Exportações brasileiras ao golfo Pérsico caem 31% em março com bloqueio de Hormuz
abr, 23, 2026 Postado porGabriel MalheirosSemana202617
O fechamento do estreito de Hormuz devido à guerra no Irã interrompeu uma trajetória de alta nas exportações brasileiras para países do golfo Pérsico, importantes mercados para produtos minerais e do agronegócio do Brasil.
Segundo dados da plataforma ComexStat, do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) e da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira (CCAB), as vendas para Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Bahrein e Omã caíram 31,47% em março na comparação anual, para US$ 537,11 milhões.
Mesmo com a queda nas vendas, as contas de março fecharam com superávit de US$ 41,4 milhões, apesar da alta de 113% nas importações no mês mais crítico do conflito.
Já no trimestre de janeiro a março, as exportações tiveram um desempenho positivo de 8,14% para US$ 2,41 bilhões. Com as importações no primeiro trimestre somando US$ 1,4 bilhão, o Brasil ficou com saldo positivo de US$ 1 bilhão no período.
Por enquanto, a alta na venda de alguns produtos foi suficiente para compensar a interrupção total ou queda drástica de embarques de outros, como o milho e o açúcar.
Para o agronegócio, que representa cerca de 75% das exportações à região, as vendas caíram 25,38% em março, mas acumulam alta de 6,8% no trimestre, para US$ 1,44 bilhão. No mês, o açúcar teve queda de 43,37%, para US$ 54,07 milhões; e o milho praticamente não teve embarques para o golfo.
Já o café registrou alta de 34,24% no mês de março, para US$ 9,97 milhões, e de 64,3% no trimestre, para US$ 49,58 milhões.
As carnes de aves e derivados, item de maior peso da pauta agropecuária, tiveram recuo de 13,8% no mês, para US$ 185,5 milhões. No acumulado do ano, recuou 2,32%, totalizando US$ 619,12 milhões.
A carne bovina se destacou positivamente, com alta de 24,7%, ou US$ 47,75 milhões, além de um avanço de 65,29% no trimestre, para US$ 194,56 milhões.
A tabela a seguir, construída a partir dos dados de movimentação de contêineres da Datamar, provê detalhes do fluxo das exportações de carne bovina para os principais destinos no Oriente Médio nos primeiros dois meses de 2026, comparado com o mesmo período do ano anterior.
Exportação de Carne Bovina para o Oriente Médio | Principais Destinos | Jan-Fev 2026 | TEUs
| wdt_ID | wdt_created_by | wdt_created_at | wdt_last_edited_by | wdt_last_edited_at | FOREIGN COUNTRY | Jan-Feb 2026 YTD | YoY Diff 2025 | %Growth | %Market Share |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | I_write_a_lot | 23/04/2026 04:08 PM | I_write_a_lot | 23/04/2026 04:08 PM | EGYPT | 934 | 508,00 | 119.0% | 23% |
| 2 | I_write_a_lot | 23/04/2026 04:08 PM | I_write_a_lot | 23/04/2026 04:08 PM | UNITED ARAB EMIRATES | 854 | 445,00 | 108.8% | 21% |
| 3 | I_write_a_lot | 23/04/2026 04:08 PM | I_write_a_lot | 23/04/2026 04:08 PM | SAUDI ARABIA | 720 | 31,00 | 4.5% | 17% |
| 4 | I_write_a_lot | 23/04/2026 04:08 PM | I_write_a_lot | 23/04/2026 04:08 PM | ISRAEL | 613 | -16,00 | -2.5% | 15% |
| 5 | I_write_a_lot | 23/04/2026 04:08 PM | I_write_a_lot | 23/04/2026 04:08 PM | LEBANON | 195 | -167,00 | -46.2% | 5% |
| 6 | I_write_a_lot | 23/04/2026 04:08 PM | I_write_a_lot | 23/04/2026 04:08 PM | JORDAN | 195 | 23,00 | 13.3% | 5% |
| 7 | I_write_a_lot | 23/04/2026 04:08 PM | I_write_a_lot | 23/04/2026 04:08 PM | IRAQ | 152 | 124,00 | 442.9% | 4% |
| 8 | I_write_a_lot | 23/04/2026 04:08 PM | I_write_a_lot | 23/04/2026 04:08 PM | LIBYAN ARAB JAMAHIRIYA | 148 | -248,00 | -62.6% | 4% |
| 9 | I_write_a_lot | 23/04/2026 04:08 PM | I_write_a_lot | 23/04/2026 04:08 PM | TURKEY | 105 | -170,00 | -61.8% | 3% |
| 10 | I_write_a_lot | 23/04/2026 04:08 PM | I_write_a_lot | 23/04/2026 04:08 PM | QATAR | 101 | 58,00 | 133.9% | 2% |
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
“O desempenho maior da carne bovina expressa uma valorização do preço médio desse produto e não da quantidade exportada. O preço da carne para exportação subiu. Mas o efetivo em toneladas mostrou um recuo”, diz Felippe Serigati, pesquisador do FGV Agro.
