Acordo Mercosul-Coreia do Sul enfrenta obstáculos no curto prazo
jun, 24, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202626
Apesar dos esforços do Brasil para diversificar seus parceiros comerciais após as medidas tarifárias impostas pelos Estados Unidos, o acordo de integração econômica entre o Mercosul e a Coreia do Sul continua enfrentando obstáculos significativos e dificilmente avançará no curto prazo. Embora o país asiático tenha sinalizado aos negociadores seu interesse em retomar as conversas, as discussões permanecem paralisadas desde 2019 devido à resistência persistente e à falta de consenso entre os setores produtivos brasileiros.
No início de abril, o governo brasileiro abriu uma consulta pública para colher contribuições sobre possíveis negociações comerciais. No entanto, a administração Lula ainda não sinalizou uma autorização para avançar com o acordo. As contribuições estão sendo consolidadas pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex), que deverá divulgar suas conclusões em breve.
Atualmente, os principais entraves para um acordo com a Coreia do Sul incluem as preocupações da indústria nacional com a entrada de produtos coreanos mais baratos, além das restrições sanitárias impostas pelo país asiático, que limitam as exportações brasileiras de carne.
Segundo integrantes do governo próximos ao presidente Lula, o avanço das negociações dependerá de um processo de convencimento e construção de consenso com o setor privado.
Embora as negociações formais estejam paradas, os dois lados mantêm um diálogo de cooperação voltado à identificação de barreiras e possíveis obstáculos para futuras tratativas. Uma fonte familiarizada com as discussões descreveu esse processo como um “diálogo pré-acordo”, destinado a alinhar posições antes da retomada formal das negociações.
A Coreia do Sul sinalizou aos negociadores que deseja avançar, mas o setor industrial brasileiro continua sendo o principal ponto de impasse. Uma das preocupações é a eventual entrada de produtos manufaturados de baixo custo, o que poderia intensificar a concorrência e pressionar os produtores nacionais.
Outro tema relevante envolve as exportações de carne. A Coreia do Sul mantém rígidos padrões sanitários, que restringem significativamente os embarques sul-americanos. Esses produtos têm grande importância para os países do Mercosul — especialmente Brasil, Argentina e Uruguai — e exigem soluções negociadas entre todas as partes. O bloco avalia que, sem flexibilização ou eliminação dessas barreiras, será difícil avançar nas conversas. Produtores agrícolas sul-coreanos também resistem ao aumento da concorrência por parte do Brasil e de seus parceiros regionais, segundo fontes ouvidas pelo Valor, uma dinâmica semelhante à observada nas negociações entre Mercosul e União Europeia.
Ainda assim, o governo brasileiro acredita que o interesse da Coreia do Sul em intensificar as conversas poderá crescer em razão do cenário global do comércio. Após as medidas tarifárias adotadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, diversos países passaram a buscar maior diversificação de parceiros comerciais. A expectativa é que a Coreia do Sul siga pelo mesmo caminho. “Essa é a expectativa natural”, afirmou uma fonte.
Desde o ano passado, o Mercosul vem trabalhando em acordos de livre comércio com Canadá, Indonésia, México, Vietnã, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Líbano e Índia. No entanto, a assinatura do acordo com a União Europeia e a oposição de Trump ao multilateralismo deram novo impulso às negociações com países que, segundo diplomatas brasileiros, podem ajudar a elevar o Mercosul a uma posição mais competitiva no comércio global.
Mesmo que os obstáculos com a Coreia do Sul sejam superados, os negociadores brasileiros não esperam a conclusão do acordo no curto prazo, sendo mais provável que isso ocorra nos próximos anos. Para 2026, a prioridade do bloco é concluir as negociações com Canadá e Emirados Árabes Unidos.
Constanza Biasutti, gerente de Comércio e Integração Internacional da Confederação Nacional da Indústria (CNI), afirmou que as negociações com países asiáticos exigem maior cautela da indústria. Segundo ela, o elevado nível de competitividade e desenvolvimento industrial dessas economias faz com que o setor produtivo brasileiro encare esse tipo de negociação com maior preocupação.
“Atualmente estamos realizando consultas com os setores industriais. Não há consenso na base para negociações abrangentes com a Coreia do Sul, então a indústria tem muitas preocupações sob esse aspecto”, afirmou.
Biasutti observou que acordos parciais podem ser considerados, já que permitem aos países escolher quais produtos serão incluídos. Já negociações mais amplas enfrentam maior resistência, pois normalmente exigem a liberalização de cerca de 80% do comércio de bens. “Quando olhamos para a Coreia do Sul, essa é a posição que temos recebido nacionalmente em nossas consultas”, disse.
Em relação a um possível acordo com o Japão, as consultas realizadas até agora têm sido mais favoráveis. No entanto, ela ressaltou que as negociações precisariam começar formalmente para que o conteúdo efetivamente colocado à mesa — e as prioridades e preocupações de cada lado — ficassem claros. “Mas eu diria que há uma divergência significativa no ponto de partida entre esses dois países”, acrescentou.
Fonte: Valor International
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