Automotivo

Stellantis pede medidas para compensar concorrência chinesa no Brasil

abr, 09, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202617

A Stellantis, dona de marcas como Fiat, Jeep e Citroën, afirmou que o Brasil deveria considerar a adoção de mecanismos para compensar a vantagem competitiva das montadoras chinesas, argumentando que as condições atuais ameaçam a sustentabilidade de longo prazo da indústria local.

“Há um gap competitivo com as marcas chinesas no mercado que precisa ser enfrentado”, disse Antonio Filosa, presidente regional da companhia, durante coletiva em São Paulo. “Um mecanismo de equalização para esse tipo de concorrência deve ser desenhado e implementado.”

Segundo Filosa, a competitividade estrutural da China é resultado de duas décadas de política industrial coordenada e investimentos, que criaram um ecossistema produtivo altamente eficiente. Ele também destacou o excesso de capacidade industrial no país, que vem sendo direcionado cada vez mais para mercados externos.

“Com o mercado dos Estados Unidos amplamente fechado e a Europa debatendo o tema, a América do Sul — e o Brasil, em particular — tornou-se um destino prioritário”, afirmou.

Filosa disse que ainda é difícil avaliar o impacto total das tarifas atuais, devido ao grande volume de veículos importados nos últimos meses que ainda estão em trânsito ou em fase de distribuição.

“O que precisa ser feito é medir tecnicamente esse gap e definir como traduzi-lo em um mecanismo de equalização, seja por meio de instrumentos globais existentes ou de uma solução específica — não apenas tarifas”, disse.

A empresa sugere que o governo brasileiro e a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) realizem um estudo técnico para quantificar essa diferença e desenhar uma resposta adequada.

Filosa citou os Estados Unidos como exemplo, destacando que o país impôs tarifas de até 100% sobre veículos elétricos chineses e ajustou exigências de CO₂ para evitar uma contração indesejada do mercado doméstico.

“Na nossa visão, a administração americana fez uma avaliação técnica para entender esse gap de competitividade e definir como proteger a sustentabilidade de sua indústria automotiva”, afirmou.

No Brasil, porém, Filosa classificou as operações como estáveis e em crescimento, em contraste com os desafios enfrentados pelo grupo em outras regiões.

“A América do Sul está indo muito bem. Não é uma fonte de preocupação — pelo contrário, representa uma oportunidade”, disse.

Apesar do bom desempenho em vendas, ele observou que a rentabilidade está pressionada devido a custos elevados e gargalos logísticos, que tornam a produção local mais cara do que em outros mercados.

“O peso dos custos logísticos na estrutura de um veículo produzido no Brasil é maior do que na Europa ou na América do Norte”, afirmou.

Parceria com a Leapmotor

A Stellantis informou que pretende iniciar a produção de veículos da marca chinesa Leapmotor no Brasil no primeiro trimestre de 2027, com dois modelos a serem fabricados na planta de Goiana (PE).

A parceria faz do Brasil o primeiro país fora da China a produzir veículos da Leapmotor. Os modelos — B10 e C10 — utilizarão tecnologia da Stellantis que combina motor a combustão para alimentar um sistema de propulsão elétrica.

“Estamos estruturando a linha de produção e treinando pessoal. É uma parceria técnica forte”, disse Filosa, acrescentando que a operação completa deve estar pronta até o início do próximo ano.

Fundada em 2015 em Hangzhou, a Leapmotor produz veículos elétricos e híbridos. A Stellantis adquiriu cerca de 20% da empresa em 2023 e criou uma joint venture para expandir a marca internacionalmente.

Questionado sobre a aparente contradição entre defender medidas de proteção e se associar a uma montadora chinesa, Filosa afirmou que a estratégia da empresa difere da de exportadores puros.

“Nossa abordagem é diferente. Localizamos a produção e uma grande parte dos componentes, incluindo o motor”, disse.

Oriente Médio

A Stellantis afirmou que está monitorando o conflito no Oriente Médio envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, e alertou que o aumento da inflação e mudanças na demanda podem afetar as operações.

“Há uma volatilidade significativa de mercado em um ambiente geopolítico complexo”, disse Filosa.

As operações na região do Golfo — incluindo Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita — já enfrentam interrupções, com expectativa de queda em volumes de vendas.

“Já estamos antecipando algumas perdas de volume, que são administráveis por enquanto. Mas muito depende da duração da crise geopolítica”, afirmou.

Filosa acrescentou que a inflação segue como um risco relevante, dependendo da persistência da volatilidade global.

“Volatilidade e inflação são riscos reais daqui para frente”, concluiu.

Fonte: Valor International

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