Setor marítimo se prepara para um El Niño de grandes proporções
jun, 17, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202625
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) declarou oficialmente o desenvolvimento do fenômeno El Niño no Pacífico tropical, emitindo um alerta e advertindo que o evento pode se intensificar até se tornar um dos mais fortes já registrados até o fim do ano — uma perspectiva com implicações diretas e significativas para o transporte marítimo global.
O Centro de Previsão Climática da NOAA estima agora uma probabilidade de 88% de que o fenômeno atinja pelo menos intensidade “forte” entre novembro e janeiro, e uma chance de 63% de que se torne “muito forte”. Caso esse patamar seja alcançado, a NOAA afirma que o evento estaria entre os maiores registrados desde 1950, comparável aos episódios de 1997-98 e 2015-16, que deixaram impactos duradouros nas operações marítimas e nos mercados de frete.
O El Niño de 2023-24 provocou uma severa seca no Canal do Panamá, levando a Autoridade do Canal do Panamá (ACP) a impor restrições de calado e reduzir em até 40% o número diário de trânsitos em relação aos níveis normais. Foram necessários cerca de doze meses para que o fluxo voltasse ao normal após a melhora das condições hídricas.
Neste ano, a ACP já adotou medidas preventivas ao anunciar a redução do calado máximo autorizado nas eclusas neopanamax para 49,5 pés, com vigência a partir de 3 de julho, citando explicitamente o possível desenvolvimento do El Niño como um dos fatores determinantes, mesmo antes da declaração oficial da NOAA. Com a autoridade monitorando a situação semanalmente, a confirmação de um evento forte ou muito forte aumenta significativamente a possibilidade de restrições mais severas durante a estação seca de 2027.
Analistas da Clarksons Research afirmam que o Canal do Panamá já opera sob pressão crescente devido aos níveis recordes das exportações energéticas dos Estados Unidos. Os trânsitos de navios-tanque de derivados atingiram recordes em abril e maio, enquanto o aumento dos embarques de gás liquefeito de petróleo (GLP) e etano intensificou a competição pelos slots disponíveis.
O Panamá não é o único gargalo logístico vulnerável. O aquecimento das águas do Pacífico equatorial provocado pelo El Niño altera a Circulação de Walker, modificando padrões de chuvas e tempestades em toda a bacia do Pacífico e em outras regiões. Historicamente, eventos fortes do fenômeno estão associados à redução das chuvas e ao estresse hídrico em partes da América Central e do Sudeste Asiático, elevando o risco de impactos sobre sistemas logísticos dependentes de rios e canais, incluindo o transporte hidroviário em regiões que dependem das monções para manter os níveis de água.
Por outro lado, o cenário para a temporada de furacões pode ser relativamente mais favorável para a navegação. O El Niño tende a aumentar o cisalhamento dos ventos sobre o Atlântico, o que normalmente reduz a formação e a intensificação de tempestades tropicais. Isso pode representar um fator positivo para armadores que operam nas rotas do Golfo do México e do Caribe durante o segundo semestre de 2026, embora os riscos de interrupções no lado do Pacífico aumentem.
Os segmentos de granéis sólidos e do transporte agrícola também enfrentam riscos específicos. Historicamente, o El Niño está associado a mudanças nos padrões de precipitação em importantes regiões produtoras de grãos e soja, incluindo riscos de seca em partes do Sudeste Asiático e alterações nas monções que afetam a produção agrícola da Índia e da Austrália. Esses fatores influenciam diretamente a demanda por navios graneleiros e os fluxos comerciais ao longo dos próximos doze meses.
Reportagem original de Sam Chambers para a Splash247
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