Economia

Brasil e Índia buscam laços mais estreitos após anos de engajamento modesto

fev, 18, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202608

Brasil e Índia são duas potências médias com muito em comum em suas agendas internacionais, mas seus laços econômicos permanecem modestos diante do tamanho de suas economias. É nesse contexto que o presidente Lula chegou ao país nesta quarta-feira (18) para uma visita de quatro dias, que inclui uma visita de Estado, participação em uma cúpula internacional sobre inteligência artificial e o Fórum Empresarial Índia–Brasil 2026. O fórum será organizado pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), em parceria com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e o Ministério das Relações Exteriores.

“Essa viagem ocorre em um momento de profunda transformação da ordem internacional, e ambos os países estão altamente mobilizados diplomaticamente para ampliar sua autonomia estratégica, diversificar parceiros e se adaptar, de forma mais ampla, a um cenário global altamente imprevisível, tendo os Estados Unidos como principal fonte de instabilidade”, afirmou Oliver Stuenkel, pesquisador sênior do Carnegie Endowment for International Peace, em Washington, e professor associado de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV) São Paulo.

“Nenhum dos dois países pretende se afastar dos Estados Unidos, mas tanto em Nova Délhi quanto em Brasília há consenso de que é preciso reduzir exposição e vulnerabilidade em áreas-chave como tecnologia, defesa e comércio.”

A Índia é vista pelo governo brasileiro como parceira-chave na cooperação Sul-Sul, um dos pilares da política externa do Brasil. Ambos defendem o multilateralismo e a reforma das Nações Unidas e atuam juntos em fóruns como Brics e G20.

Os laços políticos entre Brasil e Índia sempre foram fortes, e a aliança foi crucial para moldar a configuração inicial do Brics, afirmou o embaixador José Alfredo Graça Lima, ex-subsecretário-geral para Ásia e Pacífico do Itamaraty e atualmente vice-presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

“No entanto, o comércio entre Brasil e Índia segue um padrão semelhante ao das relações do Brasil com a União Europeia, por exemplo”, disse. “A agricultura indiana é altamente regulada, o que afeta, por exemplo, as importações de frango brasileiro.” Também houve o início de uma disputa envolvendo açúcar.

Dados compilados pela ApexBrasil mostram que a Índia aplica tarifas de importação de 30% sobre frango inteiro e de 100% sobre frango cortado ou preparado. Para açúcar e confeitaria, as tarifas chegam a 110%.

A agência preparou sete projetos setoriais focados na Índia, incluindo um voltado ao aumento das vendas de frango, carne suína e ovos. Os demais têm como alvo algodão, etanol e derivados, rochas naturais e máquinas e equipamentos. Ao todo, foram identificadas 378 oportunidades de negócios em setores como combustíveis minerais, transações de matérias-primas e máquinas e equipamentos de transporte. Cerca de 300 líderes empresariais devem participar do fórum, que contará com a presença de Lula e do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi.

Brasil e Índia negociam a ampliação do acordo Mercosul–Índia. Atualmente, 450 produtos têm tarifas preferenciais. No entanto, dos quase 5.000 códigos da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) exportados pelo Brasil para a Índia, apenas 110 estão incluídos na lista.

Os dois países pretendem elevar o comércio bilateral para US$ 20 bilhões até 2030. No ano passado, as trocas comerciais somaram US$ 15 bilhões, alta de 25,5% em relação ao ano anterior. “É o maior valor da série histórica das relações comerciais entre os dois países, mas ainda muito abaixo do potencial, considerando o tamanho da população e as capacidades de ambas as nações”, afirmou a embaixadora Susan Kleebank, secretária para Ásia e Pacífico do Itamaraty.

A Índia tem população de 1,5 bilhão de pessoas e um produto interno bruto de US$ 4,18 trilhões. É a quarta maior economia do mundo e caminha para se tornar a terceira. O crescimento tem se mantido entre 7% e 8% ao ano. A demanda por alimentos, energia, insumos industriais e soluções de sustentabilidade está em alta, o que explica o interesse do Brasil em ampliar o comércio.

Segundos dados da Datamar, as exportações de contêineres do Brasil para a India totalizaram 122.319 TEUs no total de 2025. Veja a seguir como essa performance se compara a anos anteriores.

Exportações em Contêineres | Brasil – India | Jan 2022 – Dez 2025 

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração) 

As principais exportações brasileiras para a Índia no ano passado foram petróleo bruto, açúcares e melaços, gorduras e óleos vegetais e minério de ferro. As principais importações foram compostos químicos, óleos combustíveis derivados de petróleo, produtos farmacêuticos e inseticidas.

Quando Modi visitou Brasília em julho do ano passado, a parceria entre os dois países foi estruturada em cinco pilares: defesa e segurança; segurança alimentar e nutricional; transição energética e mudança do clima; transformação digital e tecnologias emergentes; e parcerias industriais em quatro setores estratégicos — aeroespacial, farmacêutico, petróleo e gás e minerais críticos.

Entre os acordos a serem assinados durante a visita de Lula está um memorando de entendimento sobre minerais críticos. Também haverá uma declaração Brasil–Índia sobre uma parceria digital para o futuro e o anúncio da ampliação da validade dos vistos de negócios em ambos os países de cinco para dez anos. A Embraer deve formalizar cooperação com a empresa indiana Adani Defence and Aerospace. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, pretende assinar parcerias de produção com empresas indianas nas áreas de produtos farmacêuticos e hospitais inteligentes.

Além de participar do fórum empresarial, Lula deve inaugurar o escritório local da ApexBrasil.

Dois dias da agenda presidencial estão reservados para a cúpula internacional de IA. Brasil e Japão copresidem um grupo de trabalho sobre inteligência artificial segura e confiável. O Brasil também deve sediar um evento intitulado “IA para o Bem de Todos e Perspectivas Brasileiras para o Futuro da Inteligência Artificial”.

Mais de 20 chefes de Estado são esperados na cúpula. A agenda de reuniões bilaterais ainda estava sendo finalizada na semana passada.

Stuenkel observou que a Europa vive um “quase pânico” após ter apostado fortemente em sua parceria com os Estados Unidos, na qual já não pode confiar plenamente. “No Brasil e na Índia nunca foi assim”, disse. “Sempre houve cautela em abraçar integralmente a ordem liderada pelos EUA, além da percepção de que as chamadas regras e normas promovidas na retórica americana foram aplicadas de forma desigual.”

Isso deixou ambos os países mais preparados para a atual instabilidade das relações internacionais. Ideias hoje debatidas na Europa e declarações do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, sobre uma nova ordem “refletem coisas que Índia e Brasil fazem há muito tempo”, afirmou.

Ainda assim, as relações entre Brasil e Índia permanecem “incipientes”. O Brasil tem vulnerabilidades em tecnologia, soberania digital e defesa, o que ajuda a explicar a aproximação com a Índia e a recente visita ao Vietnã, acrescentou. Trata-se de uma adaptação ao novo ambiente.

“Em todo esse debate, o Brasil é visto como um parceiro muito relevante por outras potências médias, e talvez seja útil para o Brasil pensar também nessa linha”, disse. “A União Europeia, a Índia e o Canadá veem o Brasil como um parceiro com quem querem fazer mais.”

Lula permanecerá em Nova Délhi até 22 de fevereiro. No dia seguinte, fará uma visita de Estado à Coreia do Sul.

* As despesas de viagem da repórter foram custeadas pela ApexBrasil.

.Fonte: Valor Econômico

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