Redirecionamento de exportações perdidas com tarifaço é processo lento e difícil, apontam especialistas
ago, 01, 2025 Postado porSylvia SchandertSemana202532
A abertura de novos mercados para redirecionar os produtos brasileiros que foram atingidos pela tarifa de 50% dos Estados Unidos é um processo árduo e longo, que não dará frutos no curto prazo, alertam especialistas em comércio exterior. O país pode eventualmente encontrar alguma oportunidade em países da Ásia, excluindo a China, hoje principal mercado dos produtos brasileiros.
Processos de abertura de novos mercados levam meses, às vezes anos, explicam. Sem contar a burocracia para retirada de barreiras não tarifárias, como licenças sanitárias, e também o tempo para que as próprias empresas em cada país firmem contratos de negócio. Tudo isso em um ambiente internacional conturbado, em que as novas tarifas impostas pelos EUA atingem vários países ao mesmo tempo e estimulam todos a buscar novos mercados.
As estimativas sobre qual parcela da pauta brasileira que recebeu a tarifa adicional variam. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) calcula que ela incidirá sobre 35,9% das exportações brasileiras destinadas àquele país. Como em 2024 as exportações para lá somaram US$ 40,3 bilhões, isso significa que aproximadamente US$ 14,5 bilhões estão em perigo pela taxa imposta pelo governo do presidente Donald Trump.
Ex-secretário de comércio exterior e sócio da BMJ Consultoria Welber Barral divide em três grupos os produtos que ficaram de fora da lista de isenção. O primeiro é de alimentos commodities, como café ou carne. Pelas suas características, terão um grau mais alto de sucesso na realocação tanto no restante do mundo como também nos Estados Unidos, mas às custas de preços menores – já que o tarifaço efetivamente reduz a demanda americana e mundial, porque a oferta segue igual.
Um segundo grupo é o de produtos industriais, especialmente maquinário. Neste caso, o destino natural é o mercado latino-americano, em especial América do Sul.
“China, Indonésia e Índia são países com grandes mercados, mas sem a mesma renda dos americanos. Além disso, basicamente poderão comprar commodities, já que o Brasil não consegue competir com produtos industriais nesses mercados – a não ser produtos de nicho”, diz Barral.
Um último grupo é o de subsidiárias brasileiras de empresas americanas. Estas têm as piores perspectivas, acredita. “Muito provavelmente, as matrizes vão buscar outras fábricas no mundo, em países com tarifas mais baixas, para produzir. Qualquer plano de investimento por aqui também ficou no limbo porque ela não consegue saber mais em que medida vai conseguir exportar para si mesma.”
A busca por novos compradores também esbarra na própria demanda mundial e também nas condições de oferta em outras regiões, lembra o vice-presidente do conselho curador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), José Alfredo Graça Lima.
O café, exemplifica, tem uma produção vultosa destinada aos Estados Unidos, e, em sua análise, a demanda já está atendida no resto do mundo. “Se não conseguimos outro mercado que substitua os americanos, o preço do produto será impactado”, diz.
Chefe do Departamento de Análise Econômica da UERJ e pesquisadora associada do FGV Ibre, Lia Valls lembra que a abertura a novos mercados exige cumprir as exigências de qualidade de quem compra, um processo que pode ser demorado.
“Essas adequações não são impossíveis, mas não vão ser feitas de maneira imediata e não será possível para todos os produtos”, diz. “O problema é que cada mercado tem a sua certificação de qualidade, a Europa, por exemplo, tem regras bem rígidas dependendo do produto.”
Máquinas e sapatos vão ter mais dificuldades de adequação, diz Valls. “Algumas máquinas são feitas sob medida para empresas, e os calçados são produzidos com a numeração. Esses produtos, portanto, precisarão passar por um processo mais profundo de adaptação aos novos mercados”, afirma.
Diante de tal quadro, o melhor cenário é torcer para que a lista de exceções ao tarifaço cresça, diz o presidente-executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro. “Pessoalmente, acredito que essa lista vai engrossar. Para alguns produtos, simplesmente não faz sentido ficar de fora”, diz, citando o caso específico do café, produto que não é produzido nos EUA.
