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Controles de exportação da China ajudam a encarecer fertilizantes

nov, 04, 2025 Postado porSylvia Schandert

Semana202546

Os preços dos fertilizantes estão subindo novamente devido às tensões geopolíticas em torno dos principais produtores, China e Rússia. As restrições de exportação impostas por Pequim agravam as limitações de oferta, o que pode pressionar os preços dos alimentos para cima.

Os preços internacionais do fosfato diamônico (DAP), um fertilizante nitrogenado e fosfatado, atingiram o maior patamar em três anos, chegando a US$ 795 por tonelada em agosto. Em setembro, caíram para US$ 780, mas ainda registram alta de 34% em relação ao início do ano.

O mercado de fertilizantes é altamente exposto a riscos geopolíticos. Os preços dispararam após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, devido à incerteza sobre o fornecimento russo, o maior exportador mundial.

O índice de preços de fertilizantes do Banco Mundial quase triplicou em abril de 2022, atingindo 293, tendo como base o valor de 100 em 2010. O índice estabilizou-se posteriormente, oscilando entre 110 e 120 em 2024, mas vem subindo em ritmo mais acelerado desde o início deste ano.

Embora os preços das commodities estejam caindo no geral, os fertilizantes estão na contramão dessa tendência, afirmou John Baffes, economista sênior de agricultura do Banco Mundial, que vê uma combinação de fatores impulsionando os aumentos, incluindo maior demanda, restrições à exportação e tarifas.

A produção de fertilizantes é fortemente concentrada em um pequeno número de países. A China responde por 46% da produção global de fosfato natural, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). China, Marrocos, Estados Unidos e Rússia, juntos, produzem mais de 70%.

O Canadá é a principal fonte de potássio, mas a Rússia e Belarus — que ocupam o segundo e o terceiro lugar, respectivamente — produzem juntas um terço do total, superando o Canadá. Somando-se a China, esse número sobe para quase metade.

Em outubro, a China suspendeu as exportações de ureia, um fertilizante nitrogenado, juntamente com o fosfato diamônico. Após as exportações chinesas de fertilizantes nitrogenados despencarem mais de 90% em 2024, a oferta parecia estar se recuperando. Mas Pequim voltou a impor restrições, abalando o mercado internacional de maneira semelhante aos controles de exportação de elementos de terras raras.

A China “pode estar priorizando o fornecimento interno para expandir a produção agrícola”, disse Yukiko Nozaki, analista do Instituto de Estudos Estratégicos Globais da Mitsui & Co. A medida é vista como uma resposta às tarifas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, bem como às disputas geopolíticas entre Estados Unidos e China de forma mais ampla.

A China é a maior importadora mundial de soja, mas as importações dos Estados Unidos parecem ter caído a zero em setembro. Embora um acordo tenha sido alcançado na cúpula Estados Unidos-China na semana passada para retomar as importações, Pequim pode redirecionar seus fertilizantes para impulsionar a produção doméstica de outros produtos agrícolas.

O Banco Mundial afirmou que a redução das exportações de fosfato da China reflete “restrições governamentais destinadas a manter os preços internos baixos e garantir maior disponibilidade de fosfatos para baterias de fosfato de ferro-lítio (LFP) usadas em veículos elétricos”.

A União Europeia endureceu as sanções econômicas contra Rússia e Belarus em julho e impôs novas tarifas sobre as importações de fertilizantes de ambos os países, que aumentarão gradualmente até 2028. A União Europeia espera reduzir sua dependência de fertilizantes da Rússia, que responde por 25% das importações do bloco, e de Belarus.

Os agricultores europeus não terão outra opção senão comprar de outros países. Mas Baffes, do Banco Mundial, disse que, para o potássio em particular, existem poucas fontes além de Rússia e Belarus, e que a troca de fornecedores seria difícil e provavelmente levaria a grandes aumentos de custos.

Essa mudança repentina também poderia perturbar o equilíbrio entre oferta e demanda e pressionar os preços internacionais para cima.

Os efeitos do aumento dos preços dos fertilizantes e das restrições de oferta serão sentidos nos alimentos por meio dos custos de produção.

Nos Estados Unidos, os fertilizantes representam 18% dos custos de produção da soja e cerca de 35% do trigo e do milho, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Nos países em desenvolvimento, o impacto da alta dos preços dos fertilizantes será ainda mais significativo.

Durante a alta dos preços que se seguiu à invasão da Ucrânia por Moscou, houve uma pressão no Sul da Ásia e na África para reduzir a quantidade de fertilizantes utilizada. Isso pode causar menores rendimentos se não for feito em conjunto com mudanças nos métodos de cultivo.

A Associação Internacional de Fertilizantes estima que uma redução de 5% no uso de fertilizantes nitrogenados resulta em uma queda de 3,1% na produção de trigo e de 1,5% na produção de arroz.

Para o trigo e o milho, as variações nos preços dos fertilizantes e da energia, bem como nas taxas de juros, refletem-se nos preços internacionais com uma defasagem de 12 a 16 meses, segundo o Banco Mundial.

Fonte: Valor Econômico

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