Regras de Comércio

Conflito com Trump aumenta urgência de acordo Canadá-Mercosul

ago, 24, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202635

A guerra comercial entre o Canadá e os Estados Unidos pode, indiretamente, dar um impulso à conclusão de um acordo de livre comércio entre o Canadá e o Mercosul, dependendo agora dos movimentos em Ottawa e Brasília.

Mais do que uma oportunidade comercial, o acordo com o Mercosul torna-se mais estratégico e mais urgente para o Canadá, à medida que o confronto com o vizinho americano se aprofunda.

A conclusão do acordo Mercosul-Canadá talvez possa ser acelerada, mas dependerá de concessões dos dois lados no acesso aos mercados agrícolas, avalia fonte do bloco do cone sul. Diz que isso depende mais dos canadenses.

Nem tudo está negociado. Os canadenses tem resistências agrícolas, mas também tem setores interessados em exportações agrícolas para o Mercosul.

O governo de Carney precisará superar a resistência do protecionismo agrícola canadense, que utiliza argumentos semelhantes aos dos europeus contra os produtos do Mercosul, sobretudo à entrada da carne bovina.

Além disso, é preciso ver como ele pode fazer concessões num ambiente politicamente mais complicado para atravessar a nova fase de tensões com a administração Trump.

Uma das condições “inaceitáveis” colocadas por Washington para fazer um acordo com o Canadá restringia justamente a capacidade do Canadá de firmar acordos comerciais com outros países, segundo o primeiro-ministro.

Conforme a imprensa canadense, Carney se deparou com uma proposta de acordo por Washington que, de repente, havia se transformado em um ataque à soberania canadense — uma tentativa de anexação psicológica que poderia ter transformado o Canadá em uma espécie de Bielorrússia norte-americana.

Tudo isso foi visto também no contexto das repetidas provocações de Trump sobre o “51º estado” desde que retornou à Casa Branca.

Além disso, os canadenses não ignoram o que diz a Estratégia de Segurança Nacional de Trump sobre os vizinhos dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental: “Queremos que outras nações nos vejam como seu parceiro de primeira escolha e vamos (por diversos meios) desencorajar sua colaboração com outros”.

Em editorial, o jornal The Globe and Mail apoia a decisão de Carney de romper as negociações com a administração Trump: “De forma irritante, os EUA tentaram restringir a capacidade do Canadá de firmar outros acordos comerciais. Isso teria reduzido o Canadá a um estado vassalo de segunda classe: abriria mão do livre acesso a outros mercados, ao mesmo tempo em que teria acesso limitado aos mercados daquele que seria seu senhor de fato”.

O Canadá está intimamente integrado aos Estados Unidos, de quem depende para sua defesa, e fortemente dependente do comércio com seu vizinho e superpotência. Mas a mensagem do rompimento de negociações é de que recusa submissão.

“Você está em guerra quando é atacado. Fomos atacados”, afirmou o primeiro-ministro Carney ao explicar aos canadenses o estado da relação com os Estados Unidos, depois de decidir romper as negociações de um acordo que, segundo ele, Washington tentava usar para minar a soberania canadense com exigências de última hora.

Vale lembrar que, em discurso em Davos, na Suíça, em janeiro, Mark Carney não hesitou em falar de uma nova era, na qual os Estados Unidos não seriam mais os garantidores da estabilidade e em que potências médias, como o Canadá, teriam de se unir para sobreviver. O discurso, bem recebido globalmente, irritou Trump.

“Quando negociamos apenas bilateralmente com uma potência hegemônica, negociamos a partir da fraqueza. Aceitamos o que nos é oferecido”, disse ele, referindo-se aos Estados Unidos de Trump. “Isso não é soberania. É a simulação de soberania enquanto se aceita a subordinação.”

O governo canadense estabeleceu como objetivo dobrar suas exportações para mercados fora dos Estados Unidos na próxima década. Para isso, Carney tem se empenhado em construir acordos de livre comércio com diferentes países.

“Construir em casa e diversificar o comércio no exterior não é nosso plano B. Tem sido, desde o começo, nosso plano A”, disse ele no fim de semana.

Para analistas canadenses, essa mudança de rumo assume agora uma nova urgência para os produtores canadenses.

Além de limitar concessões para o setor automotivo, negociadores americanos pressionaram para reverter esforços do Canadá para promover conteúdo em francês, uma das línguas oficiais do Canadá, nos serviços de streaming online, subsídios para setores como o editorial e a produção cinematográfica e até mesmo a obrigatoriedade de rotulagem em francês e em inglês, nas embalagens.

O governo canadense diz que agora prepara uma retaliação “dólar por dólar” em resposta às novas tarifas americanas de 50% sobre US$ 28 bilhões em exportações canadenses.

Para o jornal Toronto Star, Mark Carney se consolida como líder da resistência internacional às políticas de Trump. Isso tem um preço, como os quase 60 mil empregos que poderão ser perdidos. Mas, para os canadenses, a reação é importante no longo prazo.

Carney não descarta o uso de todas as ferramentas disponíveis em uma guerra comercial. “O Canadá alimenta o crescimento americano, fornecendo 99% de suas importações de gás natural, 85% de suas importações de eletricidade e 60% de suas importações de petróleo bruto”, disse ele. “Não acho que eles queiram que paremos de enviar qualquer parte dessa energia.”

Para autoridades canadenses, o que está claro é que não se pode confiar em Trump.

Fonte: Valor Econômico

Sharing is caring!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


O período de verificação do reCAPTCHA expirou. Por favor, recarregue a página.