Dados de julho do DataLiner mostram trajetórias distintas para importações e exportações
set, 03, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202637
Dados recém-divulgados pela equipe de Business Intelligence da Datamar apontam que, no acumulado dos sete primeiros meses de 2026, as importações brasileiras via contêineres cresceram 9,2% em relação ao mesmo período do ano passado. Considerando apenas julho, as importações avançaram 13,3% na comparação anual.
Confira abaixo a evolução das importações brasileiras via contêineres entre janeiro e julho de 2022 a 2026. Os dados são do DataLiner:
Importações Brasileiras via Contêineres | Jan-Jul 2022 a 2026 | TEU
Fonte: DataLiner. (Clique aqui para solicitar uma demonstração)
A categoria de veículos e autopeças liderou as importações brasileiras no acumulado entre janeiro e julho, com volume 41,4% superior ao registrado no mesmo período do ano passado. Em seguida vieram plásticos (+8,3%) e reatores, caldeiras e máquinas (+3,3%).
A China continuou sendo a principal origem das mercadorias recebidas pelo Brasil nos sete primeiros meses de 2026, com volume 21,6% superior ao do mesmo período do ano passado. Em seguida vieram os Estados Unidos, cujos embarques recuaram 32,3%, e a Índia, com crescimento de 4,8%.
O aumento das importações conteinerizadas foi superior ao observado no comércio exterior brasileiro medido em valor. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as importações brasileiras, considerando todos os modais, cresceram 5,5% em valor entre janeiro e julho, para US$ 169,51 bilhões. A indústria de transformação respondeu por US$ 158 bilhões desse total, com avanço de 6,1%.
Embora as métricas em TEUs e em valor tenham escopos diferentes e não sejam diretamente comparáveis, os resultados mostram que a movimentação conteinerizada apresentou crescimento proporcionalmente maior do que o valor total das importações brasileiras. A expansão de veículos e autopeças, assim como o crescimento das cargas procedentes da China acima da média geral, indica uma participação cada vez maior do país asiático no abastecimento da indústria e do mercado brasileiro.
Em julho, esse descompasso também foi observado. Enquanto as importações via contêineres avançaram 13,3%, as compras externas brasileiras cresceram 7,6% em valor, para US$ 27,05 bilhões. Somente as importações de produtos da indústria de transformação aumentaram 6,9% e somaram US$ 25,09 bilhões no mês.
O resultado sugere que a demanda por transporte marítimo conteinerizado permaneceu aquecida no início do segundo semestre. Uma possível explicação para a diferença entre o crescimento em TEUs e em valor é a mudança na composição da pauta, com maior presença de componentes e mercadorias industriais. Entretanto, seria necessário analisar especificamente o valor das cargas transportadas em contêineres para identificar uma eventual redução do valor médio por TEU.
Exportações crescem no acumulado, mas recuam em julho
Nas exportações, os dados acumulados entre janeiro e julho apontam alta de 4,5% nos embarques em relação aos primeiros sete meses de 2025. Entretanto, na comparação entre julho de 2026 e o mesmo mês do ano passado, houve queda de 4,1%.
Confira a seguir a evolução das exportações brasileiras via contêineres entre janeiro e julho de 2022 a 2026. Os dados são do DataLiner:
Exportações Brasileiras via Contêineres | Jan-Jul 2022 a 2026 | TEU
Fonte: DataLiner. (Clique aqui para solicitar uma demonstração)
A China continuou sendo o principal destino das exportações brasileiras via contêineres, com volume 15,4% superior ao registrado no mesmo período de 2025. Em seguida apareceram os Estados Unidos, com retração de 20,9%, e o México, com aumento de 5,2%.
O crescimento de 4,5% das exportações conteinerizadas ficou abaixo da alta de 10,5% registrada pelo MDIC no valor total das exportações brasileiras entre janeiro e julho. Essa diferença pode ser explicada, em parte, pela composição da pauta exportadora. No período, as vendas da indústria extrativa cresceram 21,3%, enquanto as da agropecuária avançaram 9,2%. Uma parcela expressiva dessas cargas, como minério de ferro, petróleo, soja e milho, é transportada em navios graneleiros e petroleiros, sem utilização de contêineres.
O comportamento dos diferentes modais ficou mais evidente em julho. Enquanto as exportações brasileiras totais cresceram 6,2% em valor, impulsionadas principalmente pela agropecuária e pela indústria extrativa, os embarques realizados em contêineres recuaram 4,1%. Portanto, os indicadores não são contraditórios: o comércio exterior brasileiro continuou crescendo, mas parte relevante desse desempenho foi sustentada por commodities transportadas a granel, enquanto alguns produtos tipicamente conteinerizados perderam força.
A carne bovina foi uma das principais responsáveis pela retração das exportações conteinerizadas em julho. O volume passou de 20.012 TEUs, em julho de 2025, para 12.268 TEUs no mesmo mês de 2026, queda de 38,7%. Os embarques destinados à China recuaram 81,4% na mesma comparação.
