Exportações do Brasil para os EUA caem ao menor nível em 30 anos após tarifas
jun, 22, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202626
As exportações do Brasil para os EUA caíram ao menor nível em 30 anos após as elevadas tarifas anunciadas pelo governo de Donald Trump em julho de 2025, com quase todos os estados brasileiros registrando redução nas vendas. Os dados oferecem uma prévia do que pode ocorrer nos próximos meses caso as novas sobretaxas se concretizem.
A participação dos EUA nas exportações brasileiras recuou para 9,3% do total embarcado entre agosto de 2025 e maio de 2026, após o anúncio de tarifas de até 50% sobre alguns produtos em 31 de julho de 2025. Nunca, nos quase 30 anos da série histórica iniciada em 1997, a participação americana havia sido tão baixa nesse período de dez meses. Entre agosto de 2024 e maio de 2025, ela era de 12,4%. O pico foi registrado em 2002, quando os EUA respondiam por 26% das exportações brasileiras, antes da forte expansão das vendas para a China.
Dos 26 estados e do Distrito Federal, 24 registraram queda na participação dos EUA nas exportações após o choque tarifário. Em oito deles, a perda foi superior à média nacional de 3,1 pontos percentuais.
Impacto regional
Segundo José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), as novas tarifas não devem comprometer o saldo comercial brasileiro. Ele estima um superávit de US$ 75 bilhões em 2026, acima dos US$ 68,1 bilhões de 2025, impulsionado pelo petróleo, que deve se tornar o principal item exportado pelo país em meio aos efeitos da guerra no Oriente Médio. Ainda assim, ressalta que a política tarifária americana está provocando impactos relevantes em determinados setores e regiões.
Castro afirma que o mercado americano é estratégico, tanto pelo volume quanto pelo prestígio que representa. “Exportar para os Estados Unidos sempre foi um selo de qualidade e capacidade para vender ao mundo inteiro”, disse. No entanto, a política tarifária de Trump trouxe incertezas para essas relações comerciais.
Novas ameaças tarifárias
Com base na Seção 301, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) recomendou, na primeira semana de junho, duas novas sobretaxas para o Brasil:
- Uma tarifa de 12,5%, aplicada a 60 países, relacionada a alegações de falhas no combate ao trabalho forçado;
- Uma tarifa adicional de 25%, considerada mais preocupante, direcionada especificamente ao Brasil, em investigação que envolve desmatamento, propriedade intelectual, corrupção, acordos preferenciais com México e Índia e o sistema de pagamentos Pix.
Essas tarifas se somariam às já existentes sob a Seção 232, que afetam produtos como aço e alumínio.
Impacto potencial
Segundo o economista Sergio Armella, do Goldman Sachs, se ambas as sobretaxas forem implementadas e cumulativas, a tarifa efetiva média dos EUA sobre produtos brasileiros subiria para 18,2%, 8,6 pontos percentuais acima do nível atual.
Cálculos do Valor mostram que a tarifa adicional de 25% afetaria 45,8% das exportações brasileiras para os EUA, enquanto o governo federal estima um impacto de 21%. Mais da metade dos estados brasileiros teria mais de 50% das exportações aos EUA atingidas. Entre os mais vulneráveis estão Alagoas, Amazonas, Ceará, Pará, Paraná, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Roraima e Santa Catarina.
Setores mais expostos
Máquinas e equipamentos
José Velloso, presidente da Abimaq, afirma que o setor já sofreu em 2025, com queda de 9,2% nas exportações aos EUA. A entidade prepara defesa para audiência pública em Washington, argumentando que 82% das exportações do setor são operações entre empresas do mesmo grupo, o que significa que tarifas mais elevadas também prejudicariam investimentos brasileiros nos Estados Unidos e encareceriam a indústria americana.
Pescados
Eduardo Lobo, presidente da Abipesca, destaca que o mercado americano representa 50% das exportações do setor e mais de 90% das vendas externas de tilápia. Em 2025, a receita esperada de US$ 450 milhões acabou ficando próxima de US$ 370 milhões por causa do choque tarifário. Redirecionar os embarques é difícil, pois peixes e frutos do mar exigem especificações e hábitos de consumo diferentes em cada país.
Dados de embarques portuários obtidos pela Datamar revelam que o Brasil exportou 303 TEUs de peixes congelados aos EUA nos primeiros quatro meses do ano. O gráfico abaixo apresenta uma comparação interanual:
Exportação de Peixes Congelados aos EUA | Jan 2023 – Abr 2026 | TEUs
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
Calçados
Haroldo Ferreira, presidente da Abicalçados, afirma que uma tarifa adicional de 25% dificultaria a competição com outros fornecedores internacionais. Durante o período em que vigorou a tarifa de 50%, empresas brasileiras chegaram a exportar com prejuízo para preservar clientes e contratos. As regiões mais afetadas seriam a produção de calçados femininos no Rio Grande do Sul e a produção masculina no interior paulista, especialmente em Franca.
Estratégia jurídica e diversificação
Carol Monteiro de Carvalho, especialista em comércio internacional e sócia do escritório Monteiro e Weiss Trade, explica que as tarifas da Seção 301 são mais difíceis de contestar judicialmente do que as medidas emergenciais baseadas na IEEPA, que foram derrubadas pela Suprema Corte dos EUA em fevereiro. Segundo ela, o caminho é atuar no processo de consulta pública do USTR e trabalhar em conjunto com importadores americanos para demonstrar os impactos econômicos das medidas.
Apesar dos desafios, a política tarifária dos EUA vem estimulando a diversificação dos mercados brasileiros e fortalecendo os laços comerciais com a Ásia, especialmente com a China.
Fonte: Valor International
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