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Tarifas levam fabricantes brasileiros de dispositivos médicos a diversificar exportações

dez, 18, 2025 Postado porSylvia Schandert

Semana202551

A indústria brasileira de dispositivos médicos acendeu um sinal de alerta em 6 de agosto, quando o governo dos Estados Unidos impôs uma tarifa de 50% sobre as importações provenientes do país.

Antes do aumento, as tarifas giravam em torno de 10%. Ao fim daquele mês, as exportações brasileiras para os EUA haviam caído 30%, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (ABIMO). O choque transformou uma estratégia que já estava em curso em uma prioridade urgente: diversificar os mercados de exportação, com foco em países asiáticos como Japão, China e Índia.

O setor abrange uma ampla gama de produtos, que vai de instrumentos e materiais médico-odontológicos a itens ópticos e equipamentos de eletroterapia, eletromagnéticos e de irradiação. De acordo com a ABIMO, 88,6% dos fabricantes brasileiros são microempresas, 8,9% são pequenas, 2,2% médias e apenas 0,2% são grandes, como multinacionais a exemplo de Stryker, Bayer e Siemens Healthineers, que também operam no Brasil.

Expansão da Maquira

Com faturamento anual de R$ 150 milhões, o Grupo Dental Maquira, sediado em Maringá (PR), é uma das empresas de médio porte do setor. Com 25% de sua receita vinda das exportações, a Maquira estava em processo de expansão das operações nos Estados Unidos, com a criação de uma subsidiária local, quando veio o aumento tarifário.

“Passamos alguns meses andando em círculos. Não era o melhor momento, mas decidimos que, com tarifa ou sem tarifa, seguiríamos em frente”, afirmou Daniel Maia, diretor de exportação e marketing internacional da empresa. “Cortamos o distribuidor para compensar a margem perdida e começamos a vender diretamente nos EUA. Iniciamos em outubro e os resultados têm sido promissores.”

A Maquira fabrica resinas, biomateriais, cimentos e peças ortodônticas. “O Brasil é reconhecido globalmente por sua excelência odontológica e está entre os três maiores produtores mundiais de cimento reparador, resina, alginato e silicone, atrás apenas dos EUA e da China”, disse Maia. A empresa agora está fortalecendo sua presença no Japão, Filipinas, Indonésia, Singapura e Taiwan, entre outros mercados asiáticos.

De janeiro a novembro de 2025, as exportações totais brasileiras de dispositivos médicos alcançaram US$ 1,05 bilhão, queda de 2,27% em relação ao mesmo período de 2024. As exportações para os EUA somaram US$ 266 milhões, alta de 5,71%, impulsionadas pelo bom desempenho nos primeiros sete meses do ano, antes do aumento tarifário.

“Apesar das tarifas mais altas, os EUA continuam sendo nosso principal mercado de exportação”, afirmou Larissa Gomes, gerente de marketing internacional e projetos da ABIMO. O setor não foi incluído na lista de exceções concedidas posteriormente pela administração de Donald Trump, que reverteu parcialmente alguns aumentos tarifários.

“Essas tarifas definitivamente nos impactaram, mas afetaram todo mundo; muitos de nossos concorrentes são empresas globais de outros países”, disse Caetano Biagi, CEO da Alliage, que produz equipamentos de imagem odontológica de alta tecnologia, incluindo tomógrafos para clínicas e consultórios. “Enfrentamos concorrência global de empresas japonesas, finlandesas e coreanas, e elas também estão olhando para mercados como a América Latina para compensar esses desafios.”

Hoje, 40% da produção da Alliage é exportada, tendo os EUA como principal destino, seguidos de perto pela Argentina. Como parte de sua estratégia de crescimento internacional, a empresa adquiriu a japonesa PreXion, especializada em tomógrafos odontológicos, que já tinha operações em San José, na Califórnia.

Caso as tarifas da era Trump persistam, Biagi já tem um plano de contingência. “Nada nos impede de montar nossas próprias máquinas nos EUA. Atualmente, fabricamos apenas em Ribeirão Preto [SP], e 80% dos nossos fornecedores são brasileiros, algo de que nos orgulhamos.” A Alliage também está se expandindo para mercados como Emirados Árabes Unidos e Índia.

Oportunidades na Ásia

“Muitos países asiáticos estão ampliando o acesso a procedimentos cirúrgicos que antes eram restritos a parcelas menores da população”, afirmou Elias Magalhães, CEO da Hpbio, empresa brasileira de médio porte que desenvolve e fabrica produtos para implantes e procedimentos cirúrgicos, incluindo cateteres e sistemas de drenagem.

Ele explicou que a neurocirurgia é uma das especialidades que mais crescem no mundo e que, dado o tamanho da população em muitos países asiáticos, o potencial de vendas é especialmente atraente para as empresas brasileiras.

“Neste ano, as exportações responderam por 40% do nosso faturamento anual. E, entre nossos cinco principais clientes internacionais em volume, três estão na Ásia: Indonésia, Paquistão e China”, disse Flávia Rodrigues, diretora de negócios internacionais da Hpbio.

A empresa assinou recentemente um novo contrato com a Double Medical, sua distribuidora na China. O objetivo é igualar, no mercado chinês, as vendas domésticas de válvulas programáveis, segundo Rodrigues.

Barreiras chinesas

Para isso, a Hpbio precisou passar pelo rigoroso processo técnico e regulatório da China, que inclui inspeções locais, validações laboratoriais e treinamentos clínicos. “Esse foi o primeiro obstáculo. Depois, tivemos que superar o ceticismo em relação à tecnologia brasileira e convencer médicos e profissionais de saúde”, afirmou Magalhães.

Nesses mercados, gigantes globais como a americana Medtronic e a alemã Aesculap (do grupo B. Braun) dominam.

Segundo Gomes, da ABIMO, o ambiente regulatório chinês é altamente protecionista. “Além da dificuldade para obter aprovações, que é extremamente cara, a China não quer novas empresas entrando em seu mercado. Esse é o principal motivo pelo qual não exportamos mais para lá”, disse.

Apesar dos avanços da China em muitos setores, o segmento de dispositivos médicos ainda não está entre os mais desenvolvidos do país, observou Gomes. “Em termos de qualidade tecnológica, Japão, Coreia do Sul e Singapura estão à frente.”

Fonte: Valor Internacional

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