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Grãos

Alta dos fertilizantes reduz vantagem competitiva dos agricultores brasileiros em relação aos rivais dos EUA

jun, 08, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202624

As terras abundantes e de baixo custo sempre ajudaram os agricultores brasileiros a desenvolver grandes propriedades com custos relativamente reduzidos, permitindo ao país conquistar mercados de exportação antes dominados pelos produtores dos Estados Unidos, especialmente após a China diversificar seus fornecedores durante as guerras tarifárias do presidente Donald Trump.

Enquanto a área agrícola dos EUA praticamente não cresceu neste século, a do Brasil aumentou cerca de 50%, transformando o país em uma potência agrícola. No entanto, essa vantagem está sendo colocada à prova à medida que a guerra entre EUA, Israel e Irã provoca uma disparada nos preços dos fertilizantes.

Os dados da Datamar apontam um crescimento de 39,2% no volume de fertilizantes importados que chegaram ao Porto de Itaqui entre janeiro e abril de 2024. Confira a seguir um levantamento dos volumes mensais de importação, segundos as informações disponíveis para consulta na plataforma DataLiner.

Importação de Fertilizantes | Jan 2023 – Abr 2026 | WTMT

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)

Cerca de um terço do fluxo mundial de fertilizantes ficou comprometido no Estreito de Hormuz desde o início do conflito. Enquanto os Estados Unidos produzem grande parte dos fertilizantes que consomem, o Brasil depende fortemente das importações, levando muitos produtores a reduzir suas compras.

Mesmo que o conflito termine imediatamente, especialistas do setor afirmam que os agricultores brasileiros enfrentam dificuldades. Muitos já possuem milhares de hectares com produtividade em queda ou até mesmo prejuízos, além de estarem acumulando dívidas significativas.

Além disso, muitos agricultores americanos possuem solos suficientemente férteis para manter níveis razoáveis de produtividade mesmo reduzindo a aplicação de fertilizantes por uma safra. Poucos produtores brasileiros conseguem fazer o mesmo.

A sazonalidade também pesa. O plantio da safra de verão no Brasil começa em setembro, o que expõe os produtores aos atuais preços elevados dos fertilizantes. Nos Estados Unidos, a maior parte das compras já havia sido realizada antes do início da guerra.

Ao contrário dos concorrentes norte-americanos, os agricultores brasileiros não contam com programas robustos de subsídios ou resgates governamentais.

“A rentabilidade simplesmente não existe”, afirmou Murilo Rabelo Martins Pereira, agricultor em Goiás.

“A expansão é algo que todos estão repensando neste momento.”

Pereira, de 34 anos, cultiva soja, milho e tomate em uma área de 800 hectares. Segundo ele, os custos crescentes de produção tornam muito arriscada qualquer ampliação da propriedade, mesmo diante de propostas para arrendar novas áreas.

“Com certeza não veremos a mesma tendência de crescimento agrícola no Brasil”, afirmou Joana Colussi, economista agrícola da Universidade Purdue e brasileira de origem.

Ela acredita que o crescimento deverá desacelerar, ao menos temporariamente, à medida que os produtores gastam mais com fertilizantes, combustíveis, sementes e outros insumos, reduzindo investimentos em expansão.

Crescimento histórico

O crescimento histórico da produção agrícola brasileira ocorreu em resposta ao aumento da demanda chinesa. Grandes áreas de pastagens foram convertidas para o cultivo de soja e milho, colocando Brasil e Estados Unidos em competição direta.

Em geral, o Brasil saiu na frente. As tarifas impostas por Trump à China em seus dois mandatos levaram Pequim a buscar fornecedores alternativos, e o Brasil foi um dos principais beneficiados.

Em 2000, as vendas de soja dos EUA para a China eram quase o dobro das exportações brasileiras. No fim de 2025, a situação se inverteu, e o Brasil passou a vender quase o dobro de soja para o mercado chinês.

Entretanto, esse crescimento foi baseado na expansão sobre grandes extensões de terras baratas. Parte significativa dessas áreas encontra-se hoje degradada, já que muitos produtores optavam por abrir novas áreas em vez de investir na recuperação da fertilidade do solo.

Terras degradadas e sazonalidade

Com tantas áreas degradadas, a agricultura em larga escala no Brasil exige volumes elevados de fertilizantes, defensivos, sementes geneticamente modificadas e outros insumos biológicos cada vez mais caros.

“Atualmente, agricultores de todo o mundo, inclusive do Brasil, operam com margens extremamente apertadas. Quem possui solos melhores consegue suportar reduções na aplicação de fertilizantes ou até mesmo deixar de aplicá-los por um período. Esses produtores enfrentam choques como este de forma mais eficiente”, afirmou Saswato Das, diretor global de relações corporativas da Syngenta.

Muitos agricultores americanos ainda conseguem obter produtividades razoáveis mesmo deixando de aplicar fertilizantes como potássio e fosfato diamônico (DAP) por uma safra. Milhares fizeram isso neste ano. Em muitas propriedades brasileiras, porém, esses insumos têm efeito limitado a apenas uma safra.

Os agricultores dos EUA estão apenas reduzindo o uso de DAP, cujos preços praticamente dobraram desde o início da guerra com o Irã, segundo Marshall Lee Davis, produtor de amendoim e algodão no estado da Geórgia.

Mesmo aqueles que conseguem adiar aplicações estão preocupados com o impacto dos preços elevados quando iniciarem as compras para a safra da primavera de 2027.

Já os agricultores brasileiros, que ainda precisam atravessar o plantio da safra de verão de 2026 e da segunda safra de 2027, convivem com preços elevados dos fertilizantes desde pouco depois do início do conflito.

“Os agricultores norte-americanos estão em uma situação melhor do que os brasileiros devido à sazonalidade”, afirmou Murphy Campbell, analista da Expana.

Importações de fertilizantes e proteção aos produtores

O Brasil depende fortemente da importação de DAP e de ureia nitrogenada, o fertilizante mais utilizado no mundo.

A Petrobras vem retomando operações em algumas fábricas de fertilizantes que haviam sido desativadas durante o governo de Jair Bolsonaro. A expectativa é atender cerca de 35% da demanda nacional por fertilizantes nitrogenados nos próximos anos.

Apesar da alta dos fertilizantes, os preços recebidos pelos produtores de soja e milho subiram pouco desde o início da guerra, já que as grandes colheitas dos últimos anos aumentaram os estoques globais. Isso reduziu as margens dos agricultores em todo o mundo, especialmente daqueles dependentes de fertilizantes importados.

Até o fim de maio, os produtores brasileiros de soja haviam adquirido cerca de 50% de suas necessidades de fertilizantes para a safra 2026/27, segundo a Expana. Historicamente, mais de 60% dos volumes já estariam contratados nessa época.

A redução da aplicação de fertilizantes tende a resultar em menor produtividade, menores lucros ou até prejuízos para produtores já endividados.

“Eles estão excessivamente alavancados”, afirmou Bruno Fonseca, analista do Rabobank no Brasil, referindo-se aos agricultores brasileiros.

Segundo Campbell, da Expana, os preços dos fertilizantes deverão permanecer elevados por pelo menos seis meses, mesmo que seja firmado um acordo de paz no Oriente Médio.

Para Pereira, o cenário exige decisões difíceis.

“Planejávamos substituir nossas colheitadeiras este ano, que já estão bastante antigas”, disse. “Decidimos não seguir adiante.”

Fonte: Reuters

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