Brasil perde terreno para os EUA nas vendas de soja para a China
jun, 24, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202626
Pouco mais de um mês após a cúpula entre o presidente chinês Xi Jinping e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, os EUA anunciaram que compradores chineses realizaram as primeiras aquisições de soja da nova safra americana, um negócio aguardado com expectativa pelos agricultores do país. O movimento marca o retorno pleno dos Estados Unidos à disputa com o Brasil pelo abastecimento do mercado chinês e pode alterar a dinâmica de preços da soja no Brasil.
Na semana passada, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) anunciou que o país vendeu 132 mil toneladas de soja da safra 2026/27 para a China. A colheita da nova safra americana está prevista para começar em setembro. A agência também informou que exportadores americanos venderam outras 384 mil toneladas para destinos não revelados, que muitos analistas acreditam também terem como destino a China.
Analistas veem essas compras como consequência da cúpula realizada em maio. Na ocasião, Trump afirmou que a China havia se comprometido a importar pelo menos US$ 17 bilhões em produtos agrícolas americanos por ano em 2026, 2027 e 2028, embora Pequim não tenha comentado publicamente o assunto. Esses valores não incluiriam os 25 milhões de toneladas de soja que, segundo uma declaração do governo americano de outubro de 2025, a China havia sinalizado que importaria.
Segundo dados de movimentação de cargas marítimas da Datamar, as exportações de soja brasileira para a China caíram quase 7% no acumulado de janeiro a abril, comparado ao mesmo período do ano anterior. Confira abaixo um levantamento dos volumes registrados nos últimos anos:
Exportação de Soja à China | Jan-Abr | 2022 – 2026 | WTMT
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
Ronaldo Fernandes, analista da consultoria Royal Rural, acredita que as novas compras chinesas não estão relacionadas a qualquer suposto compromisso com os Estados Unidos e, sim, refletem a estratégia tradicional da China nas negociações envolvendo a soja. Segundo ele, o país busca pressionar para baixo os preços da soja brasileira.
“Os compradores chineses afirmam que a soja brasileira está cara, mas esse não é o verdadeiro motivo. Nossa soja está sendo negociada a US$ 530 por tonelada, enquanto a soja americana custa US$ 545 por tonelada. A China está usando esse argumento para pressionar os preços no Brasil antes de voltar a comprar nossa safra”, afirmou Fernandes.
Segundo ele, a decisão da China de comprar mais soja dos Estados Unidos pode produzir o efeito desejado. Uma demanda mais forte pela soja americana tende a elevar as cotações na Bolsa de Chicago, o que normalmente reduz os prêmios de exportação nos portos brasileiros. Como resultado, os preços internos da soja no Brasil tendem a cair.
Por enquanto, porém, a forte demanda deverá manter os preços brasileiros sustentados. Já os preços internacionais devem permanecer sob pressão devido às expectativas de uma grande safra nos Estados Unidos e ao interesse moderado dos compradores, que aguardam novas aquisições chinesas.
Na segunda-feira, o índice Cepea/Esalq da soja recuou 0,02%, para R$ 132,81 por saca de 60 quilos. Na Bolsa de Chicago, os contratos futuros da soja para julho caíram 0,62%, para US$ 11,1575 por bushel.
De acordo com estimativas da Royal Rural, o Brasil deverá exportar 15 milhões de toneladas de soja apenas em junho, incluindo 10,7 milhões de toneladas destinadas à China. Para o próximo mês, já estão programados embarques de 4 milhões de toneladas, sendo que cerca da metade deverá seguir para o mercado chinês.
As exportações brasileiras de soja normalmente desaceleram a partir de julho. No entanto, após colheitas recordes em cada uma das duas últimas temporadas, os volumes exportados deverão permanecer acima da média dos últimos cinco anos para o mês, de 9,8 milhões de toneladas, segundo a Royal Rural.
As exportações americanas de soja para a China até junho, por sua vez, devem se aproximar de 12 milhões de toneladas, em linha com as expectativas da Casa Branca para a temporada comercial 2025/26.
Os embarques dos EUA poderão alcançar 25 milhões de toneladas na temporada 2026/27, como espera Trump, desde que as condições permaneçam favoráveis à China, afirmou Ale Delara, diretor da Delara Agronegócios.
“Há uma boa chance de essas compras se concretizarem, mas não durante a janela ideal de comercialização para os exportadores americanos, que vai de setembro a dezembro”, disse.
Na avaliação dele, a China primeiro aguardará sinais de expansão da área plantada de soja nos Estados Unidos. Isso indicaria maior produção e estoques mais elevados, pressionando os preços para baixo.
“Só então os chineses direcionariam uma parcela maior da demanda para os fornecedores americanos”, afirmou. Mesmo que o Brasil perca participação de mercado, Delara não espera uma queda acentuada nos prêmios de exportação da soja brasileira.
Fonte: Valor International
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