Economia

Tarifaço afeta US$ 11 bi e pode reduzir ainda mais comércio com EUA

jul, 17, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202629

As novas sobretaxas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros colocam o Brasil entre os países com maior nível de restrição para acessar o mercado americano, afetando cerca de 3 mil itens exportados e mais de US$ 11 bilhões em vendas da indústria e do agronegócio brasileiros, de acordo com a Amcham Brasil. Com isso, as exportações do país para os EUA podem chegar à taxação extra de 37,5%, calcula a entidade.

A câmara de comércio afirma ainda que o aumento das tarifas pode aprofundar a retração do comércio bilateral, que já acumula queda de 13% neste ano, e afetar negativamente os investimentos entre os dois países.

Confira a seguir uma comparação das exportações brasileiras para os EUA e importações vindas desse país, em termos do comércio de contêineres entre os dois países.

Exportação e Importação | Brasil x EUA | Jan 2023 – Mai 2026 | TEUs

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)

O tarifaço de 25% entra em vigor na próxima quarta-feira (22) e é resultado de investigação conduzida sob a Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA. Ela permite que o governo americano adote sanções contra países que Washington julgue prejudicar o interesse dos EUA. No caso do Brasil, os EUA alegam que o Pix afeta empresas americanas de meios de pagamento, que o país é conivente com a corrupção. Há também críticas a decisões do Supremo contra big techs americanas.

Para economistas e especialistas em comércio exterior, a nova rodada de tarifas não deve trazer impactos econômicos agregados expressivos ao Brasil, mas tem efeitos setoriais relevantes, o que vai exigir adaptação e diversificação por parte das empresas, apontam especialistas. Eles também recomendam cautela na reação devido aos contornos políticos do tema.

A indústria, que já vinha sofrendo quedas expressivas nas exportações aos EUA, prevê um cenário ainda mais grave. A preocupação é maior para segmentos que antes estavam isentos e agora passarão a ser taxados, como é o caso da celulose solúvel. Também serão penalizados produtos como papéis, painéis de madeira, MDF, MDP e pisos laminados.

Alguns setores importantes não foram afetados, muito em função da ação de seus clientes americanos, que convenceram o governo de que a tarifa sobre eles seria nociva. É o caso do ferro-gusa e de produtos do agronegócio como café, suco de laranja, carne bovina, mel e pescados. A decisão do governo dos EUA de isentar esses segmentos decorre do fato de que, com a taxação dos produtos brasileiros, importantes no abastecimento dos Estados Unidos, haveria risco de aumento da inflação para os americanos.

O governo reagiu. O vice-presidente Geraldo Alckmin disse que o Brasil usará a Lei de Reciprocidade “no momento adequado” e vai apoiar os setores afetados.

Na investigação baseada na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, o governo do país pretendia a abertura de todo o mercado do setor químico, segundo o ministro da Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa. Pleiteou a redução a zero das tarifas dos bens industriais e o acesso ao mercado automotivo dos EUA. Também tentou acordo para impor limites a investimentos em minerais críticos e terras raras por atores “não orientados pelo mercado” e “entidades estrangeiras”.

O governo brasileiro apresentou, em todas as reuniões com as autoridades americanas, os pontos “negociáveis e inegociáveis”, afirmou Elias Rosa. “Nos afastamos, óbvia e evidentemente, de qualquer pretensão que pudesse expor a risco ou à violação aquilo que é interesse nacional, como é o caso do Pix, ou aquilo que poderia representar um grande dano ou prejuízo para o setor industrial brasileiro”, disse.

Alckmin e Rosa participaram de uma entrevista coletiva que contou também com os ministros Mauro Vieira (Relações Exteriores), Dario Durigan (Fazenda) e João Paulo Capobianco (Ambiente), além do presidente do Banco Central, Gabriel Galipolo, e da secretária Nacional de Justiça, Maria Rosa Loula.

O chanceler Mauro Vieira rebateu comentários de Marco Rubio, secretário de Estado americano, sobre o presidente Luis Inácio Lula da Silva. Rubio atribuiu o tarifaço ao comportamento do governo brasileiro em relação aos EUA e afirmou na rede social X que “Lula colocou seu próprio ego à frente de um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso”.

Vieira disse que Rubio ataca “forma grosseira e arrogante um chefe de Estado de um país amigo” e afirmou que o que incomoda o governo americano é o fato de o Brasil “não se curvar” às “pretensões desmedidas e demandas irrazoáveis” durante a investigação com base na Seção 301.

Ao endossar publicamente a decisão do presidente Donald Trump, Rubio sinaliza que a Casa Branca adotará uma postura de pressão máxima para forçar o governo brasileiro a ceder nas frentes fiscal, ambiental, digital e de propriedade intelectual se quiser reabrir o mercado dos EUA para as exportações nacionais.

Fonte: Valor Econômico

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