A redução pode estar relacionada à proximidade do esgotamento da cota anual de 1,106 milhão de toneladas estabelecida pela China para a carne bovina brasileira em 2026. Quando o limite é atingido, a alíquota aduaneira aplicável à carne brasileira sobe de 12% para 67%, considerando a tarifa adicional de salvaguarda.
Em 21 de julho, as importações chinesas de carne bovina brasileira já haviam atingido 80% da cota anual, segundo comunicado do Ministério do Comércio da China. Pelas regras estabelecidas, a partir do terceiro dia após o preenchimento do limite, as cargas passam a pagar uma tarifa adicional de 55% sobre a alíquota vigente.
Como a cobrança considera o momento da entrada da mercadoria na China, e não a data de saída do Brasil, o setor exportador precisa levar em conta o período de trânsito marítimo. Esse risco pode ter estimulado uma redução antecipada dos embarques, evitando que cargas enviadas antes do esgotamento da cota chegassem ao país depois do preenchimento do limite.
A medida de salvaguarda foi adotada pelo governo chinês para proteger a indústria pecuária local e permanecerá vigente até o fim de 2028. As cotas serão ampliadas gradualmente: para o Brasil, o limite passará de 1,106 milhão de toneladas em 2026 para 1,128 milhão em 2027 e 1,151 milhão em 2028, segundo relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
Argentina e Uruguai
Segundo o DataLiner, as importações argentinas via contêineres recuaram 5,4% entre janeiro e julho de 2026, enquanto as exportações conteinerizadas cresceram 21,8% na comparação com o mesmo período de 2025.
No Uruguai, as exportações via contêineres avançaram 11,1% nos sete primeiros meses do ano, enquanto as importações cresceram 2% na comparação anual.
Tendências e perspectivas para o Brasil
Para os próximos meses, a tendência é de que as importações brasileiras via contêineres permaneçam em patamar elevado, embora possam perder força diante do aumento dos fretes marítimos.
Segundo a Platts, os fretes entre o Norte da Ásia e a Costa Leste da América do Sul chegaram a US$ 8.500 por FEU na semana encerrada em 28 de agosto, aumento de US$ 600 na comparação semanal. O avanço foi provocado principalmente por congestionamentos nos portos asiáticos, atrasos de navios, omissões de escalas e escassez de contêineres vazios, fatores que reduziram a capacidade disponível.
Os armadores buscavam aplicar reajustes de aproximadamente US$ 1.000 por FEU, e a expectativa era de que os fretes permanecessem elevados em setembro. Entretanto, a entrada de capacidade adicional da ZIM e da Hapag-Lloyd, prevista para meados do mês, poderá pressionar os preços para baixo, especialmente diante da demanda enfraquecida e da resistência dos clientes aos novos aumentos.
Nas exportações, o cenário tornou-se mais desafiador com as novas tarifas impostas pelos Estados Unidos. Por determinação do governo de Donald Trump, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) aplicou uma tarifa adicional de 25% sobre os produtos brasileiros não incluídos nas listas de exceção. Entre os itens isentos estão carne bovina, suco de laranja, aeronaves e determinados produtos energéticos. A medida entrou em vigor em 22 de julho.
Em 24 de julho, uma segunda sobretaxa, de 12,5%, passou a atingir produtos brasileiros não isentos. Essa medida foi adotada no âmbito de uma investigação norte-americana sobre a suposta falha de diferentes parceiros comerciais, entre eles o Brasil, em proibir e fiscalizar adequadamente a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. Nos produtos alcançados simultaneamente pelas duas medidas, e que não constam das listas de exceção, a carga tarifária adicional pode chegar a 37,5%. As decisões estão detalhadas nos comunicados do USTR sobre o Brasil e sobre a investigação relacionada ao trabalho forçado.
Como as medidas entraram em vigor somente no fim de julho, seus reflexos deverão aparecer de maneira mais clara nos dados a partir de agosto, por meio da possível redução ou postergação de pedidos, da perda de competitividade dos produtos brasileiros e do redirecionamento de cargas para outros mercados. O impacto, entretanto, será desigual entre os setores devido às diferentes listas de produtos isentos.
Outra fonte de pressão é a restrição da União Europeia à entrada de determinados produtos brasileiros de origem animal, em vigor desde 3 de setembro. A medida atinge, entre outros itens, carne bovina e de aves, ovos, produtos da aquicultura, mel e tripas.
Segundo o Regulamento de Execução (UE) 2026/1189, a Comissão Europeia não recebeu, dentro do prazo estabelecido, informações consideradas suficientes para garantir que o Brasil cumpriria as novas exigências aplicáveis às categorias bovina, equina, avícola, de aquicultura, mel e tripas.
As regras europeias proíbem o uso de medicamentos antimicrobianos para estimular o crescimento ou aumentar a produtividade dos animais e também restringem a utilização de substâncias reservadas ao tratamento de determinadas infecções em humanos.
As exportações poderão ser retomadas caso o Brasil apresente garantias consideradas suficientes e volte a ser incluído pela União Europeia na lista de países autorizados. O prazo para essa eventual retomada poderá variar de acordo com cada produto e com o resultado das avaliações realizadas pelas autoridades europeias.
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