano para o mercado chinês. Isso pode abrir espaço para outros fornecedores, inclusive os Estados Unidos, embora o tamanho desse eventual redirecionamento ainda seja incerto.

A National Sorghum Producers quer que Washington obtenha da China um compromisso anual “concreto e executável” para a compra de 5 milhões a 7 milhões de toneladas de sorgo americano, acima dos aproximadamente 4 milhões a 5 milhões de toneladas anuais registrados antes da guerra comercial.

Setor quer relação comercial menos sujeita a disputas

No longo prazo, entidades do agronegócio americano defendem que produtos como soja, sorgo e outros grãos sejam menos expostos às oscilações da relação política e comercial entre Washington e Pequim.

Uma das propostas é incluir essas commodities em uma lista de produtos considerados não sensíveis dentro de um conselho bilateral de comércio entre Estados Unidos e China. A ideia seria permitir que as trocas agrícolas continuassem mesmo quando os dois países estivessem negociando assuntos mais delicados.

Um acordo preliminar para criar mecanismos bilaterais de comércio e investimento foi firmado em maio, e novos detalhes podem ser discutidos nas conversas entre Trump e Xi.

Para o mercado internacional de grãos, o resultado dessas negociações tem implicações que vão além dos Estados Unidos. A maior ou menor presença chinesa no mercado americano influencia diretamente a disputa por cargas brasileiras, os diferenciais de preço entre origens e os fluxos marítimos de soja, milho e sorgo entre as Américas e a Ásia.

Fonte: Reuters

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