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Exportadores de carne para a China enfrentam riscos ambientais na Amazônia, diz estudo

mar, 26, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202613

Nenhuma das empresas frigoríficas que operam na Amazônia Legal e estão autorizadas a exportar carne bovina para a China e Hong Kong atende plenamente às especificações ambientais recomendadas pela Associação de Carne da China (CMA), segundo análise do Radar Verde obtida pelo Valor. As principais falhas estão nas lacunas de controle sobre fornecedores indiretos e na exposição ao risco de aquisição de gado proveniente de áreas desmatadas.

Paulo Barreto, pesquisador associado do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) e um dos coordenadores do Radar Verde, observa que o atual nível de conformidade não compromete os fluxos de exportação, mas pode servir de base para a alocação de cotas de exportação de carne bovina brasileira. Essa é a proposta que a organização pretende apresentar durante reuniões na China iniciadas na segunda-feira e com duração prevista de duas semanas.

“Na China, vamos nos reunir com universidades, organizações da sociedade civil, representantes da indústria e acadêmicos que assessoram o governo na formulação dessas políticas de cotas para carne bovina. Empresas com menor risco e melhores pontuações poderiam ter acesso a parcelas maiores da cota — é isso que estamos propondo”, explica.

Após uma investigação de salvaguarda, a China impôs cotas aos seus principais fornecedores. Ao Brasil foi atribuída uma cota de 1,1 milhão de toneladas, sujeita a uma tarifa reduzida de 12%, enquanto volumes que excederem essa cota enfrentarão uma tarifa de 55%. Em janeiro e fevereiro, os frigoríficos brasileiros já haviam utilizado 33,6% da cota.

O Radar Verde avaliou os frigoríficos com base na “Especificação para Comércio Verde da Indústria da Carne”, um padrão emitido pela associação chinesa que estabelece critérios de rastreabilidade, transparência e compromissos de desmatamento zero ao longo das cadeias de suprimento. Na Amazônia, entre as 31 plantas autorizadas a exportar para a China, 21 apresentam baixos níveis de controle socioambiental e 10 apresentam níveis muito baixos. Apenas 20 monitoram fornecedores diretos de gado, e nenhuma demonstrou mecanismos eficazes para controlar fornecedores indiretos.

Entre as 71 plantas autorizadas a exportar para Hong Kong, cerca de 61% apresentam baixos níveis de controle socioambiental, e 55% monitoram apenas seus fornecedores diretos, segundo os dados.

O levantamento também mapeou as áreas potenciais de origem do gado desses frigoríficos na Amazônia Legal e identificou riscos de aquisição de animais provenientes de áreas desmatadas que variam de cerca de 31 mil hectares a quase 3,8 milhões de hectares.

Apenas uma empresa, Plena Alimentos, respondeu ao questionário do Radar Verde 2025, que permite às companhias fornecer evidências e informações adicionais sobre suas políticas e práticas socioambientais. Segundo Barreto, todas as empresas foram contatadas. Grandes grupos como MBRF (antiga Marfrig), JBS, Minerva e Frigol são classificados como tendo eficácia muito alta no controle de fornecedores diretos, mas eficácia muito baixa no monitoramento de fornecedores indiretos e, por isso, recebem pontuações gerais baixas.

Em nota ao Valor, a MBRF afirmou que monitora 100% dos fornecedores diretos e indiretos por meio de um sistema que combina tecnologias geoespaciais, cruzamento de bases de dados públicas e protocolos próprios, e que cumpre os requisitos ambientais em todos os mercados em que atua, incluindo a China. A Minerva também declarou possuir sistemas robustos de monitoramento e controle socioambiental e capacidade plena de atender às exigências regulatórias e comerciais em seus mercados.

A Frigol informou que ainda não teve acesso ao relatório do Radar Verde, mas destacou que, desde 2023, verifica 100% de seus fornecedores indiretos de primeiro nível no estado do Pará. A JBS não respondeu aos pedidos de comentário até o fechamento desta edição.

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC), ao ser consultada, reiterou ao Valor que o Radar Verde tem o objetivo “louvável” de ajudar consumidores a tomar decisões de compra, mas apontou que há espaço para melhorias em sua metodologia.

“As políticas das empresas relacionadas a padrões rigorosos de compra não são consideradas. Como resultado, até empresas com altos índices de aprovação em auditorias realizadas no âmbito de termos de ajustamento de conduta podem aparecer negativamente nas análises do Radar Verde”, afirmou a associação. Ela não comentou a possibilidade de o Radar Verde ser utilizado como critério para a alocação de cotas pela China.

Fonte: Valor International

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