Serigati aponta pequenas diferenças nos cálculos da CCAB e do Mdic, o que está ligado a diferenças metodológicas quanto às respectivas agregações de países e tipos de produtos.
Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos continuam sendo os países da região com a maior participação nas exportações brasileiras (46,2% e 38,5%, respectivamente). Os principais produtos vendidos foram as carnes de aves e derivados (34,6%), ouro não monetário (10,2%), açúcares e melaços (10,1%) e carne bovina (8,7%).
Embora os dados anuais indiquem crescimento, em março o conflito causou interrupções importantes das exportações da carne bovina em países como Qatar (-55,3%), Emirados Árabes (-49,5%) e Iraque (-42,5%), avalia o professor Celso Grisi, da FEA-USP (Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo).
Segundo Grisi, os proprietários de navios passaram a cobrar “taxas de guerra” e o fechamento do estreito de Hormuz aumentou o tempo de viagem. Além disso, aponta que “a rota ao redor da África aumentou os custos de frete e seguros, impactando o fluxo final”.
“Em síntese, o crescimento das vendas para países árabes é uma tendência estrutural impulsionada pela dependência alimentar da região e pela qualidade/certificação da carne brasileira, mas esse fluxo enfrenta severas interrupções logísticas durante picos de conflito”, afirma Grisi.
O mercado de carne halal (que segue preceitos islâmicos para o abate animal) é resiliente, segundo Grise. Além disso, o Brasil tem aumentado sua participação nesse mercado no longo prazo, tornando-se o maior exportador mundial de carne halal, o que leva a recordes anuais, como o registrado em 2025 (alta de 1,91% na carne bovina para países árabes).
Ele ainda diz que o aumento de custos e a incerteza logística colocam o mercado em expansão em alerta.
A pauta de importação para os países da região é pouco diversificada, concentrada basicamente em cinco produtos. A importação de fertilizantes dos países do golfo teve um aumento de 268% em março para US$ 30 milhões ante fevereiro de 2026. Em volume, o aumento foi de 171%, para 52,9 mil toneladas em março.
Já no primeiro trimestre de 2026, houve uma queda de 51,35% (de US$ 175 milhões para US$ 85 milhões). Para o volume, a queda foi de quase 60%, de 455 mil toneladas para 183 mil toneladas.
Segundo a Câmara de Comércio Árabe Brasil, os envios de fertilizantes a partir do Qatar foram feitos por avião, para contornar o bloqueio no estreito de Hormuz.
O volume das importações de petróleo, minerais betuminosos e óleo bruto caiu 21% em março em relação a fevereiro, de 633 mil em para 500 mil toneladas. Em valores, a queda foi de 6,14% (US$ 393,6 milhões para US$ 369,4 milhões) no mesmo período.
No trimestre, em relação ao mesmo período em 2025, houve um aumento de 29,5% do total importado, para US$ 1 bilhão.
Fonte: reportagem de Sylvia Miguel para Folha de S. Paulo
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