Ambições brasileiras com fazendas de cacau em escala industrial perdem força após queda de preços
mar, 13, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202611
Produtores de cacau no Brasil reduziram drasticamente os planos de novos plantios após uma queda de 70% nos preços do cacau em relação ao pico histórico de 2024, interrompendo o crescimento que investidores esperavam que transformasse o país em um grande fornecedor do principal ingrediente do chocolate.
Com os preços atuais em torno de US$ 3.000 por tonelada métrica, agricultores e analistas disseram à Reuters que cerca de metade dos projetos no Brasil voltados ao cultivo de cacau em escala industrial pode ser cancelada.
Os projetos, concentrados no Nordeste do Brasil, adicionariam ao menos 75 mil hectares de área plantada, segundo estimativa da empresa de serviços de cadeia de suprimentos Czarnikow, o suficiente para atender quase 5% da demanda global por cacau.
“Acho que os planos de expansão do Brasil receberam um grande banho de água fria”, disse Paulo Torres, consultor da indústria do cacau baseado em Londres e produtor no estado da Bahia. O próprio Torres cancelou um plano de ampliar em 30 hectares sua plantação de cacau na Bahia.
Segundo ele, os preços atuais não cobrem os investimentos nem os custos de produção de novos plantios, tornando os projetos brasileiros inviáveis.
Os agricultores e investidores que planejavam as gigantescas fazendas de cacau no Brasil, apoiadas por grandes empresas do setor como Cargill e Barry Callebaut, viam nelas uma solução para anos de escassez de oferta, que levaram os preços a níveis recordes.
As fazendas planejadas também ofereceriam uma alternativa à principal região produtora na África Ocidental. Gana e Costa do Marfim produzem quase 50% do cacau mundial, o que torna o mercado vulnerável a problemas de produção nesses países.
Condições climáticas desfavoráveis, mineração ilegal e doenças reduziram a produção na África Ocidental em 2023 e 2024, fazendo os preços dispararem de uma média de US$ 2.500 por tonelada para mais de US$ 11.000 por tonelada, gerando pânico na indústria.
Comerciantes de cacau correram para garantir suprimentos. O contrabando aumentou fortemente na África, com produtores vendendo grãos além das fronteiras para obter preços mais altos, contornando os sistemas oficiais de compra dos governos. A indústria do chocolate também elevou preços para compensar os custos crescentes.
Desde então, a produção africana se recuperou, e outros países, como o Equador, ampliaram sua produção. Ao mesmo tempo, consumidores reduziram a compra de chocolates mais caros, e pequenos produtores brasileiros não têm conseguido lucrar.
No mês passado, um grupo deles bloqueou uma estrada que leva ao porto de Ilhéus, na Bahia, queimando pneus usados em protesto contra a chegada de cacau importado da África.
Após o protesto, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) suspendeu as importações de cacau provenientes da Costa do Marfim.
Medicamentos para perda de peso também reduziram a demanda, enquanto a indústria diminuiu o tamanho das embalagens e passou a utilizar ingredientes alternativos ao cacau, como manteiga de óleo de palma com sabor artificial, o que reduziu ainda mais a demanda pelos grãos e agravou a queda de preços.
Atrasos e reavaliações
Moises Schmidt, um dos maiores produtores de cacau do Nordeste brasileiro, disse que o preço atual não cobre os investimentos em irrigação e maquinário necessários para o cultivo e o processamento pós-colheita típicos das fazendas da região.
“Se o mercado permanecer abaixo de US$ 5.000 por tonelada, mais de 50% dos projetos desaparecerão”, afirmou.
Schmidt esperava supervisionar até 10 mil hectares de plantações de cacau, área aproximadamente equivalente ao tamanho de Manhattan. Ele preferiu não comentar como a queda de preços afetará seus próprios planos.
Duas fontes — um grande agricultor da região e um executivo de uma fornecedora de equipamentos agrícolas — disseram à Reuters que um grande projeto da empresa de investimentos suíça NewAg Partners, para até 8.900 hectares de plantações de cacau, foi suspenso.
“Neste momento preferimos não comentar”, afirmou o diretor executivo da NewAg, Detlef Schoen.
Outras iniciativas na região também enfrentam incertezas quanto ao futuro.
A Copa Investimentos, gestora de ativos sediada em São Paulo com investimentos em agricultura e silvicultura, também planejava uma fazenda de cacau em escala industrial. No entanto, um de seus sócios, Apolonio Sales, afirmou que a empresa agora está “avaliando” o investimento.
Sales disse ter visitado algumas das novas fazendas de cacau e conversado com traders e empresas de chocolate, mas afirmou que a companhia ainda não chegou a uma conclusão sobre seguir ou não com o projeto.
Crescimento mais lento
Especialistas afirmam que a produção brasileira de cacau ainda pode crescer, mas em ritmo muito mais lento, principalmente como estratégia de diversificação em propriedades onde as árvores seriam cultivadas ao lado de outras culturas agrícolas.
As grandes fazendas brasileiras planejavam, no entanto, promover um crescimento rápido e expressivo da produção. Uma área adicional de 75 mil hectares irrigados poderia gerar 225 mil toneladas de cacau em quatro anos, o equivalente a 4,5% da produção global.
“Se alguma grande fazenda tinha planos para 400 ou 500 hectares, agora provavelmente plantará 80 ou 100, apenas para começar a aprender sobre a cultura”, disse Emerson Silva, executivo de vendas da fabricante de sistemas de irrigação Netafim.
Dados da Datamar mostram um mercado crescente nas exportações brasileiras de favas de cacau. O volume embarcado em janeiro de 2026 representa um crescimento de 100% comparado ao mesmo mês do ano anterior. Apesar desse crescimento, os produtos brasileiros de maior expressão são o pó de cacau (34% de fatia de mercado) e manteigas e óleos de cacau (31%).
Confira a seguir uma recapitulação histórica dos embarques brasileiros de favas de cacau desde janeiro de 2023. Os dados são da plataforma DataLiner da Datamar:
Exportação de Favas de Cacau | Jan 2023 – Jan 2026 | TEUs
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
A cooperativa brasileira Cooabriel, que anunciou no ano passado uma iniciativa para o cacau em parceria com a Cargill, afirmou que continuará desenvolvendo seu projeto em pequena escala.
Projetos do governo do estado de São Paulo, que incluem o uso de cacaueiros para reflorestamento de áreas degradadas, também seguirão adiante, segundo o coordenador Ricardo Pereira.
“Em algumas áreas, já temos mudas praticamente prontas para ir ao campo”, afirmou ele, acrescentando que, como em qualquer mercado de commodities, os preços do cacau eventualmente voltarão a subir.
Fonte: Reuters
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