No curto prazo, a melhor saída talvez seja apostar em mercados que já compram dos brasileiros, avalia a chefe de pesquisa da Buysidebrazil, Mirella Hirakawa. “A questão é se haverá apetite em absorver essa oferta excedente.”
No caso da carne bovina, 10,3% das exportações brasileiras no primeiro semestre foram destinadas aos EUA. Parte dessa fatia poderia ser absorvida pela China, que comprou mais da metade (51,6%) das vendas brasileiras ao exterior do produtor.
Entre outros produtos que podem caminhar o mesmo trilho, diz Hirakawa, estão o café – a União Europeia compra cerca de 33,8% das exportações brasileiras, contra 16% dos EUA – e etanol. Neste caso, China e Coreia do Sul compram, cada uma, mais que o dobro do que os americanos compram (11,8%) do Brasil.
Carlos Frederico Coelho, pesquisador do BRICS Policy Center e professor de comércio internacional no Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio, diz que o Brasil pode buscar outros países do continente asiático para além da China.
“É difícil não olhar para a Ásia, acho que o continente talvez seja o grande lugar a ser desbravado para a venda de proteínas. A questão é até onde dá para explorar, porque o Brasil já vende proteína para lá. Então, como é que vai vender ainda mais? Vai ter que buscar para além da China”, afirma.
No caso do café, explica, o que pode ajudar a realocação de mercado no médio e longo prazos, é o fato de haver demanda mundial. “O café brasileiro que estará deixando de ir para os EUA vai ser substituído, lá, por outro. Mas isso vai abrir mercado em outros lugares”, afirma.
Confira a seguir um histórico das exportações brasileiras de café aos Estados Unidos a partir de janeiro de 2022. O gráfico foi elaborado com dados do DataLiner:
Exportações Brasileiras de Café aos Estados Unidos – Jan 2022 a Maio de 2025 – TEU
Fonte: DataLiner (Clique aqui para solicitar uma demo)
Por ter uma produção extremamente personalizada, os calçados brasileiros, que também receberam a sobretaxa de exportação de 50% dos Estados Unidos, não podem ser realocados para outros mercados, explica presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abricalçados), Haroldo Ferreira. “Não posso pegar esse sapato e exportar para o Chile ou Europa, por exemplo. Porque a peça foi desenvolvida com demandas específicas desse importador”, argumenta.
Ferreira explica que, de tudo que é exportado no setor, 22% são destinados ao mercado americano. “No ano passado, exportamos US$ 216 milhões, foram 10,3 milhões de pares de calçados”, diz. “Neste primeiro semestre de 2025, nós exportamos 5,8 milhões de pares de calçados. Ou seja, crescemos 13,5%. Enquanto para os outros países, o crescimento foi de 8,8% no mesmo período.”
Já para o setor de tecidos, a realocação será “custosa”, pois há toda uma infraestrutura por traz do mercado internacional, como pontos de contato, centros de distribuição, e redes de representantes comerciais. É o que diz o diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Valente Pimentel.
“Não é o sai daqui e troca para ali, pois não se acha destinos imediatamente”, diz. “O viável é o mercado local, que tem as suas especificidades de demanda.”
Pimentel explica que o mercado americano é relevante para o setor e está entre os três principais destinos da exportação. “Nós esperávamos vender esse ano cerca de R$ 500 milhões, dos quais metade nós já havíamos praticamente feito no primeiro semestre”, conta. “Porém, com o tarifaço, há quase uma inviabilização de tudo.”
Na busca de novos caminhos para a venda da produção, Pimentel considera que a conclusão do acordo União Europeia-Mercosul é o maior interesse do setor atualmente. “O acordo poderá abrir um espaço diferente para comércio, investimentos, compras e aquisições de empresas, e acordos operacionais e tecnológicos”, diz Pimentel.
Fonte: Valor Econômico
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