Decisão da Suprema Corte dos EUA traz alívio ao agronegócio brasileiro, mas cautela permanece
fev, 23, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202609
Segmentos do agronegócio brasileiro que ainda enfrentavam tarifas de importação de 50% no comércio com os Estados Unidos receberam com alívio, na sexta-feira (20), a decisão da Suprema Corte dos EUA que declarou ilegal o amplo aumento tarifário imposto pelo presidente Donald Trump. Ainda assim, representantes do setor e analistas manifestaram otimismo cauteloso diante da imprevisibilidade do líder americano.
A cautela mostrou-se justificada. Pouco depois de a decisão esclarecer que a legislação dos EUA não permite ao presidente impor tarifas sem aprovação do Congresso, Trump anunciou uma tarifa global de 10% sobre todos os países que comercializam com os Estados Unidos por 150 dias. No sábado (21), elevou a alíquota para 15%.
Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro Global, afirmou que a derrubada do aumento tarifário traz um alívio temporário e de curto prazo ao agronegócio, mas não sinaliza um retorno à normalidade nas relações comerciais com os Estados Unidos. Segundo ele, a decisão é particularmente relevante para setores que haviam ficado fora das isenções tarifárias, como café solúvel, pescados, frutas, mel e açúcar.
“Não é um retorno à normalidade pré-tarifas. Ainda há imprevisibilidade e risco. O governo Trump tem outros mecanismos para impor tarifas e restrições comerciais. Eles não são tão diretos, mas ele tem instrumentos à disposição e provavelmente vai usá-los para contornar a Suprema Corte”, disse na sexta-feira. Recontatado no sábado, reiterou sua avaliação.
Gilio já havia apontado que o governo Trump poderia recorrer à Seção 301 da legislação comercial dos EUA para impor tarifas a outros países. O processo é mais lento, pois exige uma investigação das autoridades americanas sobre práticas comerciais. O próprio Brasil está atualmente sob investigação com base nesse dispositivo.
Também na sexta-feira, Larissa Wachholz, especialista do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), recomendou cautela. “A palavra-chave é cautela, porque o cenário é instável e o governo dos EUA parece determinado a manter as tarifas.”
Ela também acredita que Trump pode recorrer a outras medidas para preservar, ao menos até o fim de seu mandato, os impostos anunciados em abril de 2025, citando declarações do próprio presidente de que poderia buscar instrumentos alternativos para manter as tarifas em vigor.
“Pode-se imaginar que produtos como café solúvel e pescados agora teriam acesso mais fácil ao mercado dos EUA. (…) Mas não é algo para comemorar com tranquilidade. Ainda há muita incerteza”, afirmou.
A Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca), que na sexta-feira disse que a decisão da Suprema Corte dos EUA poderia “mudar o rumo” do setor pesqueiro em 2026, voltou a se manifestar no sábado.
Eduardo Lobo, presidente da entidade, disse ao Valor que, mesmo com uma tarifa de 15%, os pescados brasileiros permanecem competitivos no mercado americano. “O setor pesqueiro passou por um período muito difícil em 2025. Fomos atingidos por uma tarifa de 50%, o que nos tornou completamente não competitivos”, afirmou.
Segundo ele, uma tarifa de 15% permite ao segmento recuperar competitividade e ampliar as exportações de pescados para os Estados Unidos. “Não é o ideal, mas é muito melhor”, enfatizou.
Aguinaldo Lima, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), também celebrou tanto a decisão da Corte quanto a nova tarifa global de 15% anunciada no sábado. “A situação vinha piorando mês a mês nas vendas para o que é o maior cliente de café solúvel do Brasil. Agora entramos em uma nova fase — seja com tarifa de 10% ou 15% — que coloca todos os fornecedores em igualdade de condições”, disse.
Em 2025, os Estados Unidos permaneceram como o principal destino do café solúvel brasileiro, comprando o equivalente a 558.740 sacas de 60 quilos, embora isso represente uma queda de 28,2% em relação a 2024, segundo a Abics. Com a derrubada do aumento tarifário, os exportadores podem tentar recuperar clientes perdidos em 2025, afirmou Lima.
Ele acrescentou que o Brasil historicamente foi o produtor de café solúvel mais competitivo do mundo, mas agora enfrenta a concorrência do Vietnã, que deve superar o país em produção e exportações neste ano, beneficiando-se de acordos comerciais dos quais o Brasil não dispõe.
Outro segmento ainda afetado pelo aumento tarifário, o de exportadores de frutas, também avaliou positivamente a decisão da Suprema Corte. Na sexta-feira, a Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas) afirmou em nota que o ambiente mais favorável pode ajudar a melhorar as condições de acesso das frutas brasileiras ao mercado dos Estados Unidos, especialmente para produtos como uvas, melões e melancias, que haviam sido prejudicados pelas restrições tarifárias e perdido competitividade.
Segundos dados extraídos da plataforma DataLiner, da empresa Datamar, o Brasil exportou menos 66,4% de uvas para os EUA em 2025 em relação ao ano anterior. Confira a seguir o histórico das exportações de uvas, em contêineres, para os EUA, ao longos dos últimas quatro anos.
Exportações de Uvas aos EUA | Jan 2022 – Dez 2025 | TEUs
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
Também na sexta-feira, Renato Cunha, presidente do Sindaçúcar-Pernambuco e da Associação dos Produtores de Açúcar, Etanol e Bioenergia (NovaBio), disse que, após a derrubada do aumento tarifário, é “hora de reconstruir” as relações Brasil-EUA “após perdas altamente onerosas”. A expectativa é de que os laços bilaterais se estabilizem após uma reunião prevista para março entre os presidentes Lula e Trump.
Segundo Cunha, a redução das tarifas dificilmente afetará as exportações de açúcar para os Estados Unidos neste momento, pois as usinas do Nordeste brasileiro já embarcaram quase toda a produção da safra 2025/26.
“O foco agora é negociar a safra 2026/27. O cenário anterior nos colocava em uma posição ainda mais difícil”, afirmou. A produção da safra 2026/27 começará a chegar ao mercado em setembro, mas as usinas costumam iniciar as negociações com antecedência, e a incerteza sobre os termos comerciais pode atrasar as vendas.
Por isso, disse Cunha, há expectativa de que a próxima reunião entre Lula e Trump traga uma solução para as exportações brasileiras de açúcar aos Estados Unidos.
Fonte: Valor International
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